— É melhor dar-lhe um descanso, Hashemi. A memória dele é boa demais para ser destruída. Nós podemos saber o que Pahmudi significa amanhã e rever as informações. — Armstrong também estava esgotado, secretamente maravilhado com as informações que Rakoczy tinha fornecido. — Eu aconselho um período de descanso, deixe-o dormir por umas cinco horas, depois podemos recomeçar.
Na câmara, os dois homens aguardavam instruções. O médico consultou o relógio. Ele estava naquilo há seis horas, sem descanso, suas costas doíam e também a sua cabeça. Mas ele era um especialista da Savak há muito tempo e estava muito satisfeito por ter levado Rakoczy ao nível da verdade sem drogas. Ateu filho da mãe! Ele pensou com nojo.
— Deixem-no dormir por quatro horas, depois vamos recomeçar — ouviu-se pelo alto-falante.
— Sim, coronel. Muito bem. — Ele examinou os olhos debaixo das pálpebras, depois disse cuidadosamente para o seu assistente, que era surdo-mudo mas podia ler lábios: — Deixe-o como está. Vai poupar tempo quando voltarmos. Ele vai precisar de uma injeção para acordar. — O homem balançou a cabeça e, quando a porta foi aberta pelo lado de fora, os dois homens saíram.
No quarto por trás do espelho o ar estava seco e enfumaçado.
— E quanto a Pahmudi.
— Ele tem que estar ligado com Mzytryk, Petr Oleg. — Armstrong estava repassando as informações de Rakoczy, fascinado.
Hashemi tirou os olhos do homem que estava deitado na mesa e desligou o gravador, apertando o botão de reenrolar. Numa gaveta entreaberta, havia mais sete fitas cassete.
— Posso ter cópias? — Armstrong perguntou.
— Por que não? Os olhos de Hashemi estavam vermelhos e já havia uma sombra de barba no seu rosto embora ele se tivesse barbeado há poucas horas.
— O que havia de tão importante sobre Brodnin e aqueles outros nomes, Grey, Julan Brod alguma coisa, Ted Ever alguma coisa e Percy Smedley ou Smidley Tailler?
Armstrong levantou-se para aliviar a dor no ombro e também para ter tempo para pensar.
— Brodnin era um homem de negócios soviético, da KGB, mas um agente duplo nosso. Nunca houve nenhuma suspeita de que ele nos estivesse enganando. Julan Broad alguma coisa tem que ser Julian Broadhurst. Nós nunca soubemos de nada sobre ele, nunca houve nenhum boato, nada. Ele é um líder da Sociedade Fabian, um membro altamente respeitado do partido trabalhista, com livre entrada no gabinete, conselheiro e confidente de primeiros-ministros.
— E acrescentou aborrecido: Patriota.
— Então agora você o tem nas mãos. Traidor. Então ponha-o numa mesa por algumas horas, tire tudo dele e depois afogue-o no Tâmisa. Grey?
— Lord Grey, agitador da esquerda, ex-sindicalista, líder fanático do grupo anti-China e anti-Hong Kong, educadamente anticomunista, mandado para a Câmara dos Lordes há alguns anos para criar mais confusão. Nós fizemos uma investigação sobre ele há alguns anos, mas ele saiu limpo. Nada exceto a sua política. — Meu Deus, Armstrong estava pensando, se ambos são espiões e traidores, e se pudermos provar, isso destroçaria o Partido Trabalhista, sem falar na explosão que Percy causaria nos Conservadores. Mas como provar e continuar vivo? — Nós nunca tivemos nada contra ele.
— Então agora você o tem nas mãos também. Traidor. Tire tudo dele e mate-o. Ted Ever alguma coisa?
— Everly — menino de ouro da TUC sendo preparado para o gabinete. Impecável político centrista. Nunca houve nem um cheiro de cor-de-rosa, quanto mais de comunista.
— Agora você o tem nas mãos. Torture-o. Smedley ou Smidley Tailler?
Robert Armstrong ofereceu-lhe um cigarro. Percy Smedley-Taylor: nobreza rural, rico, Trinity College... um anormal apolítico que consegue manter as suas aberrações fora da imprensa quando é apanhado. Conhecido crítico de dança, editor de revistas eruditas, com ligações impecáveis e intocáveis com as fontes mais altas e mais delicadas do poder inglês. Cristo todo-poderoso, se ele é um espião soviético... É impossível! Não seja idiota, você já está nisso há muitos anos, conhece segredos demais para se surpreender com alguém.
