— Eu, eu não vou conseguir arranjar este dinheiro a tempo. Eu poderia dar-lhe um vale, ou cheques para serem descontados num banco suíço — de dois mil dólares por aparelho.
Eles barganharam por alguns momentos e chegaram a 3.100 dólares.
— Obrigado, Aga McIver. — Ali Kia disse gentilmente. — Por favor, saia cabisbaixo para não encorajar aqueles patifes que estão esperando lá fora.
Quando McIver estava mais uma vez no seu carro, ele apanhou os papéis e olhou para as assinaturas e para o carimbo oficial.
— É quase bom demais para ser verdade — murmurou alto. Agora o 125 está legalizado, Kia diz que a suspensão não vai se aplicar a nós, nós temos vistos de saída para três 212 que são necessários na Nigéria, por 9.310 dólares, contra o valor deles de três milhões, é mais do que justo! Eu nunca achei que iríamos conseguir! — E disse alegremente: — McIver, você merece um uísque! Um uísque bem grande!
NOS ARREDORES, AO NORTE: 18:50H. Tom Lochart saiu do táxi velho e amassado, e deu uma nota de vinte dólares ao homem. Sua capa de chuva e seu uniforme de piloto estavam amassados e ele parecia muito cansado, sujo, com a barba por fazer e se sentia imundo, mas a sua alegria por estar defronte ao seu próprio edifício e perto de Xarazade depois de tanto tempo espantava qualquer cansaço. Uns poucos flocos de neve estavam caindo, mas ele mal notou ao correr para dentro e subir as escadas — não adiantava tentar o elevador, ele não funcionava há meses.
O carro que tomara emprestado com um dos pilotos em Bandar Delam ficara sem gasolina na véspera, no meio do caminho para Teerã, e com um defeito no marcador de gasolina. Ele o deixara numa garagem e conseguira pegar um ônibus e, depois outro, depois de enguiços, atrasos e desvios, chegara ao terminal de Teerã há duas horas. Sem lugar para se lavar, sem água corrente, os banheiros sempre os mesmos imundos buracos no chão.
Não havia nenhum táxi no ponto nem nas ruas. Nenhum ônibus ia para perto da sua casa. Era longe demais para ir a pé. Então um táxi apareceu e ele o fez parar. Embora estivesse quase lotado, de acordo com o hábito, abriu a porta e forçou a entrada, suplicando aos outros passageiros que permitissem que ele partilhasse do seu transporte. Foi feito um acordo razoável. Eles ficariam honrados em levá-lo e ele ficaria honrado em pagar por todos eles, ser o último e pagar ao motorista em dinheiro. Dinheiro americano. Era a sua última nota.
Apanhou a chave e tentou abrir a porta, mas a tranca estava passada por dentro, então tocou a campainha, esperando impacientemente pela empregada; Xarazade nunca viria abri-la. Tamborilou alegremente na porta, com o coração cheio de amor por ela. Sua excitação aumentou ao ouvir os passos da empregada se aproximando, a tranca sendo tirada, a porta se abrindo. Uma mulher estranha, usando o chador, encarou-o.
— O que o senhor deseja, aga! — Sua voz era tão rude quanto o seu farsi.. Sua excitação desapareceu, deixando no lugar um grande vazio.
— Quem é você? — perguntou com a mesma grosseria. A mulher começou a fechar a porta, mas ele pôs o pé na frente, impedindo-a. — O que você está fazendo na minha casa? Eu sou Excelência Lochart e esta é a minha casa! Onde está Sua Alteza, minha mulher? Hein?
A mulher olhou-o com um ar ameaçador, depois caminhou até a porta da sala e abriu-a. Lochart viu pessoas estranhas lá, homens e mulheres, e armas encostadas na parede.
— Que diabo está havendo aqui? — resmungou em inglês e entrou na sua sala de estar. Dois homens e quatro mulheres levantaram os olhos dos seus tapetes, onde estavam sentados de pernas cruzadas ou recostados em almofadas, fazendo uma refeição em frente à sua lareira, onde um fogo crepitava alegremente, com os pratos espalhados ao acaso, sem sapatos, de pés sujos. Um dos homens, mais velho do que os outros, com cerca de quarenta anos, estava com a mão numa automática enfiada no cinto.
