Sayada riu e, ficando na ponta dos pés, beijou-o.
— Ah, Jean-Luc, eu amo você e a sua segurança. Agora, mon vieux, temos que ir, você tem um monte de coisas para fazer.
Depois que eles saíram, Pettikin foi até a janela e olhou para os telhados lá fora. Havia os inevitáveis tiroteios esporádicos e um pouco de fumaça perto de Jaleh. Não era um incêndio grande. Uma brisa gelada espalhava a fumaça. As nuvens cobriam as montanhas. O frio que vinha da janela era muito forte; gelo e neve cobriam o parapeito. Na rua, lá embaixo, havia muitos Faixas Verdes. A pé ou de caminhão. Então, de todos os minaretes, os muezins começaram a chamar para a oração da tarde. Os chamados pareciam cercá-lo.
Subitamente, ele se encheu de horror.
NO MINISTÉRIO DA AERONÁUTICA: 17:04H. Duncan McIver estava sentado, exausto, numa cadeira de madeira num canto da ante-sala lotada do ministro. Estava com frio e com fome e muito irritado. Seu relógio mostrou-lhe que esperava há quase três horas.
Havia uns 12 homens espalhados pela sala, iranianos, franceses, americanos, ingleses e um kuwaitiano usando um galabia — um longo camisolão árabe — e um turbante. Há alguns minutos atrás, os europeus tinham parado educadamente de conversar, uma vez que, em resposta aos chamados dos muezins, que ainda soavam através das altas janelas, os muçulmanos tinham-se ajoelhado, de frente para Meca, para fazerem a oração da tarde. Esta foi curta e terminou logo e mais uma vez a conversa recomeçou, superficial. Não era conveniente discutir nada de importante num escritório do governo, principalmente agora. A sala era arejada e o ar estava gelado. Todos usavam seus sobretudos, todos igualmente cansados, alguns estóicos, a maioria com ódio, pois todos, como McIver, tinham hora marcada para muito antes.
— Insha'Allah, ele murmurou, mas isso não o ajudou.
Com um pouco de sorte, Gen já estará em Al Shargaz, pensou. Estou muito feliz dela estar fora daqui, e muito feliz por ela ter concordado por si mesma:
— Sou eu que tenho que falar com Andy. Não se pode pôr nada por escrito.
— Isso é verdade — ele tinha dito, apesar das suas dúvidas, acrescentando relutantemente: — Talvez Andy consiga fazer um plano que possamos realizar. Mas que não tenhamos que fazê-lo. É perigoso demais. Há rapazes e aviões demais espalhados por aí. É perigoso demais. Gen, você se esquece que nós não estamos em guerra apesar de estarmos no meio de uma.
— Sim, Duncan, mas não temos nada a perder.
— Podemos perder vidas, bem como aparelhos.
— Nós só vamos ver se é exeqüível, não é, Duncan?
A velha Gen é sem dúvida a melhor mensageira que poderíamos ter — se realmente precisássemos de uma. Ela está certa, é perigoso demais escrever isto numa carta: "Andy, a única maneira de sairmos desta confusão é ver se podemos organizar um plano para retirar todos os nossos aparelhos e peças, que estão atualmente sob registro iraniano e que, tecnicamente, são propriedade de uma companhia iraniana chamada CHI..."
— Cristo! Isso é conspiração!
— Partir não é a solução. Nós temos que ficar e trabalhar e pegar o nosso dinheiro quando os bancos abrirem. De algum modo, eu tenho que convencer os sócios a ajudar — ou talvez este ministro possa nos dar uma ajuda. Se ele ajudar, não importa o quanto isso custe, nós poderíamos esperar a tempestade passar aqui mesmo. Qualquer governo precisa de ajuda para extrair o seu petróleo, eles têm que ter helicópteros e nós vamos conseguir o nosso dinheiro...
Ele levantou os olhos quando a porta se abriu e um funcionário fez sinal para alguém entrar no gabinete. Pelo nome. Não parecia haver nenhuma lógica no modo das pessoas serem recebidas. Mesmo no tempo do xá, não era nunca por ordem de chegada. Era somente por influência. Ou dinheiro.
