— Por quê? — Tom tinha perguntado.
— Nitchak disse que pouco antes do komiteh ir embora eles tocaram fogo na escola, supostamente comigo ainda lá dentro. E disse que eles tinham ordenado que todos os estrangeiros saíssem de Zagros. Todo mundo, mas principalmente nós, com os nossos helicópteros, no máximo até amanhã à noite.
Lochart olhava a terra lá embaixo, a base não ficava muito longe dali, com a aldeia nas suas proximidades. O sol da tarde descia por trás das montanhas. Havia bastante claridade, mas não havia mais sol para esquentá-los. Um pouco antes dele ter saído com Jesper para a plataforma Rosa, quando não havia ninguém por perto, Scot tinha contado a ele o que tinha realmente acontecido.
— Eu vi tudo, Tom. Eu não fugi na hora em que disse que tinha fugido. Eu não tive coragem de contar a ninguém mas eu estava espiando pela janela da escola, apavorado, e vi tudo. Tudo aconteceu tão depressa. Meu Deus, você devia ter visto a mulher do velho Nitchak com o rifle, parecia uma tigresa. E dura! Ela atirou na barriga do Faixa Verde, então deixou ele gritar um pouco e... baanggg! acabou com ele. Aposto que foi ela quem atirou no primeiro filho da mãe, o líder, quem quer que ele fosse. Nunca vi uma mulher como aquela, nunca pensei que ela fosse assim.
— E quanto a Nasiri?
— Nasiri não teve nenhuma chance. Saiu correndo e eles o mataram. Tenho certeza que eles o mataram porque ele era uma testemunha e não era da aldeia. Isso me fez criar coragem e pôr as pernas para trabalhar, eu pulei a janela como disse e quando Nitchak apareceu aqui, eu fingi acreditar na história dele. Mas eu juro por Deus, Tom, todos aqueles filhos da mãe do komiteh estavam mortos quando eu saí da aldeia, então Nitchak deve ter ordenado que pusessem fogo na escola.
— Nitchak Khan não faria isto, não com você lá dentro. Alguém deve ter visto você sair.
— Espero que você esteja errado porque então eu sou uma ameaça viva para a aldeia, a única testemunha
Lochart pousou e caminhou até a aldeia. Ele foi sozinho. Nitchak Khan e o mulá esperavam por ele no café, conforme fora combinado. E muitos aldeões, mas nenhuma mulher. O café era o lugar das reuniões, uma choupana de um só cômodo feita de troncos de madeira e pau a pique com um telhado inclinado e uma chaminé primitiva, com as vigas pretas de anos de fumaça. Havia grossos tapetes para a pessoa sentar.
— Salaam, calênder, que a paz esteja com você — disse Lochart, usando o título honorífico para dar a entender que Nitchak Khan era também o líder da base.
— Que a paz esteja com você, calênder dos Homens Voadores — o velho disse educadamente. Lochart sentiu a bofetada e viu que não havia nada da amizade dos velhos tempos nos olhos dele. — Por favor, sente-se e esteja à vontade. Sua viagem foi proveitosa?
— Como Deus quiser. Eu senti falta da minha casa aqui em Zagros e dos meus amigos de Zagros. O senhor é abençoado por Deus, calênder. — Lochart sentou-se no tapete desconfortável e trocou as intermináveis gentilezas, esperando que Nitchak Khan permitisse que ele fosse diretamente ao assunto. A sala era claustrofóbica e tinha um cheiro rançoso, o ar estava pesado com o cheiro das pessoas, de cabras e carneiros. Os outros homens observavam silenciosamente.
— O que traz Vossa Excelência até a aldeia? — perguntou Nitchak Khan e uma onda de expectativa passou por ele.
— Eu fiquei chocado quando soube que estranhos vieram até a nossa aldeia e tiveram a impertinência de pôr as mãos no senhor.
— Como Deus quiser. — Nitchak Khan apertou ligeiramente os olhos.
— Os estranhos vieram à nossa aldeia mas foram embora deixando-a como ela sempre foi. O seu acampamento, infelizmente, não será mais o mesmo.
— Mas por quê, calênder? Nós temos sido bons para a aldeia e empregamos muita gente do seu povo...
