Ela olhou para o lindo corpo macio e para os longos cabelos escuros. Eeee, disse a si mesma, que bênção ser tão jovem, tão elástica, tão disposta para fazer o trabalho de Deus por longo tempo
— Vire-se, princesa, e..
— Não, Jari, está doendo muito.
— Sim, mas eu preciso massagear os músculos do seu estômago e fortalecê-los. — Jari deu uma risadinha. — Eles precisam ficar bem fortes.
Imediatamente, Xarazade virou-se e olhou para ela, esquecendo-se da dor:
— Oh, Jari, você tem certeza?
— Só Deus pode ter certeza, princesa. Mas você alguma vez atrasou tanto? Você não está atrasada?, e atrasada também em ter um filho?
As duas mulheres riram juntas, depois Xarazade deitou-se de costas e entregou-se às mãos dela e ao futuro e ao momento feliz quando dissesse a ele: Tommy, sinto-me honrada em comunicar... não, não está bom. Tommy, Deus nos abençoou... não, assim também não está bom embora seja verdade. Se ao menos ele fosse muçulmano e iraniano, seria tão mais fácil. Oh, Deus, e Profeta de Deus, faça com que Tommy se torne muçulmano para salvá-lo do inferno, faça com que meus filhos sejam fortes e faça-os crescer para terem filhos e filhas e estes terem filhos... oh, como somos abençoados por Deus..
Ela deixou a mente divagar. A noite estava calma, ainda caía um pouco de neve e não havia muito tiroteio. Daqui a pouco eles jantariam e depois ela jogaria gamão com a prima Karim ou com Zarah, mulher do seu irmão Meshang, depois iria dormir satisfeita, tendo passado bem o dia.
De manhã, quando Jari a acordara, o sol já estava alto, e embora ela tivesse chorado um pouco por causa da dor, o óleo e a massagem a fizeram sentir-se logo aliviada. Depois veio o banho ritual e a primeira oração do dia, ajoelhada diante do pequeno altar num canto do quarto, com o seu sajadeh, a pequena tapeçaria quadrada, finamente tecida, com sua tigela de areia sagrada de Cabella e, além disso, a fileira de contas de rezar e sua cópia do Corão, lindamente decorada. Um rápido café da manhã composto de chá, pão fresco ainda quente do forno, manteiga, mel e leite, um ovo cozido como sempre — isso raramente faltava, mesmo durante os maus momentos — e depois a caminhada rápida até o bazar, de véu e chador, para ver Meshang, o seu adorado irmão.
— Oh, Meshang, meu querido, você parece tão cansado. Soube o que houve com o nosso apartamento?
— Sim, soube — respondeu taciturno, com sombras negras sob os olhos. Aqueles quatro dias desde que seu pai fora para a prisão Evin tinham-no envelhecido. — Filhos de um cão, todos eles! Mas eles não são do nosso povo. Ouvi dizer que são membros da OLP agindo em nome deste Komiteh Revolucionário. — E deu de ombros. — Seja como Deus quiser!
— Como Deus quiser, sim. Mas meu marido disse que um homem chamado Teymour, o líder, este homem disse que nós tínhamos até a hora da oração da tarde de hoje para retirar as nossas coisas.
— Sim, eu sei. Seu marido deixou um recado para mim antes de partir esta manhã para Zagros. Eu mandei Ali e Hassan e alguns outros empregados, disse a eles para fingirem ser transportadores e recolherem tudo o que pudessem.
— Oh, obrigado, Meshang, que esperteza a sua. — E ficou mais aliviada. Ela não podia nem imaginar ter que ir lá pessoalmente. Seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu sei que é a Vontade de Deus, mas me sinto tão vazia sem papai.
— Sim, sim... eu sinto a mesma coisa... Insha'Allah.
Não havia mais nada que ele pudesse fazer. Ele fizera tudo corretamente, supervisionando a limpeza do corpo, envolvendo-o com a melhor musselina, e depois o funeral. Agora a primeira parte do luto estava terminada. No quadragésimo dia haveria outra cerimônia no cemitério quando mais uma vez eles chorariam e rasgariam suas roupas e todos estariam inconsoláveis. Mas depois, como agora, cada um deles mais uma vez retomaria o fardo da vida, havia o Shahada para ser recitado cinco vezes por dia, os Cinco Pilares do Islã para obedecer, para garantir que a pessoa fosse para o céu e não para o inferno — o único motivo importante para viver. Eu certamente irei para o paraíso, pensou com total confiança.
