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Armstrong sorriu.

— Você sabe de tudo, não?

— Só a respeito do que acontece em Teerã, dos assuntos islâmicos e iranianos.

Hashemi ficou imaginando o que McIver e os outros estrangeiros que trabalhavam com petróleo fariam se soubessem que o ministro interino Ali Kia, recentemente nomeado para o conselho da ATC, tinha, há poucos dias, recomendado a nacionalização imediata de todas as companhias estrangeiras ligadas ao petróleo, de todos os aviões com registro iraniano, de todas as companhias de aviação, e a expulsão de todos os pilotos e empregados estrangeiros.

— E como o senhor vai atender aos campos de petróleo, ministro Excelência? — ele perguntara quando soube.

— Nós não precisamos de estrangeiros. Os nossos próprios pilotos podem atender aos nossos campos. Nós não temos centenas de pilotos que precisam provar a sua lealdade? Eu suponho que o senhor tenha arquivos secretos a respeito de todos os pilotos estrangeiros, executivos e assim por diante. O, ahn, o komiteh os está solicitando.

— Eu acho que não temos nada, Excelência. Esses arquivos foram organizados pela Savak — Hashemi dissera suavemente. — Eu suponho que o senhor saiba que essas pessoas horríveis possuem uma pasta completa sobre Vossa Excelência?

— Que pasta? Eu? Savak? Você deve estar enganado.

— Talvez. Eu nunca a li, Excelência, mas soube da sua existência. Contaram-me que ela cobre os últimos vinte anos. Talvez ela só contenha mentiras...

Ele deixara o ministro Kia muito abalado, com a promessa de que tentaria obter a pasta secretamente e entregaria a ele e tinha rido até estar de volta ao QG do Serviço Secreto. A pasta sobre Ali Kia — sua pasta — cobria mesmo vinte anos e continha provas irrefutáveis de todo o tipo de negociatas, usura, ações pró-xá, junto com práticas sexuais altamente originais — fotografadas — que fariam os conservadores fundamentalistas terem um ataque.

— Qual é a piada? — Armstrong perguntou.

— A vida, Robert. Há duas semanas eu tinha à minha disposição toda a Força Aérea, se precisasse, agora eu preciso pedir a você para arranjar um avião. Você arranja o avião, eu arranjo a licença. — E sorriu. — Você vai me entregar o passaporte britânico, perfeitamente válido, como diria Talbot, antes de decolarmos, certo?

— Certo. — Armstrong disfarçou um bocejo. — Enquanto estamos esperando, não podemos ouvir o último cassete?

Hashemi estendeu a mão para apanhar a chave, mas parou ao ouvir uma batida na porta. Demonstrando cansaço, ele se levantou e abriu-a. Sua fadiga desapareceu. Havia quatro homens do lado de fora. Um dos seus próprios homens, lívido, e três Faixas Verdes. Armados. Ele conhecia o mais velho deles.

— Salaam, general — disse polidamente, com o coração apertado. — Que a paz esteja com o senhor.

— Salaam, coronel. Que a paz esteja com o senhor. O general Janan tinha uma fisionomia dura e sua boca era uma linha. Savak. Ele olhou friamente para Armstrong, depois apanhou um papel e entregou-o a Hashemi. — Você deve entregar-me o prisioneiro Yazernov imediatamente.

Hashemi pegou o papel, agradecendo a Deus por ter arriscado tudo para capturar Rakoczy e fazê-lo chegar rapidamente ao terceiro nível. "Ao coronel Hashemi Fazir, Serviço Secreto. Urgente. Por ordem do Komiteh Revolucionário: O Departamento de Serviço Secreto está dissolvido e todo o pessoal será absorvido imediatamente por esta organização sob o comando do general Janan. O senhor está suspenso de suas funções até novas ordens. Deverá entregar imediatamente ao general Janan o prisioneiro Yazernov e todas as fitas do interrogatório. (Assinado) Abrim Pahmudi, Diretor, Savama."

— O espião ainda está no segundo nível e o senhor vai ter que esperar. É perigoso removê-lo e...

— Ele não está mais sob sua responsabilidade.

O general fez um sinal para um dos seus homens, que saiu, chamou os outros para o corredor depois desceu as escadas e entrou na câmara lá embaixo. O médico, pálido e muito nervoso, estava junto com eles. Quando os Faixas

Verdes viram o homem nu sobre a mesa, os instrumentos e a forma como ele estava cheio de fios, seus olhos faiscaram. O médico começou a tirar os fios. Lá em cima, na sala de interrogatório, Hashemi olhou para o general.

