— Ela está nos seus aposentos, aga.
— Por favor, diga-lhe que estou aqui e... e que gostaria de vê-la.
— Oh, ela não recebe mais ninguém agora, aga. Ninguém. Seja como Deus quiser. Ela não viu ninguém desde aquele dia. — As lágrimas brilharam nos seus velhos olhos. — Vossa Excelência esteve fora, talvez não saiba que...
— Eu soube. Sim, eu soube.
— Insha'Allah, aga, Insha'Allah, mas que crimes poderia o Mestre ter cometido? Insha'Allah que ele tivesse sido escolhido, Insh...
— Insha'Allah. Por favor, diga a Sua Alteza... Xarazade, pare com isso! Vamos querida — disse em inglês, enlouquecido pelos seus gemidos —, para com isso! Depois disse em farsi para o criado: — Por favor peça a Sua Alteza para receber-me.
— Oh, sim, eu vou pedir-lhe, aga, mas Sua Alteza não abre a porta nem responde, nem vai recebê-lo, mas eu vou cumprir a sua ordem imediatamente. — Ele começou a se afastar.
— Espere, onde estão todos?
— Quem, aga!
— A família. Onde está o resto da família?
— Ah, a família. Sua Alteza está nos seus aposentos, e a senhora Xarazade está aqui.
Mais uma vez Lochart sentiu a raiva crescer com os gemidos dela.
— Eu quero saber onde estão Excelência Meshang, sua mulher e filhos e minhas cunhadas e seus maridos.
— Onde mais poderiam estar a não ser em suas casas, aga?
— Então diga a Excelência Meshang que eu estou aqui — ele disse. Meshang, o filho mais velho e sua família eram os únicos que residiam lá em caráter semipermanente.
— Certamente, aga. Como Deus quiser, eu irei ao bazar pessoalmente.
— Ele está no bazar?
O velho balançou a cabeça.
— É claro, aga, ele está lá esta noite, ele e sua família. Agora ele é o Mestre e tem que tomar conta dos negócios. Seja como Deus quiser, aga, ele é o chefe da casa dos Bakravan agora. Eu irei imediatamente.
— Não, mande outra pessoa. — O bazar era perto e não seria nenhuma intromissão. — Há alguém... Xarazade, Xarazade, pare com isso! — Ele disse com severidade, mas ela não pareceu escutar. — Tem água quente na casa?
— Deveria ter, aga. A fornalha está em perfeito estado, mas não está ligada.
— Vocês não têm combustível?
— Oh, deve haver combustível, aga. O senhor gostaria que eu verificasse?
— Sim, acenda a fornalha e traga-nos comida e chá.
— Certamente, aga. O que é que Vossa Excelência deseja?
Lochart manteve a calma com dificuldade, cada vez mais nervoso com os gemidos dela.
— Qualquer coisa. Não, arroz e horisht, horisht de frango — ele disse, citando um prato fácil e comum. — Horisht de frango.
— Se o senhor desejar, aga, mas o cozinheiro tem orgulho do seu horisht de frango e vai levar horas para prepará-lo. — O velho esperou educadamente, com os olhos indo de Lochart para a moça.
— Então... então, oh, pelo amor de Deus, traga apenas fruta. Fruta e chá, qualquer fruta que tiver...
Lochart não podia mais suportar aquilo e levantou Xarazade no colo e subiu as escadas, atravessou os corredores até os aposentos que costumavam usar nesta casa de três andares, de teto chato e que era rica, suntuosa e cheia de meandros. Ele abriu a porta e fechou-a com o pé.
— Xarazade, ouça... Xarazade, ouça! Ouça pelo amor de Deus!
Mas ela continuou encostada nele, gemendo e balbuciando incoerentemente. Ele a levou para o outro quarto, abafado por causa das janelas e vidraças fechadas e obrigou-a a sentar-se na cama desarrumada, depois correu para o banheiro que era moderno — a maior parte do encanamento era moderno — exceto o vaso.
