— Nós somos amigos, piloto, não grite — Ross murmurou perto do ouvido de Erikki, sem saber o nome dele nem quem era a mulher, apenas reconhecendo-o como sendo o piloto. Ele viu o susto se transformar em ódio à medida em que o sono desaparecia e as mãos enormes ergueram-se para despedaçá-lo. Ele as evitou, aumentando a pressão sob o nariz de Erikki, subjugando-o com facilidade. — Eu vou soltá-lo, não grite, piloto. Somos amigos, somos britânicos. Soldados britânicos. Apenas balance a cabeça se estiver acordado e se tiver compreendido. — Ele esperou, depois sentiu mais do que viu o enorme homem balançar a cabeça, vigiando os seus olhos. Os olhos gritavam perigo. — Mantenha-a amordaçada, Gueng, até termos resolvido as coisas do lado de cá — disse baixinho em gurkhali, e depois para Erikki: — Piloto, não tenha medo, somos amigos.
Ele diminuiu a pressão e deu um pulo para trás quando Erikki atirou-se em cima dele, depois rolou na cama para pegar Gueng, mas parou, rígido. O luar se refletia no kookri de lâmina curva, mantido perto da garganta dela. Os olhos de Azadeh estavam arregalados e ela estava apavorada
— Não! Deixem-na em paz... — disse Erikki em russo com uma voz rouca, vendo apenas os olhos orientais de Gueng, pensando que era um dos homens de Cimtarga, ainda confuso e em pânico. Ele estivera dormindo profundamente, com a cabeça doendo das horas de vôo, a maior parte do tempo por instrumentos e em péssimas condições. — O que quer?
— Fale inglês. Você é inglês, não é?
— Não, não, eu sou finlandês. — Erikki olhou para Ross, que não passava de uma silhueta ao luar. — Que diabo você quer?
— Desculpe acordá-lo desse jeito, piloto — Ross disse apressadamente, chegando um pouco mais perto, mantendo a voz baixa. — Desculpe, mas eu tinha que falar com você em segredo. É muito importam.
— Diga àquele desgraçado para soltar a minha mulher! Agora!
— Mulher? Oh, sim., sim, é claro, desculpe. Ela... ela não vai gritar? Por favor, diga-lhe para não gritar — Ele viu o homem enorme virar-se para a mulher que estava deitada imóvel sob a pesada colcha, com a boca ainda coberta, o kookri imóvel. Ele o viu estender a mão cautelosamente e tocá-la, com os olhos no kookri. Sua voz era gentil e animadora, mas ele não falou nem em inglês nem em farsi, mas numa outra língua. Em pânico, Ross pensou que fosse russo e ficou ainda mais desorientado, tendo esperado encontrar um piloto britânico da S-G, sem uma companheira de cama, não um finlandês com uma esposa russa, e ficou apavorado de ter levado Gueng para uma armadilha. Os olhos do homem voltaram-se para ele e ele viu mais perigo ainda lá.
— Diga-lhe para soltar a minha mulher — disse Erikki, em inglês, achando difícil concentrar-se. — Ela não vai gritar.
— O que foi que você disse a ela? Foi em russo?
— Sim, foi em russo e eu disse: "Este desgraçado vai soltar você em um segundo. Não grite, apenas venha para trás de mim. Não se mova depressa, apenas venha para trás de mim. Não faça nada a menos que eu ataque o outro desgraçado, então lute pela sua vida.
— Você é russo?
— Já disse que sou finlandês e eu me canso facilmente de homens com facas no meio da noite, sejam eles britânicos, russos ou até mesmo finlandeses.
— Você é um piloto da S-G Helicópteros?
— Sim, ande logo e solte-a, seja você quem for, ou vou começar alguma coisa.
Ross ainda não tinha se recuperado do seu próprio pânico.
— Ela é russa?
— Minha mulher é iraniana, ela fala russo e eu também — disse Erikki, friamente, movendo-se ligeiramente para fora do raio de luar em direção às sombras. — Vá para a luz, eu não posso vê-lo, e pela última vez, diga a este desgraçado para soltar a minha esposa, diga-me o que quer e depois saia.
— Sinto muito tudo isso. Gueng solte-a agora.
Gueng não se moveu. Nem a lâmina curva. Em gurkhali, ele disse:
— Sim, sahib, mas primeiro pegue a faca que está debaixo do travesseiro do homem.
