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— E os bens da minha esposa?

— Os dela também. É claro. Coisas pessoais. Eu já disse que não somos ladrões.

— Quanto... quanto tempo eu tenho?

— Até às cinco horas da tarde de amanhã.

— Isso não é suficiente. Não pode ser até depois de amanhã?

— Até às cinco da tarde de amanhã. Você gostaria de comer alguma coisa?

— Não, não, obrigado.

— Então até logo, aga, mas primeiro dê-me as suas chaves, por favor. Lochart enrubesceu apesar do controle. Tirou as chaves do bolso e entregou-as ao outro homem, que estava próximo. — Você falou em personalidades. Que personalidades?

— Personalidades, aga. Este lugar pertencia a um inimigo do Estado, agora ele é de propriedade do Estado para dar para quem ele quiser. Sinto muito, mas é claro que você compreende.

Lochart olhou para ele, depois para o outro homem e depois para ele de novo. Seu cansaço agora lhe pesava. E sua impotência.

— Eu, ahn, antes de sair eu gostaria de fazer a barba e trocar de roupa. Está bem?

Depois de uma pausa, Teymour disse:

— Sim. Hassan, vá com ele.

Lochart saiu, acompanhado por Hassan com ódio deles e de tudo o que estava acontecendo. Seguiu pelo corredor e entrou no seu próprio quarto. Nada fora tocado, embora todos os armários estivessem abertos, bem como as gavetas, e houvesse um cheiro de fumaça de cigarro, mas não havia nenhum sinal de uma partida apressada nem de violência. A cama tinha sido usada. Acalme-se e faça um plano. Eu não posso. Muito bem, então tome um banho, faça a barba e vá até a casa de Mac, não fica muito longe e você pode caminhar até lá. Ele vai ajudá-lo, ele vai emprestar-lhe dinheiro e um carro e você vai encontrar Xarazade na casa de sua família. E não pense em Jared — simplesmente não pense.

PERTO DA UNIVERSIDADE: 20:10H. Rakoczy chegou a lamparina para mais perto do maço de papéis, diários, pastas e documentos que tinha roubado do cofre da embaixada dos Estados Unidos, e continuou a separá-los. Ele estava sozinho no pequeno quarto de uma casa de cômodos — um de uma série de cômodos semelhantes, a maioria de estudantes, que lhe fora alugado por Farmad, o líder estudantil do Tudeh que tinha sido morto na noite do comício. O quarto era sujo, sem aquecimento, e tinha apenas uma cama, uma mesa trôpega, uma cadeira, e uma janela minúscula. As vidraças estavam rachadas e cobertas com papelão.

Ele riu alto. Tanta coisa acontecera e a um custo tão pequeno. O plano tinha sido muito bom. O tumulto encenado do lado de fora dos portões da embaixada — depois o súbito tiroteio dos telhados em frente, criando pânico, a rápida invasão do prédio — a única oposição tinha vindo dos fuzileiros armados de metralhadoras, e mesmo assim com ordens para não atirar — no tempo justo antes da chegada dos partidários de Khomeini para sufocar a rebelião, matar-nos ou capturar-nos. Protegido pelo pandemônio, correra para os fundos do prédio, arrombando a porta lateral, depois subira as escadas dos fundos sozinho, enquanto o seu grupo criava mais tumulto do lado de fora, atirando para o ar, gritando, tomando cuidado para não matar ninguém mas fazendo um bocado de barulho. Um andar, depois o outro, depois correra pelo corredor gritando com os americanos, duas velhas assustadas e um rapaz:

— Para o chão, deitem-se, ou todo mundo morre.

Eles obedeceram apavorados, assim como todos os outros — eu não os culpo, o ataque fora tão súbito e eles estavam tão despreparados, desarmados e foram levados ao pânico. Dentro do quarto. Vazio, exceto por um empregado iraniano paralisado de medo, com os braços sobre a cabeça, e metade do corpo debaixo da cama. Explodira o cofre rapidamente, pondo tudo na mala, tornara a sair, descendo a escada de três em três degraus, depois fugira em direção à multidão, com Ibrahim Kyabi e os outros a protegê-lo, recuando com perfeição, tendo alcançado todos os objetivos.

A chefia tem que ficar impressionada, ele tornou a pensar, a minha promoção a major tem que estar garantida, e papai vai ficar tão orgulhoso de mim.

