— Oh, não, meu querido. — Tentando lembrar-se, ela voltou para a cama e se deitou de bruços, com cuidado. — Se não fosse por você... Seja como Deus quiser, mas se foi como você disse... estranho, e eu não me lembro de nada, de nada desde a hora em que... — Sua voz falseou um pouco, depois ela continuou, tentando ser firme: — Se não fosse por você, talvez eu tivesse enlouquecido para sempre. — Ela chegou mais para perto dele e beijou-o. — Eu o amo, meu bem-amado — disse em farsi.
— E eu a amo, minha bem-amada — ele respondeu, subjugado
Depois de um momento, ela disse numa voz estranha:
— Tommy, eu acho que sei o que me deixou louca... eu vi papai... eu o vi ontem, anteontem,... não consigo me lembrar... ele parecia tão pequeno morto, tão pequenino, morto, com todos aqueles buracos no rosto e na cabeça. Eu não me lembrava dele ser tão pequeno, mas eles o diminuíram, eles tiraram...
— Não — ele disse gentilmente, vendo as lágrimas caírem. — É Insha'Allah. Não pense nisso.
— Certamente, marido, se é o que você diz — ela disse imediatamente, de modo formal, em farsi. — É claro que é a Vontade de Deus, sim, mas é importante para mim contar para você, me livrar da vergonha do modo como você me encontrou... eu gostaria de contar-lhe algum dia.
— Então conte-me agora, Xarazade, e depois deixaremos que fique no passado para sempre — ele respondeu, com o mesmo formalismo. — Por favor, conte-me agora.
— É que eles tornaram o maior homem do mundo... depois de você... eles o tornaram insignificante. Sem nenhum motivo. Ele sempre foi contra o xá e era um grande partidário desse mulá Khomeini. — Ela disse isso calmamente e ele escutou a palavra "mulá" e não aiatolá ou imã ou farmandeh e sentiu isso como um aviso. — Eles assassinaram meu pai sem nenhum motivo, sem julgamento e de forma ilegal e o fizeram ficar pequeno, eles tiraram tudo o que tinha enquanto homem, enquanto pai, um pai bem-amado. Seja como Deus quiser, era o que eu deveria dizer e vou tentar. Mas não posso acreditar que seja esta a Vontade de Deus. Pode ser a vontade de Khomeini. Eu não sei. Nós mulheres vamos saber logo.
— O quê? O que você quer dizer com isso?
— Dentro de três dias nós, mulheres, vamos fazer uma marcha em protesto — todas as mulheres de Teerã.
— Contra o quê?
— Contra Khomeini e os mulás que estão contra os direitos das mulheres. Quando ele nos vir marchando sem o chador ele não fará o que é errado.
Lochart só estava prestando atenção pela metade, lembrando-se dela há poucos dias atrás — foi mesmo há poucos dias atrás que este pesadelo começou? Xarazade tão contente consigo mesma e usando o chador, tão satisfeita em ser apenas uma esposa e não uma mulher moderna como Azadeh. Ele viu os seus olhos, percebeu a sua determinação e compreendeu que ela estava comprometida.
— Eu não quero que você tome parte nesse protesto.
— Sim, é claro, marido, mas toda mulher de Teerã vai marchar e tenho certeza de que você não gostaria de me envergonhar diante da memória de meu pai, diante dos representantes dos seus assassinos, gostaria?
— É uma perda de tempo — disse Lochart, sabendo que estava derrotado, mas querendo continuar a discussão. — Meu amor, eu desconfio que uma marcha de protesto de todas as mulheres do Irã ou de todo o Islã não vai sensibilizar Khomeini nem um pouco. As mulheres no seu Estado islâmico não farão nada que não esteja determinado no Corão, nada. Nem ninguém mais. Não é esta a sua força?
— É claro que você tem razão. Mas nós vamos marchar em protesto e então Deus vai abrir os seus olhos e tornar tudo claro para ele. É como Deus quer, não como Khomeini quer. No Irã nós temos formas históricas de lidar com esses homens.
Seus braços estavam em volta dela. Marchar não é a resposta, ele pensou. Oh, Xarazade, há tanto que decidir, que dizer, que contar, agora não é a hora. Mas existe Zagros e um 212 para embarcar. Mas isso deixa Mac sozinho para tocar as coisas, se houver alguma coisa que tocar. E se eu a levasse também? Eu não poderia, a não ser à força.
