— Onde está Genny?
— Foi para Al Shargaz esta manhã, no 125.
— Então Mac partiu? — perguntou Jean-Luc.
— Não, só ela, Mac está...
— Não acredito! — disse Jean-Luc. — Ela jurou que jamais partiria sem o velho Duncan!
Pettikin riu.
— Eu também não acreditava. Mas ela foi que nem um carneirinho. — Há tempo de sobra para contar a Jean-Luc o verdadeiro motivo da sua partida, ele pensou.
As corsas andaram ruins por aqui?
— Sim, e estão piorando. Houve muitas outras execuções. — Pettikin achou melhor não mencionar o pai de Xarazade na frente de Sayada. Não havia nenhum motivo para preocupá-la. — Que tal um chá? Eu acabei de preparar Você soube o que aconteceu com a prisão Qasr hoje?
— O quê?
— Foi invadida por uma multidão — disse Pettikin, indo até a cozinha buscar mais xícaras. — Eles arrombaram o portão e soltaram todo mundo, e prenderam alguns Savaks e policiais, e agora corre o boato de que os Faixas Verdes organizaram tribunais ilegais e estão enchendo as celas com quem quer que seja e esvaziando-as ainda mais depressa diante de pelotões de fuzilamento.
Sayada teria dito que a prisão fora libertada e que agora os inimigos da revolução, os inimigos da Palestina, estavam recebendo um castigo justo. Mas ficou calada e escutou atentamente enquanto Pettikin prosseguia:
— Mac foi cedo com Genny para o aeroporto, depois para o Ministério, depois vem para cá. Ele deve chegar logo. Como estava o trânsito no aeroporto, Jean-Luc?
— Com quilômetros de engarrafamento.
— O velho mandou o 125 ficar em Al Shargaz umas duas semanas para tirar todo o nosso pessoal, se for necessário, ou para trazer novas turmas.
— Ótimo. Scot Gavallan já está com a licença vencida, e também alguns mecânicos. O 125 pode conseguir uma autorização para parar em Shiraz?
— Vamos tentar na próxima semana. Khomeini e Bazargan querem que a produção de petróleo volte a ser feita com força total, por isso nós achamos que eles vão cooperar.
— Vocês vão conseguir trazer turmas novas, Charlie? — disse Sayada, perguntando-se se um 125 britânico deveria ter licença para operar tão livremente. Malditos britânicos, sempre sendo coniventes.
— Esse é o plano, Sayada. — Pettikin despejou mais água fervendo no bule e não notou a careta no rosto de Jean-Luc. — A embaixada britânica nos mandou evacuar todo o pessoal que não fosse essencial. Nós já retiramos algum pessoal supérfluo, e Genny, e Johnny Hogg foi apanhar Manuela Starke em Kowiss.
— Manuela está em Kowiss? — Sayada estava tão surpresa quanto Jean-Luc.
Pettikin contou-lhes que ela tinha chegado e que McIver a mandara para lá
— Tem tanta coisa acontecendo que é difícil se manter a par de tudo. O que você está fazendo aqui e como vão as coisas em Zagros? Vocês vão ficar para jantar? Quem cozinha esta noite sou eu — Jean-Luc disfarçou o seu horror.
— Sinto muito, mon vieux, hoje é impossível. Quanto a Zagros, lá as coisas estão perfeitas, como sempre; afinal, é o setor francês. Eu estou aqui para apanhar o pessoal da Schlumberger. Volto amanhã de madrugada e terei que trazê-los de volta dentro de dois dias. Como poderia resistir a esse vôo extra? — Ele sorriu para Sayada e ela lhe devolveu o sorriso. — Na verdade, Charlie, estou com um fim-de-semana vencido há muito tempo. Onde está Tom Lochart? Quando ele vai voltar para Zagros?
Pettikin sentiu o estômago revirar. Desde que eles receberam a chamada de Rudi Lutz da torre de Abadan há três dias, comunicando que o HBC fora derrubado ao tentar atravessar a fronteira e que Tom Lochart estava "de volta da licença", eles não tinham obtido mais nenhuma informação, exceto uma chamada formal, feita através de Kowiss, dizendo que Lochart estava voltando a Teerã por terra. Ainda não houvera nenhum inquérito oficial a respeito do seqüestro.
