Não, nós não queremos Yasernov, mas nós queremos — eu quero — o pai, que se supõe morar em algum lugar ao norte da fronteira, ao nosso alcance, oh, Deus, fazei com que ele esteja vivo e ao nosso alcance, pois nós adoraríamos arrancar informações daquele desgraçado por todos os meios possíveis — ex-chefe do serviço de espionagem no Extremo Oriente, conferencista em espionagem na Universidade de Vladivostok, membro graduado do Partido e Deus sabe o que mais desde então.
— Eu acho... nós achamos que Yazernov é mais importante do que apenas um elo de ligação entre o Tudeh e os estudantes. Ele é um sósia perfeito do seu dissidente curdo, Ali bin Hassan Karakose.
— Você quer dizer que eles são o mesmo homem?
— Sim.
— Impossível.
Armstrong deu de ombros. Tinha atirado um osso; se ele não quisesse roê-lo, isso era problema dele. O trânsito estava engarrafado de novo, com todo mundo buzinando e xingando. O homem corpulento fechou os ouvidos ao barulho e apagou o cigarro iraniano.
Hashemi franziu a testa, observando-o.
— Qual é o seu interesse em Karakose e nos curdos, se é verdade o que você está dizendo?
— Os curdos estão espalhados por todas as fronteiras — disse sem hesitação. — O movimento curdo nacional é muito sensível e fácil para os soviéticos explorarem, com grandes implicações internacionais por toda a Ásia Menor. É claro que estamos interessados.
O coronel ficou olhando pela janela, pensativo, com a neve caindo levemente. Um ciclista passou por eles, batendo descuidadamente no lado do carro. Para surpresa de Armstrong — geralmente Hashemi era bem-humorado — ele baixou furiosamente o seu vidro e xingou o rapaz e toda a sua geração. Ele apagou o cigarro com um ar soturno.
— Deixe-me aqui, Robert. Nós começamos com Yazernov à meia-noite. Você é bem-vindo. — Ele fez menção de abrir a porta.
— Espere, meu velho — disse Armstrong. — Nós somos amigos há muito tempo. Que diabo está acontecendo?
O coronel hesitou. Então fechou a porta.
— A Savak foi declarada ilegal pelo governo, assim como todos os departamentos do serviço secreto, inclusive nós, e recebemos ordens de debandar imediatamente.
— Sim, mas o primeiro-ministro já disse a vocês para continuarem, em segredo. Você não tem nada a temer, Hashemi. Você não foi atingido. Você recebeu ordens de esmagar o Tudeh, os fedayins, e os islâmicos-marxistas... você me mostrou as ordens. A operação desta noite não estava dentro dessa linha?
— Sim. Sim, estava. — Mais uma vez Hashemi parou, com a cara fechada e a voz rouca. — Sim, estava, mas... O que você sabe a respeito do Komiteh Revolucionário Islâmico?
— Só que ele parece consistir de homens escolhidos pessoalmente por Khomeini — Armstrong começou a dizer, com honestidade. — Eles têm plenos poderes, nós não sabemos quem são, quantos são, quando ou onde se reúnem, nem se é o próprio Khomeini que o preside.
— Eu sei com certeza que, com a aprovação de Khomeini, no futuro, este komiteh será investido de todo o poder, que Bazargan é apenas um testa de ferro momentâneo enquanto o Komiteh Revolucionário elabora a nova constituição islâmica que nos fará regredir aos tempos do Profeta.
— Maldição! — resmungou Armstrong. — Nenhum governo eleito?
— Nenhum. — Hashemi estava fora de si de raiva. — Não o que nós entendemos por isso.
— Talvez a constituição não seja aprovada, Hashemi. O povo terá que votar, nem todo mundo é partidário fanático de...
— Por Deus e pelo Profeta, não tente se enganar, Robert! — o coronel disse rispidamente. — A grande maioria é de fundamentalistas, eles só precisam se apoiar nisso. A nossa burguesia, os ricos e a classe média são de Teerã, Tabriz, Abadan, Isfahan, todos apadrinhados pelo xá, um mero punhado se comparados com os outros 36 milhões, a maioria dos quais não sabe ler nem escrever. É claro que qualquer coisa que Khomeini aprove será votada. E nós dois sabemos qual é a sua visão de Islã, do Corão e do Sharia.