Lochart ficou cego de raiva, sentindo a presença daqueles estranhos como se fosse um estupro e um sacrilégio.
— Quem são vocês? Onde está minha mulher? Por Deus, saiam Já da m... Parou. O revólver estava apontado para ele
— Quem é você, aga!
Com um esforço supremo, Lochart dominou a fúria, com dor no peito
— Eu sou... eu sou... esta é... é a minha casa... eu sou o dono.
— Ah, o dono. Você é o dono? — O homem chamado Teymour interrompeu-o com uma risada breve. — O estrangeiro, o marido da mulher Bate ravan? Vo... — A automática foi apontada quando Lochart fez menção de atacá-lo. — Não faça isso! Eu atiro com muita rapidez e muita pontaria. Revistem-no. — Disse ao outro homem, que se levantou imediatamente. O homem correu as mãos por ele, demonstrando experiência, tirou-lhe a maleta das mãos e revistou-a.
— Nenhuma arma. Manuais de vôo, bússola.. Você é o piloto Lochart?
— Sim disse Lochart, com o coração bateftdo
— Sente-se ali. Agora!
Lochart sentou-se na cadeira, bem distante do fogo. O homem colocou o revólver no tapete ao seu lado e apanhou um papel.
— Dê isto a ele.
O outro homem obedeceu. O papel estava escrito em farsi. Todos o observavam cuidadosamente. Lochart levou um certo tempo para decifrar a letra: "Ordem de confisco. Por crimes contra o Estado islâmico, todas as propriedades de Jared Bakravan estão confiscadas, exceto a casa da sua família e sua loja no bazar". Estava assinado em nome de um komiteh por alguém, que ele não conseguiu entender e datava de dois dias atrás.
— Isso... isso é ridículo — Lochart começou a dizer, desamparadamente.
— Sua... Sua Excelência Bakravan foi um dos maiores sustentadores do aiatolá Khomeini. Um dos maiores. Deve haver algum engano.
— Não há nenhum engano. Ele foi preso, condenado por agiotagem e executado.
Lochart encarou-o, perplexo.
— Tem... tem que haver algum erro!
— Não há nenhum erro, aga. Nenhum — disse Teymour, com uma ponta de delicadeza na voz, vigiando Lochart cuidadosamente, vendo o perigo que ele representava. — Nós sabemos que você é canadense, um piloto, que esteve fora, que é casado com uma das filhas do traidor e que não é responsável pelos crimes dele, nem pelos dela, caso ela tenha cometido algum. — Sua mão buscou a arma, ao ver Lochart enrubescer. — Eu disse 'se', aga, controle a sua raiva.
— Ele esperou e não apanhou a sua bem conservada Luger, embora estivesse preparado. — Nós não somos agitadores despreparados, nós somos Combatentes da Liberdade, profissionais, e deram-nos estas instalações para guardar para personalidades retardatárias. Nós sabemos que você não é um inimigo, então acalme-se. É claro que isto deve ser um choque para você. Nós entendemos, é claro que entendemos, mas temos o direito de tomar o que é nosso.
— Direito? Que direito vocês têm de..
— Direito de conquista, aga. Algum dia foi diferente? Vocês, britânicos, deviam saber disso melhor do que ninguém. — Sua voz se manteve calma. As mulheres observavam com olhos frios e duros. — Acalme-se. Nenhum dos seus pertences foi tocado. Ainda. — Ele fez um gesto com a mão. — Veja por si mesmo.
— Onde está minha mulher?
— Eu não sei, aga. Não havia ninguém aqui quando chegamos. Nós chegamos esta manhã.
Lochart estava quase louco de preocupação. Se o pai foi condenado, será que a família iria pagar? Todo mundo? Espere um minuto! Tudo confiscado "...exceto a casa", não era isto que estava escrito no papel? Ela tem que estar lá... Cristo, fica a quilômetros de distância e eu não tenho carro..
Ele estava tentando fazer a cabeça trabalhar.
— Você disse, você disse que nada foi tocado 'ainda'. Você quer dizer que será tocado em breve?
— Um homem inteligente protege os seus bens. Seria aconselhável levar os seus bens para um lugar seguro. Tudo que pertencia a Bakravan ficará aqui, mas e os seus bens? — Ele deu de ombros. — É claro que pode levá-los, nós não somos ladrões