— Por Deus e pelo Profeta — disse involuntariamente, enquanto outra onda de felicidade o invadia, sem notar que falara alto. — Eu nunca me senti tão realizado em minha vida.

Ele voltou alegremente ao trabalho. Até agora o cofre não havia revelado nenhum tesouro, mas um monte de documentos a respeito do envolvimento da CIA no Irã, alguns carimbos particulares do embaixador, um livro de código que podia ser importante, contas particulares, algumas jóias de pouco valor, algumas moedas antigas. Não importa, pensou. Ainda falta examinar muita coisa, diários e papéis pessoais.

O tempo passou depressa para ele. Em breve Ibrahim Kyabi estaria lá para discutir a Marcha das Mulheres. Ele queria saber como prejudicá-la em favor dos objetivos do Tudeh e contra Khomeini e o xiismo. Khomeini é o verdadeiro perigo, pensou, o único perigo. Aquele velho estranho, ele e a sua intransigência monolítica. Quanto mais cedo ele for levado à presença do Não-Deus, melhor.

Uma corrente de ar gelado entrou pelas vidraças quebradas. Isso não o perturbou. Ele se sentia aquecido, pois estava usando a sua grossa jaqueta de couro, suéter, camisa, roupa de baixo, meias e sapatos grossos. "Use sempre meias e sapatos de boa qualidade para o caso de ter que correr", tinham dito seus professores. "Esteja sempre preparado para correr..."

Ele se lembrou, divertido, da perseguição de Erikki Yokkonen, de tê-lo levado para dentro do labirinto e de tê-lo deixado perdido perto da Casa dos Leprosos. Tenho certeza de que vou ter que matá-lo um dia, pensou. E a gata brava da sua mulher. E quanto a Azadeh? E quanto à filha de Abdullah Khan, Abdullah, o Cruel, que embora valioso como agente duplo está se tornando arrogante demais, independente demais e poderoso demais para a nossa segurança? Sim, mas agora eu gostaria que tanto o marido quanto a mulher estivessem de volta a Tabriz, fazendo o que precisamos que façam. E quanto a mim, eu gostaria de estar de licença de novo. Em casa, em segurança, outra vez Igor Mzytryk, capitão da KGB, em casa com Delaurah, envolvendo-a com os meus braços, na nossa linda cama com os mais finos lençóis da Irlanda, seus olhos verdes brilhando, sua pele macia como pêssego, e tão linda. Daqui a sete semanas nasce o nosso primogênito. Oh, eu espero que seja um filho...

Com parte da audição — já que seu ouvido estava sempre atento a qualquer sinal de perigo — ele ouviu os muezins chamando para a oração da noite. Começou a limpar a pequena mesa. Muito em breve Ibrahim Kyabi estaria lá e não havia necessidade do rapaz tomar conhecimento de coisas que não lhe diziam respeito. Ele guardou tudo, rapidamente, na sacola. Levantou uma tábua do assoalho e colocou a sacola no buraco que havia por baixo e que continha também uma automática carregada, de reserva, cuidadosamente embrulhada em oleado e meia dúzia de granadas britânicas. Um pouco de terra espalhada nas fendas e não havia mais sinal do esconderijo. Diminuiu a chama da lamparina e afastou as cortinas. Havia um pouco de neve do lado de dentro do parapeito. Satisfeito, ficou esperando. Passou-se meia hora. Kyabi não costumava se atrasar.

Então ele escutou passos. Apontou a automática para a porta. O código da batida foi impecável; mesmo assim, quando destrancou a porta, encostou-se na parede e escancarou-a, pronto para atacar, caso fosse um inimigo. Mas era Ibrahim Kyabi, todo agasalhado e satisfeito por estar lá.

— Sinto muito, Dimitri — disse, batendo com os pés, com um pouco de neve presa no seu cabelo escuro e crespo —, mas os ônibus são quase inexistentes.

Rakoczy tornou a trancar a porta.

— A pontualidade é importante. — Você queria saber quem era o mulá que estava no helicóptero de Bandar Delam quando o seu pai foi assassinado, pobre homem. Eu consegui o nome para você. — Ele viu os olhos do rapaz se iluminarem e disfarçou um sorriso. — Seu nome é Hussein Kowissi e ele é o mulá de Kowiss. Você conhece o lugar?

— Não, não, eu nunca estive lá. Hussein Kowissi? Ótimo. Obrigado.