Gostaria muito que Tom estivesse de volta, pensou Pettikin. Se Sayada não estivesse aqui, eu contaria tudo a Jean-Luc, ele é mais amigo de Tom do que eu, mas eu não sei quanto a Sayada. Afinal, ela não faz parte da família, ela trabalha para os kuwaitianos, e este negócio do HBC pode ser considerado como traição.
Distraidamente, ele encheu uma xícara e entregou a Sayada, e serviu outra para Jean-Luc, de chá quente, preto, com açúcar e leite de cabra que nenhum deles gostava, mas aceitaram por delicadeza.
— Tom fez o que tinha de fazer — disse cautelosamente, fazendo isso parecer sem importância. — Ele partiu anteontem de Bandar Delam, por terra. Deus sabe quanto tempo ele vai levar para chegar, mas já devia ter chegado ontem à noite. Facilmente. Esperemos que chegue hoje.
— Isso seria perfeito — disse Jean-Luc. — Então ele poderia levar o grupo da Schlumberger para Zagros e eu tiraria alguns dias de licença.
— Você acabou de ter uma licença. E está no comando.
— Bem, pelo menos ele pode voltar comigo, assumir a base e eu volto para cá no domingo. — Jean-Luc sorriu para Sayada. — Voilà, está tudo arranjado. — Sem perceber, ele tomou um gole do chá e quase engasgou. — Mon Dieu, Charlie, eu o amo como a um irmão, mas isso é merde.
Sayada riu e Pettikin o invejou. De qualquer modo, pensou, com o coração disparando, o vôo da Alitalia de Paula deve estar voltando a qualquer momento... o que eu não daria para que os seus olhos se iluminassem por mim como os de Sayada pelo M'sieur Sedução.
É melhor ir com calma, Charlie Pettikin. Você poderia fazer papel de idiota. Ela tem 29 anos, você tem 56, e só conversou com ela umas poucas vezes. Sim. Mas ela me excita mais do que eu me lembro de ter-me sentido excitado há anos e agora eu posso entender por que Tom Lochart se apaixonou por Xarazade.
A campainha do transmissor-receptor de alta freqüência que estava na mesinha começou a tocar. Ele se levantou e aumentou o volume.
— QG de Teerã, vá em frente!
— Aqui é o capitão Ayre em Kowiss para o capitão McIver. Urgente. — A voz estava baixa e acompanhada de estática.
— Aqui é o capitão Pettikin, o capitão McIver não está aqui no momento. Você está em dois por cinco. — Era uma medida, de um a cinco, relativa à força do sinal. — Posso ajudar?
— Alerta Um. Jean-Luc resmungou.
— O que há entre Freddy e você? Capitão Ayre e capitão Pettikin?
— É apenas um código — disse Pettikin, distraidamente, olhando para o aparelho, e a atenção de Sayada aumentou. — Está apenas sendo desenvolvido e significa que alguém está presente ou está ouvindo, alguém que não deveria estar. Um inimigo. Respondendo com a mesma formalidade, você dá a entender que compreendeu a mensagem.
— Isso é muito inteligente — disse Sayada. — Vocês têm muitos códigos, Charlie?
— Não, mas estou começando a desejar que tivéssemos. É horrível não saber o que está acontecendo na realidade. Nenhum contato direto, nenhuma correspondência, nem telefones e o telex uma droga com tantos malucos armados se metendo conosco. Por que eles não entregam as armas e nos deixam viver em paz?
O HF zumbia sem parar. Lá fora, o dia estava nublado e feio, com as nuvens prometendo mais neve, e a luz do cair da tarde fazia os telhados e até as montanhas parecerem sem vida. Eles esperaram impacientemente.
— Aqui é o capitão Ayre de Kowiss... — Mais uma vez a voz estava acompanhada de estática e eles tiveram que se concentrar para poder ouvir. — ...primeiro vou transmitir uma mensagem recebida de Zagros Três há poucos minutos atrás, do capitão Gavallan. — Jean-luc ficou tenso. — A mensagem dizia exatamente: "Pan pan pan" — o sinal de socorro da aviação aérea internacional que vinha logo abaixo de Mayday. — "Acabei de ser informado pelo komiteh local que não somos mais persona grata em Zagros e que devemos evacuar da área todos os estrangeiros das nossas plataformas, dentro de 48 horas, senão... Solicito instruções imediatas". Fim da mensagem. Você anotou?