— Não cabe a mim questionar o nosso governo nem os komitehs do nosso governo ou o nosso Comandante do Povo, o próprio aiatolá. O jovem piloto viu e ouviu, então não resta mais nada a dizer.
Lochart percebeu a armadilha.
— O jovem piloto só viu e ouviu o que aconteceu na escola, calênder. Eu peço que nós, como hóspedes antigos e conhecidos — ele escolheu cuidadosamente as palavras —, que nós tenhamos tempo de procurar mudar uma ordem que parece ir contra os interesses de Zagros.
— Zagros se estende por mil quilômetros e atravessa as terras dos kash 'kai, entra na terra dos Bakhtiari e de mais uma centena de tribos. Yazdek é Yazdek
— Nitchak falou asperamente, e depois citou o Rubãiyãt: — "Entregue o seu corpo ao destino e suporte a dor, / Porque o que a Pena escreveu para você, / Ela não vai apagar."
— É verdade, mas Ornar Khayyám escreveu também: "A bondade e a maldade que estão no coração do homem, / A alegria e a dor que são a nossa sorte e o nosso destino, / Não se opõem à roda do paraíso porque, à luz da razão, / A roda é mil vezes mais impotente que você."
Um murmúrio correu entre os aldeões. O velho mulá balançou a cabeça, satisfeito e não disse nada. Os olhos de Nitchak Khan sorriram embora sua boca não, e Lochart soube que o encontro iria melhorar agora. Ele abençoou Xarazade que abrira os seus olhos, seus ouvidos e seus sentidos para o Rubãiyãt que, em farsi, possuía enorme beleza.
Todo mundo esperou. Nitchak Khan coçou a barba, pôs a mão no bolso e encontrou uma carteira de cigarros. Lochart, como quem não quer nada, apresentou o pishkesh, um isqueiro Dunhill folheado a ouro que tinha comprado de Effer Jordon exatamente para isso: "Effer, eu mato você se ele não funcionar logo da primeira vez!" Ele acariciou a pedra. O pavio acendeu e ele tornou a respirar. Sua mão estava bem firme quando ele se inclinou e ofereceu fogo ao velho.
Nitchak Khan hesitou, depois acendeu o cigarro e deu uma longa tragada.
— Obrigado. — Seus olhos se estreitaram quando Lochart pôs o isqueiro no tapete em frente a ele.
— Talvez o senhor pudesse aceitar este presente de todos nós do campo, que estamos gratos pela sua orientação e pela sua proteção. Afinal, o senhor não arrombou os portões e tomou posse da base em nome do povo? O senhor não venceu a corrida de tobogã, derrotando o melhor dos nossos corredores, por causa da sua coragem?
Outro murmúrio percorreu os aldeões, todos esperavam, cheios de contentamento pelo acirramento da disputa, embora todos soubessem que o infiel só falara a verdade. O silêncio cresceu, então o khan esticou a mão e apanhou o isqueiro e examinou-o atentamente. O seu polegar retorcido levantou a tampa como ele havia visto outros fazerem no acampamento. Com um pequeno movimento, o isqueiro acendeu logo da primeira vez e todo mundo ficou tão contente quanto ele pela qualidade do pishkesh,
— Qual a orientação que Vossa Excelência precisa?
— Nada em particular, caiênder Excelência — disse Lochart, em tom desgostoso, prosseguindo com o jogo de acordo com os costumes.
— Mas deve haver alguma coisa que poderia melhorar o grupo de Vossa Excelência? — O velho apagou o cigarro no chão.
Finalmente Lochart deixou-se convencer.
— Bem, já que Vossa Excelência tem a bondade de perguntar, se Vossa Excelência pudesse interceder por nós no komiteh, para que este nos dê um pouco mais de tempo, eu ficaria muito agradecido. Vossa Excelência, que conhece estas montanhas como o fundo do seu próprio prato, sabe que não podemos cumprir ordens de estranhos que obviamente não sabem que não podemos tirar todo o pessoal das plataformas, nem salvaguardar as plataformas, a propriedade que o ramo ilustre dos kash'kai, os Yazdek, possuem em Zagros, nem tirar todas as nossas máquinas e peças até amanhã ao pôr-do-sol.