— Por favor, sente-se, sr. McIver. Obrigado por vir ver-me. O senhor tem uma apresentação, eu creio.
O seu inglês era bom, com um sotaque de Oxford, onde ele freqüentara a universidade, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, com uma bolsa dada pelo xá, ficando lá durante toda a guerra. Ele fez um aceno de mão cansado para o funcionário que estava ao lado da porta. O homem saiu.
— Sim, ahn, era para o ministro Antazam, mas percebo que deveria ser dirigida ao senhor. — McIver entregou-lhe o envelope. Kia tirou a carta, verificou a quantia que havia no envelope, atirou displicentemente o envelope em cima da mesa para mostrar que mais dinheiro seria bem-vindo, leu a nota manuscrita com cuidado, depois colocou-a na sua frente.
— O sr. Talbot é um honrado amigo do Irã, embora seja representante de um governo hostil — disse Kia, com voz suave. — Que ajuda posso dar ao amigo de uma pessoa tão honrada?
— Há três coisas, ministro. Mas talvez eu tenha permissão para dizer o quanto estamos felizes na S-G pelo senhor ter concordado em nos conceder o benefício da sua valiosa experiência, juntando-se ao nosso conselho.
— Meu primo foi muito insistente. Duvido que eu possa ajudar, mas seja como Deus quiser.
— Seja como Deus quiser. — McIver o observava cuidadosamente, tentando compreendê-lo, e não conseguiu explicar o seu desagrado imediato, que teve muito trabalho para esconder. — Primeiro, existe um boato de que todas as joint ventures estão suspensas, dependendo de uma decisão do Komiteh Revolucionário.
— Dependendo de uma decisão do governo — Kia corrigiu-o secamente. — E daí?
— Como isto afetará a nossa sociedade, a CHI?
— Eu duvido que a afete de algum modo, sr. McIver. O Irã precisa dos helicópteros para a produção de petróleo. A Guerney Aviation fugiu. Parece que o futuro da sua companhia promete ser melhor do que nunca.
McIver disse cautelosamente:
— Mas há muitos meses que não somos pagos por serviços prestados no Irã. Temos feito todos os pagamentos de leasing das aeronaves com dinheiro de Aberdeen e estamos com os aparelhos sobrecarregados em relação à quantidade de trabalho que temos para fazer.
— Amanhã os bancos... o Banco Central deve abrir. Por ordem do primeiro-ministro. E do aiatolá, é claro. Uma parte do dinheiro devido será paga, tenho certeza.
— O senhor poderia nos dar uma idéia de quanto podemos esperar, ministro? — McIver sentiu-se mais esperançoso.
— Mais do que o suficiente para... para continuar com as operações. Eu já providenciei para que o senhor retire as suas turmas, uma vez que os substitutos estejam aqui. — Ali Kia tirou uma pasta fina de uma gaveta e entregou-lhe um papel. Era uma ordem dirigida ao Serviço de Imigração dos aeroportos de Teerã, Abadan e Shiraz, para permitir a saída de pilotos e mecânicos da CHI à medida que outros fossem chegando. A ordem estava mal datilografada mas era legível, em farsi e em inglês, e estava assinada em nome do komiteh responsável pela IranOil e datada da véspera. McIver nunca tinha ouvido falar nele.
— Obrigado. Posso pedir também a sua autorização para que o 125 faça ao menos três viagens por semana nas próximas semanas? É claro que só até que os seus aeroportos internacionais voltem ao normal, para trazer turmas, peças, equipamentos, peças de substituição, e assim por diante, e — ele acrescentou com naturalidade —, para retirar pessoal supérfluo.
— Poderia ser possível aprovar isso — disse Kia. McIver estendeu-lhe o bolo de papéis.
— Eu tomei a liberdade de colocar isso por escrito, para poupar-lhe o trabalho, ministro, com cópias dirigidas ao Controle de Tráfego Aéreo de Kish, Kowiss, Shiraz, Abadan e Teerã.