Talbot, da embaixada britânica, tinha conseguido o encontro para ele com o assessor do ministro e tinha-lhe dado uma carta de apresentação.
— Sinto muito, meu velho, nem mesmo eu consigo falar com o primeiro-ministro, mas Antazam é uma boa pessoa, fala bem inglês. Não é um desses birutas revolucionários. Ele vai atendê-lo.
McIver tinha voltado do aeroporto pouco antes do almoço e estacionara o mais perto possível dos escritórios do governo. Ao apresentar a carta, em inglês e em farsi, para o guarda da porta principal, ainda com bastante antecedência, o homem o mandara falar com outro guarda, num outro edifício, e depois de mais interrogatórios, para este edifício e de escritório em escritório, até que ele tinha chegado ali, uma hora atrasado e fumegando de raiva.
— Ah, não se preocupe, aga, o senhor tem muito tempo — dissera o funcionário da recepção, amavelmente, para seu alívio em bom inglês, e devolvera-lhe o envelope contendo a carta de apresentação. — Este é o escritório certo. Por favor, entre por aquela porta e sente-se na ante-sala. O ministro Kia vai vê-lo o mais breve possível.
— Eu não quero vê-lo! — McIver explodira. — O meu encontro é com o ministro Antazam!
— Ah, ministro Antazam, sim, aga, mas ele não faz mais parte do gabinete do primeiro-ministro Bazargan. Insha'Allah — disse o jovem, agradavelmente. — O ministro Kia lida com tudo o que diz respeito a, ahn, estrangeiros, finanças e aviões.
— Mas eu insisto... — McIver parou quando atentou para o nome e se lembrou do que Talbot dissera sobre Kia e de como os sócios restantes da CHI tinham plantado esse homem no conselho em troca de uma enorme soma e nenhuma garantia de assistência. — Ministro Ali Kia?
— Sim, aga, o ministro Ali Kia vai recebê-lo o mais breve possível. — O recepcionista era um jovem simpático, bem vestido, com um terno, camisa branca e gravata azul, exatamente como nos velhos tempos. McIver tivera a idéia de colocar um pishkesh de 5.000 riais no envelope junto com a apresentação, exatamente como nos velhos tempos. O dinheiro tinha desaparecido.
Talvez as coisas estejam mesmo voltando ao normal, pensou McIver. Ele entrou na outra sala e sentou-se num canto e começou a esperar. No seu bolso havia um outro maço de notas e ele imaginou se deveria tornar a encher o envelope com a quantia certa. Por que não?, pensou, nós estamos no Irã, funcionários sem importância precisam de quantias sem importância, funcionários graduados precisam de dinheiro grosso — perdão, pishkesh. Certificando-se de que não estava sendo observado, colocou algumas notas altas no envelope, depois acrescentou mais algumas por segurança. Talvez esse idiota possa realmente ajudar-nos — os sócios costumavam ter a corte nas mãos, talvez tenham feito o mesmo com Bazargan.
De vez em quando, funcionários apressados passavam com um ar de importância pela ante-sala, com papéis nas mãos, e tornavam a sair. Ocasionalmente, um dos homens que estava esperando era gentilmente convidado a entrar. Sem exceção, eles ficavam lá dentro apenas por poucos minutos e saíam com o rosto pálido, ou vermelho, furiosos, e obviamente de mãos vazias. Aqueles que ainda estavam esperando iam se sentindo cada vez mais frustrados. O tempo passava muito devagar.
— Aga McIver! — A porta do gabinete estava aberta e um funcionário fazia sinal para ele entrar.
Ali Kia estava sentado atrás de uma enorme escrivaninha, sem nenhum papel em cima. Tinha um sorriso nos lábios, mas seus olhos eram pequenos e duros e McIver não gostou dele instintivamente.
— Ah, ministro, quanta gentileza em receber-me — disse McIver, forçando o bom humor e oferecendo-lhe a mão. Ali Kia sorriu educadamente e estendeu-lhe uma mão flácida.