Mais neve, pensou, depois abriu a porta com cuidado. Os dois homens ficaram lá perscrutando a escuridão. Não havia luz em lugar nenhum. Sem fazer barulho, Ross foi até o guarda e o sacudiu, mas o homem não despertou do sono drogado que ainda duraria umas duas horas. Fora fácil dar-lhe a droga num pedaço de chocolate, guardado para este propósito no seu equipamento de sobrevivência — alguns dos chocolates drogados, outros envenenados. Mais uma vez ele se concentrou na noite, esperando pacientemente que a lua fosse encoberta por uma nuvem. Distraidamente ele coçou uma mordida de pulga. Estava armado com o seu kookri e uma granada.
— Se formos parados, Gueng, só estávamos dando um passeio — tinha combinado mais cedo. — É melhor deixarmos as armas aqui. Para que levar kookris e uma só granada? É um velho costume gurkha. Uma ofensa contra o nosso regimento andar desarmado.
— Eu acho que gostaria de levar todas as nossas armas agora e voltar para as montanhas e seguir para o sul, sahib.
— Se isto não der certo, é o que vamos ser obrigados a fazer, mas é um bocado arriscado — respondera Ross. — É um bocado arriscado. Nós vamos ficar desguarnecidos; aqueles caçadores ainda estão à nossa procura e não vão desistir enquanto não formos apanhados. Não se esqueça de que só com muita dificuldade foi que conseguimos chegar ao esconderijo. Foram as roupas que nos salvaram. — Depois da emboscada em que Vien Rosemont e Tenzing tinham sido mortos, ele e Gueng tinham despido alguns dos seus agressores e colocado vestes tribais por cima dos seus uniformes. Ele tinha pensado em largar os uniformes, mas achou que não era aconselhável. — Se formos apanhados é porque fomos e ponto final.
Gueng tinha sorrido.
— Então é melhor você se tornar um bom hindu agora. Aí, se formos mortos, não é um fim mas um começo.
— Como eu faço isso, Gueng? Tornar-me um hindu? — Ele sorriu ao se lembrar do ar espantado de Gueng e de como ele tinha dado de ombros. Então eles tinham amarrado os corpos de Vien Rosemont e Tenzing e tinham-nos deixado juntos na neve, de acordo com o costume das montanhas:
— Este corpo não tem mais valor para o espírito, e por causa da imutabilidade da reencarnação, ele é legado aos animais e pássaros que são outros espíritos lutando com seu próprio carma para chegar ao Nirvana, o lugar da Paz Celestial.
Na manhã seguinte, eles tinham localizado os seus perseguidores. Quando eles desceram das colinas nos arredores de Tabriz, os seus perseguidores estavam no máximo meio quilômetro atrás. Só a sua camuflagem os salvara, permitindo que eles se misturassem com a multidão, muitos nativos tão altos quanto ele e de olhos azuis, muitos tão bem armados. Eles tiveram sorte e logo da primeira vez encontraram a porta dos fundos da garagem imunda, tinham dito o nome de Vien Rosemont e o homem que estava lá os escondera. Naquela noite, Abdullah Khan fora lá com seus guardas, muito hostil e desconfiado.
— Quem lhe disse para perguntar por mim?
— Vien Rosemont. Ele também nos contou a respeito deste lugar
— Quem é este Rosemont? Onde ele está agora?
Ross contara a ele o que tinha acontecido na emboscada, e vira um novo interesse nos olhos do homem, embora ele continuasse hostil.
— Como vou saber que você está dizendo a verdade? Quem é você?
— Antes de Vien morrer, ele me pediu para transmitir-lhe uma mensagem
Ele estava delirando e sofrendo, mas me fez repetir três vezes para se certificar. Ele disse: "Diga a Abdullah Khan que Peter está atrás da cabeça da Górgona e que o filho de Peter é pior do que Peter. O filho joga com os curtos, assim como o pai, que vai tentar usar uma Medusa para agarrar a Górgona." — Ele viu os olhos do homem brilharem, mas não de alegria. — Então isso significa alguma coisa para você?
— Sim. Significa que você conhece Vien. Então Vien está morto. Seja como Deus quiser, mas é uma pena. Vien era bom, muito bom, e um grande patriota. Quem é você? Qual era a sua missão? O que você estava fazendo nas nossas montanhas?