Eles ficaram sentados, em silêncio, na pequena sala sobre a loja que há tão pouco tempo atrás era o domínio particular de Jared Bakravan. Será que fora só há quatro dias que papai estivera lá negociando o novo empréstimo com Ali Kia — quando nós ainda tínhamos algo a oferecer — e que Paknouri entrou e todos os nossos problemas começaram? Filho de um cão! É tudo culpa dele. Ele levou os Faixas Verdes até lá. Sim, ele era uma maldição há anos. Se não fosse pela sua fraqueza, Xarazade já teria tido uns cinco ou seis filhos e nós não teríamos que aturar o infiel que nos torna alvo das zombarias dos lojistas.
Ele viu a mancha em volta do seu olho esquerdo mas não comentou nada. Esta manhã ele agradecera a Deus e concordara com sua mulher que a surra a trouxera de volta do seu ataque.
— Não há nenhum mal numa boa surra de vez em quando, Zarah — ele concluíra com prazer, e pensara: todas as mulheres precisam de uma boa surra de vez em quando, com suas constantes reclamações, choros, picuinhas, ciúmes, interferências e toda essa conversa de votação e marchas e protestos. Contra o quê? Contra as leis de Deus!
Eu nunca entenderei as mulheres. Entretanto, até o Profeta, cujo nome seja louvado, ele, o homem mais perfeito que já viveu, até ele teve problemas com as mulheres e mais dez esposas depois que Khadija, a primeira, morreu após ter-lhe dado seis filhos — que pena que nenhum dos seis filhos sobrevivesse, exceto sua filha Fátima. Mesmo depois de toda essa experiência com mulheres, está escrito que até o Profeta, até ele, tinha que se afastar de vez em quando para ter um pouco de paz.
Por que as mulheres não podem contentar-se em ficar em casa, em serem obedientes, ficarem caladas e não se meterem?
Há tanto o que fazer. Tantos fios de meada para desenrolar e descobrir, tantos segredos para revelar, contas e notas promissórias e débitos para descobrir, e tão pouco tempo. Todas as nossas propriedades roubadas, aldeias, a propriedade no mar Cáspio, casas e apartamentos e edifícios em toda Teerã — tudo o que é do conhecimento daqueles demônios! Demônios! O Komiteh Revolucionário, os mulás e os Faixas Verdes são demônios na terra. Como vou lidar com todos eles? Mas tenho que fazê-lo de algum modo. Tenho, e então, no ano que vem, farei a peregrinação a Meca.
— Seja como Deus quiser — disse e se sentiu um pouco melhor. E Deus quis que eu me encarregasse de tudo muito mais cedo do que eu esperava, muito embora eu esteja tão bem treinado quanto qualquer filho estaria para assumir um império, até mesmo o império Bakravan.
Também foi do desejo de Deus que eu já conhecesse a maioria dos segredos, revelados a mim por meu pai nos últimos anos, quando ele descobriu que podia confiar em mim, que eu era mais inteligente do que ele tinha esperado. Não fui eu que sugeri as contas numeradas na Suíça há quase sete anos, e expliquei sobre os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, o investimento imobiliário na América, e, principalmente, sobre as Sete Irmãs? Nós fizemos milhões, e tudo a salvo desses filhos de um cão, graças a Deus! Em segurança na Suíça, em ouro, terras, ações, dólares, marcos alemães, iens e francos suíços...
Viu Xarazade olhando para ele, esperando.
— Os empregados farão tudo antes do pôr-do-sol, Xarazade, não se preocupe — disse com amor, mas desejando que ela fosse embora para que pudesse prosseguir com o seu trabalho. Mas estava na hora de tratar de outros assuntos:
— Este seu marido, ele concordou em se tornar muçulmano, não?
— Quanta gentileza a sua em se lembrar, querido Meshang. Meu marido concordou em pensar nisso — respondeu defensivamente. — Eu o tenho instruído sempre que posso.