Não havia água quente. A água fria correu e não pareceu muito salobre. Ele encontrou algumas toalhas, molhou uma delas e voltou, com o peito doendo, sabendo que estava enfrentando um problema muito difícil. Ela não se havia movido. Ele tentou lavar-lhe o rosto, mas ela resistiu e começou a espumar, piorando ainda mais a sua aparência. Saliva escorria-lhe pelos cantos da boca.
— Xarazade... Xarazade, minha querida, pelo amor de Deus, minha querida... — Ele a ergueu e abraçou-a, mas nada parecia tocá-la. Só os gemidos mantinham-se constantes, fazendo-o ficar cada vez mais nervoso. — Controle-se — disse alto, sentindo-se desamparado, e se levantou, mas as mãos dela agarraram as suas roupas e tentaram arrastá-lo de volta.
— Oh, Deus, dê-me forças... — ele viu sua mão atingir-lhe o rosto. Por um momento, o gemido parou, ela o olhou, incrédula, depois seu olhar tornou a ficar vago, a ladainha recomeçou e ela se agarrou às suas roupas. — Deus me ajude — disse desesperado, e então começou a esbofeteá-la, cada vez com mais força, tentando deseperadamente ser duro, mas não duro demais e depois enfiou o rosto dela na cama e bateu-lhe nas nádegas, até ficar com a palma da mão doendo e de repente ele ouviu gritos que eram gritos de verdade e não gemidos:
— Tommyyyy... pare oh, por favor Tommy, por favor pareeee... Tommy você está me machucando, o que foi que eu fiz? Eu juro que não pensei em mais ninguém, oh, Deus, Tommy, pare por favor...
Ele parou. O suor escorria pelos seus olhos, suas roupas estavam molhadas e ele saiu da cama tropeçando. Ela se contorcia de dor, com as nádegas e o rosto vermelhos, mas suas lágrimas eram lágrimas de verdade e seu olhar era o seu olhar de sempre e seu cérebro estava normal.
— Oh, Tommyyyy, você me machucou, você me machucou — ela soluçou como uma criança espancada. — Por quê? Por quê? eu juro que o amo... Eu não fiz nada... nada... para feri-lo e... fazer você me machucar... — Desesperada de dor e vergonha por tê-lo enfurecido, sem entender por quê, sabendo apenas que tinha que acalmá-lo, ela se arrastou para fora da cama e caiu aos pés dele, implorando perdão através das lágrimas.
Suas lágrimas pararam quando sua mente foi penetrada pela realidade e ela levantou os olhos para ele.
— Oh, Tommy — disse cheia de tristeza —, papai está morto... assassinado... assassinado pelos Faixas Verdes... assassinado...
— Sim... sim, minha querida, eu sei, oh, eu sei... Sinto tanto...
Ele a ergueu e suas lágrimas se misturaram com as dela e ele a abraçou bem apertada e deu-lhe um pouco da sua força e fez com que ela se sentisse inteira e ela também lhe deu um pouco da sua força e também ele se sentiu inteiro. Então eles dormiram um pouco — acordando algumas vezes, mas tornando a adormecer em paz, recuperando as forças, com a chama da lamparina lançando sombras bondosas. Pouco antes de meia-noite, ele acordou. Ela o observava e fez um esforço para beijá-lo, mas uma onda de dor impediu-a.
— Oh, você está bem?. — Ele a abraçou.
— Oh, tenha cuidado... desculpe, sim... é... — Com dificuldade, ela tentou enxergar as costas, então viu que suas roupas estavam imundas. Fez uma careta. — Ugh, estas roupas, por favor, me dê licença, querido... — Ela se levantou com dificuldade e tirou-as. Com muito esforço, apanhou a toalha molhada, limpou o rosto e escovou o cabelo. Então, quando ela chegou mais perto da luz, ele viu que um dos seus olhos estava ficando preto e que suas nádegas estavam cheias de manchas roxas.
— Por favor, perdoe-me... o que foi que eu fiz para ofendê-lo?
— Nada, nada — respondeu horrorizado e contou a ela como a encontrara.
Ela o olhou sem entender.
— Mas... você está dizendo que eu... eu não me lembro de nada disso, só... só de estar sendo espancada.
— Eu sinto tanto, mas foi a única maneira de... sinto muito.