— Não significa nada, mas eu vou checá-lo, Hashemi — ele disse, sem querer dividir o que sabia até que tivesse resolvido o que fazer.
O gravador desligou quando acabou de reenrolar a fita. Hashemi tirou-a, colocou-a junto com as outras na gaveta de baixo e trancou-a cuidadosamente.
— Então lide com eles à nossa maneira: envie um emissário até eles, Robert, eles e seus nojentos amigos importantes. Eles lhe darão suficiente pishkesh para compensar a sua falta de pensão. — Hashemi riu alegremente, inserindo uma outra fita. — Mas não vá pessoalmente ou acabará numa travessa com uma faca nas costas ou veneno na cerveja. Esses filhos da mãe importantes são todos iguais. — Ele estava muito cansado, mas a sua excitação com todo o maravilhoso conhecimento que Rakoczy proporcionara a eles espantou-lhe o sono. — Nós já tiramos dele o suficiente para dinamitar o Tudeh, controlar os curdos, impedir a insurreição no Azerbeijão, colocar Teerã em segurança, Kowiss em segurança, e fortalecer Khomeini no poder, disse para si mesmo.
— É isso o que você quer? E quanto a Abrim Pahmudi? O rosto de Hashemi ficou sombrio.
— Que Alá me deixe lidar com ele convenientemente! Rakoczy me deu uma chave de ouro, talvez até mesmo para chegar a ele. — E olhou para Armstrong. — De ouro para você também, hein? Este Suslev, Petr Oleg, que assassinou o grande Roger Crosse, hein?
— Sim. Você também. Agora você sabe quem é o seu maior inimigo.
— O que significa Mzytryk, este Suslev, para você?
— Eu tive um pega com ele há anos, em Hong Kong. — Armstrong tomou um gole de café frio, atirando a isca. — Ele podia fornecer a você, e a mim, mais ouro do que o filho. Ele podia entregar Abrim Pahmudi e entregar, Deus sabe a quem mais. Talvez o Komiteh Revolucionário? Eu faria qualquer coisa para tirar informações de Suslev. Como podemos conseguir isto?
Hashemi desviou a atenção de Pahmudi e colocou-a de volta no perigo que estavam correndo ele e sua família
— Em troca você me arranja um passaporte britânico, uma maneira segura de sair e uma pensão substancial, caso eu precise?
Armstrong estendeu a mão.
— Feito — disse ele.
Os dois homens apertaram-se as mãos, nenhum deles acreditando que aquele gesto tivesse qualquer outro valor além da delicadeza, ambos sabendo que cumpririam a promessa se pudessem, mas só se fosse em proveito próprio.
— Se o pegarmos, Robert, eu controlo o interrogatório e pergunto o que quiser primeiro.
— É claro, você é o chefe. — Armstrong disfarçou o seu contentamento.
— Você seria capaz de apanhá-lo?
— Talvez eu pudesse convencer Abdullah Khan de arranjar um encontro deste lado da fronteira. Rakoczy já nos disse o suficiente sobre ele para fazê-lo contorcer-se, embora tenhamos que ser cautelosos... ele é um dos nossos melhores agentes também.
— Fale sobre a Seção 16/a. Aposto que ele não sabe que foi traído. Hashemi concordou.
— Se conseguirmos fazer Petr Oleg atravessar a fronteira, não há necessidade de trazê-lo para cá. Nós podemos tratar dele no nosso posto em Tabriz.
— Eu não sabia que vocês tinham um posto lá.
— Há um monte de coisas que você não sabe sobre o Irã, Robert. — Hashemi apagou o cigarro. Quanto tempo ainda me resta? ele pensou nervosamente, totalmente desacostumado a se sentir como a caça e não como o caçador.
— Pensando bem, dê-me o passaporte amanhã.
— Quanto tempo você vai levar para 'convencer' Abdullah Khan?
— Nós vamos ter que agir com cuidado. Aquele desgraçado é todo-poderoso no Azerbeijão. — Ambos olharam para Rakoczy, que se mexeu, gemeu e tornou a mergulhar no seu pesadelo. — Temos que ter muito cuidado.
— Quando?
— Amanhã. Assim que terminarmos com Rakoczy, visitaremos Abdullah. Você providencia o avião, ou helicóptero. Você está em bons termos com a CHI, não está?