— Não há problema, pelo amor de Deus. Vamos embora.
— Scrag — Willi disse docemente —, eu o amo como a um irmão, mas não vou sair daqui. Aquele bichão me assustou horrivelmente. — Ele se sentou no meio da plataforma e abraçou os joelhos. — Aquele filho da mãe está escondido em algum lugar, esperando para atacar. Se você quiser ir, tudo bem, mas eu, eu sei o que diz o Livro, quando estiver em dúvida, esconda-se. Mande vir outro barco pelo walkie-talkie.
— Eu mesmo vou trazê-lo. — O barco de borracha cedeu quando Scragger pisou cuidadosamente dentro dele, quase virou, e ele engatinhou de volta para a plataforma, praguejando, mais rápido do que pretendia. — Do que é que você está rindo?
— Você saiu daí como se tivesse uma água-viva atrás de você. — Willi ainda estava rindo. — Scrag, por que você não nada até em casa?
— Não amola. — Scragger olhou para a praia, com o coração batendo. Hoje ela parecia muito longe, quando nos outros dias era tão perto.
— Você é louco de ir nadando — disse Willi, desta vez seriamente. — Não faça isso.
Scragger não prestou atenção nele. Sabe de uma coisa? Ele estava pensando. Você está morto de medo. Aquele desgraçado era pequeno e você o fisgou e ele fugiu e agora ele está a milhas de distância no golfo. Sim, mas onde?
Ele enfiou o dedão na água. Alguma coisa atraiu-lhe a atenção lá embaixo. Ele se ajoelhou num dos lados da plataforma e puxou a gaiola. Ela estava vazia. Um dos lados tinha sido arrancado.
— Papagaio!
— Eu vou chamar o barco — disse Willi, estendendo a mão para apanhar o walkie-talkie. — Com uma metralhadora.
— Não há necessidade disso, Willi — disse Scragger, para se mostrar. — Vamos ver quem chega na praia primeiro.
— Nem brincando! Scrag, pelo amor de Deus, não... — Willi ficou apavorado quando Scragger mergulhou. Ele o viu subir à superfície e dar algumas braçadas, depois, de repente, ele voltou e subiu na plataforma, engasgando-se de tanto rir.
— Enganei você, hein? Você tem razão, meu filho, qualquer pessoa que nadar até a praia está louca! Chame o barco, eu vou pescar alguma coisa para o jantar
Quando o barco chegou, um dos mecânicos estava no leme com dois excitados Faixas Verdes na proa e os outros observando na praia. Eles estavam no meio do caminho quando o tubarão surgiu repentinamente e começou a nadar em círculos. Os Faixas Verdes começaram a atirar e, na sua excitação, um deles caiu na água. Scragger conseguiu agarrar a sua arma e abriu fogo contra o tubarão que corria em direção ao homem apavorado, em pé no raso. As balas entraram na cabeça e nos olhos do tubarão, e embora o tubarão já devesse estar morto — ele não acreditou nisso — simplesmente deu uma cambalhota se debatendo, com as mandíbulas e o rabo trabalhando, e então atacou a sua presa. Mas sem a ajuda do olfato e da visão ele errou o homem e foi em direção à areia, encalhando com metade do corpo para fora da água.
— Scrag — disse Willi quando conseguiu falar —, você tem uma sorte dos diabos. Se você tivesse voltado nadando ele o teria apanhado. Você tem uma sorte dos diabos.
NA PLATAFORMA ROSA — ZAGROS: 15:05H. Tom Lochart saltou do 206 e trocou um aperto de mão com Mimmo Sera, o 'homem da companhia' que o cumprimentou calorosamente. Com Lochart estava o especialista da Schlumberger, Jesper Almqvist, um jovem sueco alto, de quase trinta anos. Ele trazia uma maleta especial com as ferramentas necessárias — o restante do equipamento já estava lá, no lugar.
— Buon gíorno, Jesper, prazer em vê-lo. Ele está esperando por você.
— Certo, sr. Será, vou trabalhar. — O rapaz se afastou em direção à plataforma. Ele tinha verificado a maioria dos poços no campo.
— Vamos até lá dentro um instante, Tom. — Será foi na frente através da neve até o trailer-escritório. Lá dentro estava quente e havia um bule de café na fornalha de ferro, cheia de lenha, no canto da parede. — Café?
— Obrigado, eu estou exausto, a viagem de Teerã até aqui foi muito cansativa.
Será estendeu-lhe uma xícara.
— Que diabo está acontecendo?
