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— Ótimo. Quando ele voltar, por favor diga-lhe que venha me ver.

— Sim, é claro — ela disse imediatamente. Meshang era o chefe da família agora e, como tal, tinha que ser obedecido sem perguntas.

— O prazo de um ano e um dia já venceu, não? — O rosto de Xarazade iluminou-se.

— Sinto-me honrada em dizer-lhe, Meshang querido, que talvez Deus nos tenha abençoado. Eu estou um ou dois dias atrasada.

— Que Deus seja louvado. Isto merece ser celebrado! Papai teria ficado tão feliz. — Ele deu-lhe um tapinha na mão. — Ótimo. Agora, e quanto a ele, o seu marido? Este seria o momento perfeito para um divórcio, não?

— Não! Oh, como você pode dizer uma coisa dessas? — Ela exclamou, antes de poder controlar-se. — Oh, absolutamente não, oh, não, isto seria terrível, eu morreria, seria terr...

— Fique quieta, Xarazade! Pense! — Meshang estava estarrecido pela sua falta de educação. — Ele não é iraniano nem muçulmano, ele não tem dinheiro, não tem futuro, não merece fazer parte dos Bakravans, você não concorda?

— Sim, sim, é claro, eu... eu concordo com tudo o que você está dizendo, mas se puder dizer uma coisa... — ela falou apressadamente, mantendo os olhos baixos para disfarçar o choque, amaldiçoando-se por não ter percebido o quanto Meshang se opunha ao seu Tommy, e que, portanto, era um inimigo contra quem ela devia se proteger. Como pude ser tão estúpida e ingênua? — Eu concordo que pode haver problemas, meu querido, e concordo com tudo o que você disse... — Ela se ouviu dizendo com sua voz mais melosa, enquanto sua cabeça trabalhava na velocidade da luz, analisando, descartando, tentando fazer um plano, para agora e para o futuro, pois sem a benevolência de Meshang a vida seria muito dura. — Você é o homem mais sábio que eu conheço... mas permita-me dizer que Deus talvez o tenha posto no meu caminho, papai concordou com o nosso casamento, então até que Deus o tire do meu caminho eme...

— Mas agora eu sou o chefe da família e tudo mudou. Os aiatolás mudaram tudo — ele disse secamente. Ele jamais gostara de Lochart, ressentia-se por ele ser um infiel, a causa de todos os seus problemas passados e presentes; desprezava-o por ser um intruso e uma despesa injustificada, mas como não pudera interferir e por causa do acordo tácito do pai, ele sempre mantivera esse sentimento oculto. — Não preocupe a sua linda cabecinha, mas a revolução mudou tudo. Nós vivemos num mundo diferente, e é nessa perspectiva que eu preciso considerar o seu futuro e o futuro do seu filho.

— Você tem toda a razão, Meshang, e eu o abençôo por pensar em mim e no meu filho, como você é maravilhoso e que sorte você estar aqui para tomar conta de nós — disse, tendo recuperado o controle. E continuou a elogiar e a bajular, mostrando-se arrependida por sua falta de educação, usando toda sua astúcia, não dando a ele nenhuma indicação e desviando a conversa para outros assuntos. Então, na hora certa, ela disse:

— Eu sei que você deve estar muito ocupado. — E se levantou sorrindo. — Você e Zarah estarão em casa para o jantar? O primo Karim vem jantar, e conseguir escapar da base, não vai ser divertido? Eu não o vejo desde... — ela parou em tempo. — Pelo menos há uma semana, mas o mais importante, Meshang, é que o cozinheiro vai fazer o seu horisht favorito, exatamente do modo como você gosta.

— Oh, vai? Oh, bem, sim, sim, nós estaremos em casa. Mas diga a ele para não usar alho demais. Agora, quanto ao seu marido...

— Oh, isto me faz lembrar, querido Meshang — disse, jogando sua última cartada. Por enquanto. — Ouvi dizer que Zarah agora tem a sua permissão ara ir à Marcha das Mulheres, depois de amanhã, que bondade a sua. — Ela viu ficar vermelho e riu consigo mesma, sabendo que Zarah estava decidida ir e ele estava decidido a que ela não fosse. Sua fúria explodiu. Ela ouviu pacientemente, com os olhos inocentes, concordando de vez em quando, na hora certa.

