— Há um momento atrás, quando eu corrigi este homem, dizendo que era Petr e não Patar, isto significou alguma coisa para você, Johnny. O quê?
— Foi uma mensagem em código que eu transmiti ao khan — disse Ross, dolorosamente consciente do fato de que ela ainda o enfeitiçava. — "Diga a Abdullah Khan que Peter"... este podia ser o Patar ou Petr de Gueng, o soviético. "Que Peter está atrás da cabeça da Górgona e que o filho de Peter é pior do que Peter. O filho joga com os curtos como o pai, que vai tentar usar uma Medusa para agarrar a Górgona.
— Isso é fácil, Erikki? — perguntou Azadeh.
— Sim — disse Erikki, distraído. Mas por que "joga com os curtos"?
— Talvez seja isso — ela exclamou, com a excitação aumentando. "Diga a Abdullah Khan que Petr Mzytryk, KGB, está atrás da sua cabeça, que o filho de Mzytryk", vamos supor que também seja da KGB — "é pior do que o pai. O filho joga com os curtos. Talvez isso signifique que o filho está envolvido com os curdos e sua rebelião que ameaça o poder de Abdullah Khan no Azerbeijão, que a KGB, o pai e o filho também estão envolvidos, e que Petr Mzytryk "usará uma Medusa para agarrar a Górgona" — ela pensou por um momento. — Isso poderia ser um outro enigma e significar "usará uma mulher", talvez uma mulher má para agarrar o meu pai.
— Ross ficou chocado.
— O khan é... meu Deus, o khan é seu pai?
— Sim. Gorgon é o meu nome de família — disse Azadeh — e não Gorden. Mas a diretora da escola em Château d'Or me disse no primeiro dia que eu não devia usar um nome como Gorgon; iriam debochar de mim sem parar, que eu devia ser apenas Azadeh Gorden. Era divertido para mim, e a diretora achou melhor que eu fosse apenas Azadeh Gorden e não a filha de um khan.
Erikki quebrou o silêncio.
— Se a mensagem está correta, o khan não confiará nem um pouco nesse matyeryebyets.
— Sim, Erikki. Mas meu pai não confia em ninguém. Em ninguém mesmo. Se papai está jogando dos dois lados como Johnny acha, ninguém pode dizer o que ele fará. Johnny, quem lhe passou a mensagem que você transmitiu a ele?
— Um agente da CIA que disse que eu podia confiar a vida a seu pai. Erikki disse ironicamente:
— Eu sempre soube que o pessoal da CIA era louco.
— Este cara era muito normal — disse Ross, mais rispidamente do que pretendia. Ele viu Erikki enrubescer e o sorriso dela desaparecer.
Mais um silêncio. Mais tenso. A claridade do quarto diminuiu quando a lua se escondeu atrás de uma nuvem. A escuridão era inquietante. Gueng, que tinha observado e ouvido sentiu a inquietação e silenciosamente invocou todos os deuses para livrá-los da Medusa, o demônio pagão com serpentes em lugar de cabelo sobre quem os missionários haviam falado na sua primeira escola no Nepal. Então o seu sexto sentido percebeu a aproximação do perigo, ele sussurrou um aviso, foi até a janela e espiou para fora. Dois guardas armados com um doberman numa corrente estavam subindo as escadas em frente.
Os outros também estavam rígidos. Eles ouviram os guardas caminharem pelo terraço, com o cão farejando e puxando a corrente. Depois eles foram em direção à porta. Mais uma vez ela rangeu. Os homens entraram na casa.
Ouviram-se vozes abafadas do lado de fora da porta do quarto e o som do cão farejando. Depois perto da porta da ante-sala. Gueng e Ross puseram-se à espreita, com os kookris prontos. Depois de algum tempo, os guardas atravessaram o corredor, saíram da casa e tornaram a descer as escadas. Azadeh movimentou-se nervosamente.
— Normalmente eles não vêm até aqui. Nunca. Ross murmurou apressadamente:
— Talvez eles nos tenham visto entrar aqui. É melhor sairmos. Se ouvirem tiros, vocês não nos conhecem. Se ainda estivermos em liberdade amanhã à noite, podemos vir até aqui, digamos logo depois da meia-noite? Talvez pudéssemos pensar num plano.