— Obrigado. Não sei exatamente. Eu só deixei o Jean-Luc na base, tive uma conversa breve com Scot, e então achei melhor trazer logo Jesper e vir falar com você pessoalmente. Ainda não estive com Nitchak Khan; vou fazer isto assim que voltar, mas Scot foi bem claro: Nitchak Khan disse a ele que o komiteh tinha-nos dado 48 horas para partir. Mel...
— Mas por quê? Mamma mia, se vocês saírem, nós vamos ter que fechar o campo.
— Eu sei. Meu Deus, o café está ótimo! Nitchak sempre foi razoável no passado. Você já soube que este komiteh matou Nasiri e pôs fogo na escola?
— Sim, que coisa terrível. Ele era um cara legal, embora fosse pró-xá.
— Assim como todos nós, quando o xá estava no poder — disse Lochart, pensando em Xarazade e Jared Bakravan e Emir Paknouri e no HBC, seu pensamento voltando sempre ao HBC e a Xarazade. Ele saíra ao amanhecer, odiando ter que deixá-la. Ela ainda dormia profundamente. Ele tinha pensado em acordá-la, mas não havia mais nada que pudesse dizer. Zagros era responsabilidade dele, e ela parecia tão exausta, a marca no seu rosto tão nítida. O seu bilhete dizia: "Volto dentro de dois dias. Se houver qualquer problema procure Mac ou Charlie. Todo o meu amor." Ele tornou a olhar para Será.
— McIver tem um encontro esta manhã com um alto funcionário do governo, então, com um pouco de sorte, talvez ele consiga resolver isso. Ele disse que nos mandaria uma mensagem assim que voltasse. O seu rádio está funcionando?
Será deu de ombros.
— Como sempre: de vez em quando.
— Se eu souber de alguma coisa, mandarei um recado para você, ou hoje à noite ou amanhã bem cedo. Espero que tudo não passe de uma tempestade num balde de merda. Mas se tivermos que dar o fora, McIver mandou que eu ficasse temporariamente perto de Kowiss. Não há nenhuma maneira de atender vocês de lá. O que você acha?
— Se você for obrigado a sair, nós vamos ter que evacuar o campo. Você vai ter que nos transportar para Shiraz. Há um QG da companhia lá. Eles podem nos alojar lá ou mandar-nos para fora até podermos voltar. Madona, seriam onze bases fechadas, com dois turnos.
— Nós podemos usar os dois 212, não se preocupe.
— É muita coisa, Tom. — Será estava muito preocupado. — Não há nenhuma maneira de fechar e retirar os homens em 48 horas. Não há jeito.
— Talvez não seja necessário. Vamos torcer. — Lochart levantou-se.
— Se tivermos que evacuar, a maioria do pessoal vai ficar contente. Nós não temos nenhuma substituição há várias semanas e eles estão com as licenças vencidas. — Será levantou-se e olhou pela janela. Podia-se ver o sol da tarde brilhando no pico que ficava sobre a plataforma Bellissima. — Você soube do ótimo trabalho que Scot fez, com Pietro?
— Sim. Os rapazes o chamam de Pietro Bombardeiro agora. Sinto muito sobre Mario Guineppa.
— Chesarà, sara! Os médicos são todos stronzi. Ele fez um exame no mês passado. Estava perfeito. Stronzo! — o italiano olhou-o com atenção. — O que há, Tom?
— Nada.
— Como estava Teerã?
— Nada bom.
— Scot disse-lhe alguma coisa que eu não saiba?
— O motivo para as ordens do komiteh'! Não, não disse. Talvez eu consiga arrancar alguma coisa de Nitchak Khan. — Lochart trocou um aperto de mão com ele e saiu. Depois que decolou, ele pensou na história que Scot tinha contado a ele, Jean-Luc e Jesper sobre o que havia acontecido na aldeia depois que o komiteh condenou Nitchak Khan à morte:
— Assim que eles levaram Nitchak Khan para fora da escola e eu fiquei sozinho, pulei pela janela dos fundos e corri para a floresta o mais silenciosamente possível. Uns dois minutos depois, eu ouvi uma porção de tiros e voltei correndo para a base, o mais depressa que pude. Devo admitir que estava morto de medo. Isso levou um bom tempo, a maldita neve tem montes de mais de três metros de altura. Não muito tempo depois de eu ter chegado, Nitchak Khan e o mulá e alguns dos aldeões apareceram. Meu Deus, eu fiquei tão aliviado! Eu estava certo de que Nitchak e o mulá tinham sido fuzilados e acho que eles também ficaram aliviados, porque me olharam com os olhos arregalados, pensando que eu também estivesse morto.