Em gurkhali, Ross respondeu:
— Se ele tentar pegá-la, irmão, se tocar nela, mate-a, eu cuido dele. — Então, em inglês, ele disse gentilmente: — Piloto, você tem uma faca debaixo do travesseiro. Por favor, não toque nela, sinto muito, mas se o fizer antes que tenhamos esclarecido tudo... por favor, seja paciente. Solte-a, Gueng — disse, sem tirar os olhos do homem. Com o canto do olho, ele viu a forma vaga de um rosto, com os cabelos longos e despenteados ocultando-a, depois ela se moveu para trás dos ombros enormes, agasalhando-se com a camisola de mangas compridas. Ross estava de costas para a luz e não viu quase nada dela, só o ódio nos seus olhos, mesmo no escuro. — Sinto muito chegar como um ladrão no meio da noite. Peço desculpas — disse a ela, que não respondeu. Ele repetiu o pedido de desculpas em farsi. Ela também não respondeu. — Por favor, peça desculpas por mim à sua esposa.
— Ela fala inglês. Que diabo você quer? — Erikki sentia-se um pouco melhor agora que ela estava segura, embora bem consciente da proximidade do outro homem com a faca curva.
— Nós somos uma espécie de prisioneiros do khan, piloto, e eu vim avisá-lo e pedir a sua ajuda.
— Avisar-me sobre o quê?
— Eu ajudei um dos seus capitães há poucos dias atrás. Charles Pettikin
— Ele viu o nome ser reconhecido imediatamente, então relaxou um pouco. Rapidamente, contou a Erikki a respeito de Doshan Tappeh e do ataque da Savak e como eles tinham escapado, descrevendo Pettikin minuciosamente para não haver nenhum engano.
— Charlie contou-nos sobre você — disse Erikki, estarrecido, sem sentir mais nenhum medo — mas não disse que o deixara perto de Bandar-e Pahlavi; só que alguns paraquedistas britânicos o salvaram de um Savak que ia estourar os seus miolos.
— Eu pedi a ele que esquecesse o meu nome. Eu, ahn, nós estávamos numa missão.
— Sorte para Charlie e para você, nós...
Ross viu a mulher cochichar no ouvido do marido, distraindo-o. O homem balançou a cabeça e tornou a olhar na direção dele.
— Você pode ver-me, mas eu não, venha para a claridade. Quanto a Abdullah, se vocês fossem seus prisioneiros, estariam acorrentados, ou num calabouço, não soltos no palácio.
— Fui informado de que o khan nos ajudaria se tivéssemos problemas. Nós tivemos problemas e ele disse que nos esconderia até que pudesse nos mandar de volta para Teerã, em segurança. Enquanto isso, ele nos botou numa cabana, escondida, do outro lado da propriedade. Há um guarda vigiando-nos permanentemente.
— Escondê-los de quê?
— Nós estávamos numa missão e estávamos sendo perseguidos e...
— Que missão? Eu ainda não posso vê-lo, venha para a claridade. Ross moveu-se, mas não o bastante.
— Nós tivemos que explodir alguns equipamentos secretos americanos de radar para evitar que fossem roubados pelos soviéticos ou por seus partidários. Eu..
— Sabalan?
— Como você sabe disso?
— Eu estou sendo obrigado a levar um soviético e alguns esquerdistas para saquear postos de radar perto da fronteira e depois levar o material para Astara, na costa. Um deles foi destruído na face norte. Eles não conseguiram tirar nada dali e até agora o resto não revelou nada que valesse a pena, pelo que eu sei. Continue, avisar-me sobre o quê?
— Você está sendo forçado?
— Minha mulher é refém do khan e dos soviéticos, em troca da minha cooperação e bom comportamento. — disse Erikki, com simplicidade.
— Cristo! — A cabeça de Ross trabalhava em alta velocidade. — Eu, ahn, eu reconheci o emblema da S-G quando vocês estavam voando em círculos e vim avisar que os soviéticos estavam aqui, eles chegaram de manhã bem cedo e estão planejando raptá-lo com a ajuda do khan. Parece que ele está jogando dos dois lados contra o meio; um agente duplo. — Ele viu o espanto de Erikki.
— A nossa gente precisa saber disso depressa.
— Raptar-me para fazer o quê?