— Sim — disse Erikki. — Mas venham mais cedo. Cimtarga avisou-me que talvez tivéssemos que partir antes do amanhecer. Venha por volta das onze horas. É melhor termos vários planos prontos. Vai ser muito difícil sair, muito difícil.
— Quanto tempo você vai ficar trabalhando para eles, antes de terminar?
— Não sei. Talvez uns três ou quatro dias.
— Ótimo. Se não fizermos contato com você, esqueça-se de nós. Certo?
— Que Deus o proteja, Johnny — Azadeh falou com ansiedade. — Não confie no meu pai, você não deve deixar... não deve deixar que ele ou os outros o levem.
Ross sorriu e isto iluminou o quarto, até mesmo para Erikki.
— Não há problema. Boa sorte para nós todos. — Ele acenou despreocupadamente e abriu a porta.
Em poucos segundos, ele e Gueng tinham partido tão silenciosamente quanto tinham chegado. Erikki olhou pela janela e viu-lhe apenas a sombra descendo as escadas, observando como os dois homens faziam uso da noite de uma forma inteligente e silenciosa, invejando a elegância natural dos movimentos e das maneiras de Ross.
Azadeh estava em pé ao lado dele, uma cabeça mais baixa, com o braço passado pela cintura dele, vigiando também. Depois de um momento, o braço dele rodeou-lhe os ombros. Eles esperaram, esperando ouvir gritos e tiros, mas a noite permaneceu tranqüila. A lua tornou a sair de trás das nuvens. Não havia movimento em parte alguma. Ele olhou para o relógio. Eram 4:23h.
Ele olhou para o céu, não havia nenhum sinal do amanhecer ainda. Ao amanhecer ele teria que partir, não para a face norte de Sabalan, mas para outros postos de radar mais para oeste. Cimtarga dissera-lhe que a CIA ainda estava operando certos postos perto da fronteira com a Turquia, mas que hoje o governo de Khomeini tinha ordenado que eles fossem fechados, evacuados e deixados intatos.
— Eles nunca farão isso — dissera Erikki. — Nunca.
— Talvez sim, talvez não. — Cimtarga rira. — Assim que recebermos ordens, você e eu iremos voar até lá com os meus "nativos" para apressá-los...
Matyer! E matyer Johnny Olhos Claros chegando para complicar as nossas vidas. No entanto, agradeço a todos os deuses pelo aviso que ele trouxe. O que estará Abdullah planejando para Azadeh? Eu gostaria de matar aquele porco velho e acabar com isso. Sim, mas não posso. Eu jurei pelos antigos deuses, e esse juramento não pode ser quebrado, de não tocar no pai dela — da mesma forma que ele jurou pelo único Deus que não nos prejudicaria, embora ele vá encontrar um jeito de quebrar a promessa. Será que eu posso fazer o mesmo? Não. Um juramento é um juramento. Como o que você fez a ela de que poderia viver feliz com ela sabendo a respeito dele — ele — não foi? Sua mente escureceu de ódio e ele ficou contente pela escuridão.
Então a KGB planeja seqüestrar-me. Se for um plano verdadeiro eu estou perdido. E quanto a Azadeh? O que estará o demônio do Abdullah planejando para ela agora? E agora este Johnny chega para nos perturbar — eu nunca pensei que ele fosse tão bonito e duro, um homem com quem ninguém deve se meter, ele e aquela maldita faca, aquela faca assassina...
— Volte para a cama, Erikki — ela disse. — Está muito frio, não está? Ele balançou a cabeça e se deitou do lado dela, muito perturbado. Quando eles estavam de novo debaixo da enorme colcha, ela se aconchegou nele. Não o bastante para provocar uma reação, mas o suficiente para parecer normal e tranqüila.
— Que coisa extraordinária descobrir que era ele, Erikki! John Ross. na rua eu certamente não o teria reconhecido. Oh, foi há tanto tempo que eu já tinha esquecido como ele era. Estou tão contente de que você tenha se casado comigo, Erikki — ela disse, com a voz calma e amorosa, certa de que a mente dele estava remoendo aquele antigo amor. — Eu me sinto tão segura com você... se não fosse por você eu teria morrido de medo. — Ela disse isso como se estivesse esperando uma resposta. Mas não estou esperando nenhuma resposta, meu querido, pensou satisfeita e suspirou.