— Eu advirto, formalmente, que é perigoso removê-lo. O senhor é responsável.

— Insha'Allah. Apenas entregue-me as fitas.

Hashemi deu de ombros e destrancou a gaveta de cima e entregou-lhe as doze fitas do primeiro e do segundo nível, praticamente sem valor nenhum.

— E as outras também! Agora!

— Não há mais nenhuma.

— Abra a outra gaveta!

Mais uma vez Hashemi deu de ombros, escolheu uma chave e usou-a cuidadosamente. Ela girou corretamente. A chave punha em funcionamento o magnetizador e apagava as fitas. Só ele e Armstrong conheciam o segredo — bem como as instalações secretas dos gravadores em duplicata:

— Nunca se sabe, Hashemi, quando se pode ser traído e por quem — Armstrong dissera-lhe há anos, quando, juntos, eles haviam instalado o equipamento. — Você pode querer apagar as fitas e depois usar as fitas secretas para negociar a sua liberdade. Nunca se é cuidadoso demais num jogo desses.

Hashemi abriu a gaveta, rezando para que os dois mecanismos estivessem funcionando. Insha'Allah, pensou e entregou as oito fitas. — Estou-lhe dizendo que elas estão vazias.

— Se estiverem, aceite as minhas desculpas, se não estiverem... Insha'Allah! — O general olhou para Armstrong, com os olhos duros como pedra. — É melhor você deixar o Irã depressa. Dou-lhe um dia e uma noite pelos serviços prestados no passado.

NA CASA DE BAKRAVAN, PERTO DO BAZAR: 20:57H. Xarazade estava deitada de bruços na cama, tomando uma massagem, e gemeu de prazer enquanto a velha passava óleo nas suas manchas roxas e na pele

— Oh, tenha cuidado, Jari.

— Sim, sim, minha princesa — murmurou Jari, com as mãos fortes e suaves aliviando a dor.

Ela tinha sido babá e empregada de Xarazade desde o seu nascimento e a amamentara quando o seu próprio bebê, nascido uma semana antes, morrera. Durante dois anos ela amamentou Xarazade e depois, porque Jari era uma mulher tranqüila e gentil, agora viúva, ficara encarregada de tomar conta dela. Quando Xarazade se casou com Emir Paknouri, ela a acompanhou para a casa dele e então, quando o casamento terminou, elas voltaram para casa alegremente. Estúpido casar uma flor daquelas com um homem que preferia garotos, por mais dinheiro que ele tivesse, Jari sempre pensara assim, mas nunca dissera nada. Nunca nunca nunca. Era perigoso ir contra o chefe da casa — qualquer chefe da casa — mais ainda quando se tratava de um avarento como Jared Bakravan, pensou, nada triste por ele estar morto.

Quando Xarazade se casara pela segunda vez, Jari não fora para o apartamento. Mas isso não tinha importância, porque Xarazade passava os dias lá quando o infiel estava fora. Todos os empregados o chamavam assim e o toleravam por causa da felicidade dela, que só as mulheres compreendiam.

— Eeee, que demônios são os homens — ela disse e disfarçou um sorriso, compreendendo muito bem. Todos eles tinham ouvido os gritos e os soluços na noite passada, e embora todos soubessem que um marido tinha o direito de bater na mulher e que Deus tinha permitido que os golpes do infiel tirassem a sua senhora do seu ataque, ela própria ouvira gritos diferentes, pouco antes do amanhecer, os gritos dos dois no jardim de Deus.

Ela mesma nunca estivera lá. Outras lhe contavam como tinham sido transportadas, e Xarazade também, mas as poucas vezes que o seu marido tinha deitado com ela fora para o prazer dele e não dela. A parte dela tinha sido sofrimento e seis filhos antes dos vinte anos, sendo que quatro tinham morrido quando ainda eram bebês. Depois ele morrera, livrando-a de morrer de parto, o que ela sabia que de outro modo seria inevitável. Como Deus quiser! Oh, sim, disse a si mesma, contente, Deus me salvou e o fez morrer e agora, com toda a certeza, ele está ardendo no fogo do inferno, pois ele era um blasfemador que mal rezava uma vez por dia. Deus também me deu Xarazade!