Kia leu cuidadosamente a primeira cópia. Estava escrita em farsi e em inglês, de uma forma simples e direta, com as formalidades corretas. Seus dedos tremiam. Assiná-las seria ir muito além da sua autoridade, mas agora que o assistente do primeiro-ministro caíra em desgraça, bem como o seu próprio superior — ambos aparentemente destituídos pelo ainda misterioso Komiteh Revolucionário — e com o caos cada vez maior no governo, ele sabia que tinha que assumir o risco. A necessidade absoluta que tinha de que ele, sua família, e seus amigos tivessem acesso imediato a um avião particular, especialmente um jato, compensava o risco.
Eu posso sempre alegar que o meu superior mandou que eu assinasse, pensou, mantendo o nervoso longe do rosto e dos olhos. O 125 é um presente de Deus — no caso de serem espalhadas mentiras contra mim. Maldito Jared Bakravan! A minha amizade com o cão do bazar quase me envolveu na sua traição contra o Estado; eu nunca emprestei dinheiro na minha vida, nem me meti em conspirações com estrangeiros, nem apoiei o xá.
Para manter McIver na incerteza, ele atirou os papéis ao lado da carta de apresentação, quase com raiva.
— Isso poderia ser aprovado. Haveria uma taxa de 500 dólares por pouso. Isso era tudo, sr. McIver? — perguntou, sabendo que não. Seu inglês cínico! Você acha que pode me enganar?
— Só mais uma coisa, Excelência — McIver entregou-lhe o último papel. — Nós temos três aparelhos que precisam desesperadamente de manutenção e reparos. Eu preciso de uma autorização de saída para poder mandá-los para Al Shargaz. — Ele prendeu a respiração.
— Não há necessidade de mandar para fora aparelhos tão valiosos, sr. McIver. Conserte-os aqui.
— Oh, eu o faria se pudesse, Excelência, mas não é possível. Nós não temos nem as peças nem os técnicos. E cada dia que um dos nossos helicópteros fica parado custa uma fortuna aos nossos sócios. Uma fortuna — ele repetiu.
— E claro que o senhor pode consertá-los aqui, sr. McIver, basta trazer as peças e os técnicos de Al Shargaz.
— Fora o custo do aparelho, há o pagamento e as diárias das equipes. É tudo muito caro; talvez eu devesse mencionar que este custo cabe aos sócios iranianos, isso faz parte do acordo... fornecer todas as autorizações de saída necessárias. — McIver continuou a se lamentar. — Nós precisamos ter todo o equipamento existente pronto para cumprir todos os novos contratos da Guerney se o aia... se, ahn, quisermos obedecer ao decreto do novo governo de que a produção de petróleo deve ser normalizada. Sem equipamento... — Ele deixou a frase no ar e mais uma vez prendeu a respiração, rezando para ter escolhido a isca certa.
Kia franziu a testa. Qualquer coisa que custasse dinheiro aos sócios iranianos, agora, sairia parcialmente do seu próprio bolso.
— Em quanto tempo eles seriam consertados e trazidos de volta?
— Se eu puder levá-los dentro dos próximos dois dias, deve levar mais ou menos uma semana.
Mais uma vez Kia hesitou. Os contratos da Guerney, somados aos contratos da CHI já existentes, aos helicópteros, equipamentos, acessórios e peças valiam milhões, dos quais ele agora tinha uma sexta parte — sem ter investido nada, ele riu por dentro. Principalmente quando tudo era executado, sem custos, por esses estrangeiros. Autorização de saída para três helicópteros? Ele deu uma olhada no relógio. Era um Cartier todo enfeitado — um pishkesh de um banqueiro que, há duas semanas atrás, tinha precisado ter acesso por meia hora, em particular, a um telex que estivesse funcionando. Daqui a poucos minutos, ele tinha um encontro marcado com o chefe do Controle de Tráfego Aéreo e poderia facilmente embrulhá-lo e conseguir a autorização.
— Muito bem — disse, encantado por ser tão poderoso, um funcionário em ascensão, por poder ajudar na implementação da política de petróleo do governo e ao mesmo tempo economizar o dinheiro dos sócios.
— Muito bem, mas as autorizações de saída só serão válidas por duas semanas, a licença vai custar — ele pensou um momento — vai custar cinco mil dólares por aparelho, em dinheiro, antes da saída, e eles deverão estar de volta em duas semanas.