— Daqui a quanto tempo... daqui a quanto tempo eles terão a constituição pronta?
— Você entende tão pouco a nosso respeito, depois de todo esse tempo? — disse Hashemi, irritado. — Assim que conquistamos o poder, nós o usamos antes que ele nos escape. A nova constituição começou a vigorar assim que o pobre infeliz do Bakhtiar foi traído por Carter, traído pelos generais e obrigado a fugir. Quanto a Bazargan, piedoso, honesto, justo e com tendências democráticas, indicado por Khomeini, legalmente primeiro-ministro até as eleições, o pobre imbecil não passa de um bode expiatório para qualquer coisa que dê errado daqui para a frente.
— Você quer dizer que ele vai ser o bode expiatório? Que vai ser levado a julgamento?
— Julgamento? Que julgamento? Eu já não lhe disse o que o Komiteh Revolucionário considera como julgamento? Se eles o acusarem, ele está morto. Insha'Allah! E por último, o motivo pelo qual eu não consigo raciocinar direito e estou tão zangado que preciso me embebedar, é porque eu ouvi dizer hoje à tarde, muito em particular, que a Savak foi secretamente reorganizada, que vai ser rebatizada de Savama — e que Abrim Pahmudi foi nomeado diretor!
— Jesus Cristo! — Armstrong sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Abrim Pahmudi era um dos três amigos de infância do xá, que fora colega de escola dele no Irã e depois na Suíça, que se tornara muito importante no conselho imperial, na Savak. Dizia-se que depois da família do xá ele era o seu conselheiro mais ouvido. Supunha-se que estivesse escondido, esperando por uma oportunidade de negociar com o governo de Bazargan, em nome do xá, a instituição de uma monarquia constitucional e a abdicação do xá em favor do seu filho Reza. — Jesus Cristo! Isso explica muita coisa.
— Sim — disse Hashemi com amargura. — Durante anos o filho da mãe tomou parte em quase todas as reuniões militares ou políticas importantes, em toda conferência de cúpula, todo acordo secreto, e nos últimos dias tomou parte em todas as reuniões importantes com o embaixador dos Estados Unidos, com os generais americanos, participou de toda decisão importante do xá, dos nossos generais, e esteve presente todas as vezes em que se discutiu a respeito de um golpe de Estado, e se rejeitou essa possibilidade. — Ele estava tão zangado que as lágrimas corriam pelo seu rosto. — Nós fomos todos traídos. O xá, a revolução, o povo, você, eu, todo mundo! Quantas vezes nós demos informações a ele durante todos esses anos em que trabalhamos juntos, você e eu, mais de uma dúzia de vezes? Com listas, nomes, contas bancárias, ligações, segredos que só nós poderíamos descobrir e saber. Tudo — tudo por escrito mas com uma única cópia — a regra não era esta? Fomos todos traídos.
Armstrong ficou gelado. É claro que Pahmudi sabia tudo a respeito do seu envolvimento com o Serviço Secreto. Pahmudi tinha que saber tudo de importante a respeito de George Talbot, de Masterson, o seu equivalente na CIA, de Lavenov, o seu equivalente soviético, de todos os nossos planos a curto e longo prazo, nossos planos de invasão, nossas operações para neutralizar as instalações de radar altamente secretas da CIA com homens como o jovem capitão Ross.
— Maldição — ele resmungou, ao mesmo tempo furioso porque suas próprias fontes não o haviam prevenido. Pahmudi, maneiroso, inteligente, poliglota e discreto. Nem uma vez em todos aqueles anos tinha havido a menor suspeita contra ele. Nunca. Como ele podia ter escapado tão limpo, até do xá que estava constantemente mandando checar e tornar a checar os seus auxiliares mais importantes? Com todo o direito, pensou. Cinco tentativas de assassinato contra ele, balas no seu corpo e no seu rosto, ele não era o governante de um povo conhecido pela violência, tanto a dirigida contra os seus governantes quanto a dirigida pelos governantes contra o povo?