Mais uma vez ele hesitou, lembrando-se de que Armstrong dissera a ele para não confiar demais no homem. No entanto, Rosemont, em quem ele confiara, dissera ao morrer: "Você pode confiar cegamente naquele velho filho da mãe. Eu confiei, uma dúzia de vezes, e ele nunca me falhou. Vá até ele, ele vai livrá-lo..."
Abdullah Khan estava sorrindo, com a boca tão cruel quanto os olhos.
— Você pode confiar em mim. Acho que vai ter que confiar.
— Sim. — Mas não demais, ele acrescentou silenciosamente, odiando a palavra, a palavra que custa a vida, a vida de milhões, a liberdade de milhões e a paz de espírito de todo adulto na terra mais cedo ou mais tarde. — Foi para neutralizar Sabalan — respondeu e contou-lhe o que tinha acontecido lá.
— Deus seja louvado! Vou passar a informação para Wesson e Talbot.
— Quem?
— Ah, não importa. Vou fazer vocês chegarem ao sul. Venham comigo. Não é seguro aqui. Há uma ordem de captura, com recompensa, de "dois sabotadores britânicos, dois inimigos do Islã". Quem são vocês?
— Ross. Capitão Ross, e este é o sargento Gueng. Quem eram os homens que nos perseguiam? Iranianos ou soviéticos? Ou conduzidos por soviéticos?
— Os soviéticos não operam abertamente no Azerbeijão. Ainda não. — Os lábios do Khan torceram-se num sorriso estranho. — Eu tenho uma caminhonete aí fora. Subam rapidamente e deitem na traseira. Eu vou escondê-los, e quando for seguro farei vocês chegarem a Teerã. Mas vocês têm que obedecer às minhas ordens. Explicitamente.
Isto foi há dois dias atrás, mas a vinda dos estrangeiros soviéticos e a chegada do helicóptero tinham tornado tudo diferente. Ele viu a lua se esconder atrás de uma nuvem e bateu no ombro de Gueng. O homenzinho desapareceu no pomar. Quando ouviu o sinal de que estava tudo bem, ele o seguiu. Eles se movimentaram muito bem até chegarem na ala norte da enorme casa. Nenhum guarda nem cachorro por enquanto, embora Gueng tivesse visto alguns dobermans acorrentados.
Foi uma subida fácil até a varanda do primeiro andar. Gueng foi na frente. Ele correu metade da sua extensão, atravessou o corredor de janelas fechadas até a escada que levava à próxima varanda. No alto ele esperou, verificando o terreno. Ross alcançou-o. Gueng apontou para o segundo grupo de janelas e tirou o seu kookri, mas Ross sacudiu a cabeça e apontou para uma porta lateral que percebera, onde a escuridão era profunda. Ele experimentou a maçaneta. A porta rangeu alto. Alguns pássaros saíram voando do pomar, chamando uns aos outros. Os dois homens se concentraram na direção de onde os pássaros tinham vindo, esperando ver uma patrulha. Não apareceu nenhuma. Esperaram mais um pouco para terem certeza, depois Ross entrou na frente, com a adrenalina aumentando a sua tensão.
O corredor era longo, com muitas portas dos dois lados e algumas janelas viradas para o sul. Em frente à segunda porta, ele parou, e experimentou a maçaneta cautelosamente. A porta se abriu silenciosamente e ele entrou depressa, seguido de Gueng, com o kookri e a granada preparados. O aposento parecia uma ante-sala: tapetes, almofadões, uma mobília vitoriana antiquada e sofás. Havia duas portas. Rezando para estar escolhendo certo, Ross abriu a porta que ficava mais perto do canto do edifício e entrou. As cortinas estavam fechadas, mas uma réstia de luar mostrou-lhes claramente a cama e o homem que eles procuravam e uma mulher dormindo sob uma pesada colcha. Era o homem certo, mas eles não tinham esperado encontrar uma mulher. Gueng fechou a porta. Sem hesitação, eles se colocaram dos dois lados da cama, Ross do lado do homem e Gueng do lado da mulher. Ao mesmo tempo, eles taparam a boca dos dois com lenços, fazendo pressão suficiente para evitar que eles gritassem.