— Xarazade, talvez eu tenha que fazer um transporte. Levar um 212 para a Nigéria. Você viria comigo?
— É claro, Tommy. Quanto tempo nós ficaríamos ausentes? Ele hesitou.
— Algumas semanas. Talvez mais. — Ele sentiu uma pequena mudança nela, imperceptível.
— Quando você gostaria de partir?
— Muito em breve. Talvez amanhã. Ela saiu dos seus braços sem se afastar.
— Eu não seria capaz de deixar mamãe, não por enquanto. Ela... ela está desesperada, Tommy, e... e se eu fosse, não sei o que aconteceria com ela. E há o pobre Meshang. Ele tem que administrar o negócio, ele precisa de ajuda; há tanta coisa para fazer e para cuidar.
— Você sabe a respeito da ordem de confisco?
— Que ordem?
Ele lhe contou. Seus olhos tornaram a se encher de lágrimas e ela se ergueu, esquecendo-se da dor. Ficou olhando para a chama da lamparina e para as sombras que ela lançava.
— Então nós não temos mais casa, mais nada. Seja como Deus quiser — disse deprimida. Então, quase na mesma hora, ela falou com um tom de voz diferente: — Não, não é como Deus quiser! É como os Faixas Verdes querem. Agora nós temos que nos juntar para salvar a família, ou então eles terão derrotado papai. Nós não podemos permitir que eles o assassinem e também o derrotem, isso seria terrível.
— Sim, eu concordo, mas este transporte resolveria os nossos problemas por algumas semanas...
— Você tem razão, Tommy, como sempre, sim, sim, resolveria se nós precisássemos partir, mas esta é a nossa casa, como sempre foi, se agora não for mais ainda, oh, como seremos felizes aqui! De manhã eu vou pegar os criados e trazer tudo que é nosso do apartamento. Ora! O que são uns poucos tapetes e quinquilharias quando temos esta casa e a nós mesmos? Vou providenciar tudo. Oh, nós vamos ser felizes aqui.
— Mas e se vo...
— Este roubo faz com que seja ainda mais importante que fiquemos aqui, para resistir, para protestar. Ele torna a marcha muito mais importante. — Ela colocou um dedo nos lábios dele quando viu que ele ia falar. — Se você precisa fazer este transporte... e é claro que você precisa fazer o seu trabalho... então vá, meu querido, mas volte depressa. Dentro de poucas semanas Teerã terá voltado ao normal e será agradável de novo e eu sei que esta é a Vontade de Deus.
Oh, sim, pensou cheia de confiança, com a alegria vencendo a dor, eu já estarei no segundo mês e Tommy ficará tão orgulhoso de mim e, enquanto isso, será tão maravilhoso viver aqui, cercada pela família, tendo vingado papai, com a casa cheia de alegria novamente.
— Todo mundo vai nos ajudar — disse, tornando a deitar nos braços dele, cansada, mas feliz. — Oh, Tommy, estou tão contente que você esteja em casa, que nós estejamos em casa, vai ser tudo tão maravilhoso, Tommy. — Suas palavras tornaram-se mais lentas à medida que o sono tomava conta dela. — Nós vamos todos ajudar a Meshang... e os que estão no estrangeiro vão voltar, tia Annoush e as crianças... eles vão ajudar... e tio Valik vai orientar Meshang..
Lochart não teve coragem de lhe contar.
DOMINGO
18 de fevereiro34
NO PALÁCIO DO KHAN, TABRIZ: 3:13H. Na escuridão do pequeno quarto, o capitão Ross abriu a tampa de couro do seu relógio e deu uma olhada nos números fosforescentes.
— Tudo pronto Gueng? — murmurou em gurkhali.
— Sim, sahib — Gueng sussurrou, contente da espera ter terminado.
Cautelosamente e sem fazer barulho, os dois homens saíram de suas enxergas que estavam sobre tapetes velhos e fedorentos, no chão de terra. Eles estavam inteiramente vestidos e Ross foi até a janela e espiou para fora. O guarda estava estirado ao lado da porta, profundamente adormecido, com o rifle no colo. A duzentos metros dali, depois dos pomares cobertos de neve e das construções externas, estava o palácio de quatro andares de Gorgon Khan. A noite estava escura e fria, com algumas nuvens e uma nebulosidade em volta da lua que brilhava de vez em quando.