— Meu marido concorda totalmente com você, Meshang querido — disse com o fervor apropriado. — Sim, totalmente, querido irmão, e eu vou falar com Zarah, caso ela comente alguma coisa a respeito dos seus sentimentos...

— Não que isso faça a menor diferença para ela, ou para mim, porque a esta marcha de protesto nós iremos de qualquer maneira. Ela o beijou de leve. — Até logo, meu querido, tente não trabalhar demais. Eu vou providenciar o horisht.

Então ela fora imediatamente falar com Zarah e a avisara que Meshang ainda estava furioso por causa da marcha.

— Ridículo! Todas as nossas amigas vão estar lá, Xarazade. Será que ele quer nos envergonhar diante das nossas amigas? — Juntas elas tinham feito um plano. E como a tarde já estava no fim ela correra para casa para mandar fazer o horisht.

— Exatamente como o mestre gosta e se você usar alho demais e não estiver perfeito, eu... eu vou mandar o velho Ashabageh, o adivinho, botar mau-olhado em você! Vá até o mercado e compre o melão que ele adora!

— Mas senhora, há tempo que não há melões...

— Arranje um! — gritara, batendo com os pés. — É claro que você pode conseguir um.

Depois supervisionara Jari enquanto ela arrumava todas as suas roupas e as de Tommy, derramando uma lágrima de vez em quando, não pela perda do apartamento, que ele desejara mais do que ela, mas de felicidade por estar de novo em casa. Um descanso, uma oração, depois um banho, e agora a massagem.

— Pronto, princesa — disse Jari, com os braços cansados. — Agora você deve se vestir para o jantar. O que gostaria de usar?

Ela escolhera a roupa que mais agradaria a Meshang, a saia de lã colorida e a blusa que ele admirava. Então, mais uma vez, fora verificar o horisht e o polo — a maneira iraniana de cozinhar o arroz, com uma crosta dourada de dar água na boca — e a outra especialidade de Meshang, o melão, cheiroso, suculento e perfeitamente esculpido.

Esperando por seu primo Karim Peshadi — amando-o, lembrando-se de como tinham crescido juntos, suas famílias sempre unidas, os verões nas propriedades do mar Cáspio, nadando e velejando e, no inverno, esquiando perto de Teerã, nada além de festas, bailes e alegria, Karim alto como o pai, o coronel-comandante de Kowiss, e tão bonito quanto ele. Ela sempre associava Karim àquela primeira noite de setembro em que vira o estrangeiro alto com olhos azuis-acinzentados — olhos que brilharam com o fogo celestial de que falavam os antigos poetas, no mesmo instante em que pousaram nela...

— Alteza, Sua Excelência, seu primo capitão Karim Peshadi, pede permissão para vê-la.

Ela correra alegremente para recebê-lo. Ele estava olhando por uma das janelas do menor dos salões de recepção, que tinha as paredes forradas de espelhos e as janelas seguindo um desenho artístico persa, e cuja única mobília era o tradicional sofá baixo que circundava as paredes, uns poucos centímetros para fora do tapete grosso, macio e revestido da mais fina fazenda persa — como o encosto que ficava preso nas paredes.

— Querido Karim, que bom — Ela parou. Era a primeira vez que o via desde o dia em que tinham ido juntos ao comício de Doshan Tappeh, há uma semana, e agora ele parecia um estranho. Com a pele esticada sobre as maçãs do rosto, terrivelmente pálido, com círculos negros em volta dos olhos, mal barbeado, mal vestido, quando geralmente ele se mostrava impecavelmente vestido e arrumado. — Oh, Karim, o que foi?

Os lábios dele se moveram mas não saiu nenhum som. Ele tornou a tentar.

— Papai está morto, fuzilado por crimes contra o Islã, eu fui considerado suspeito, fui suspenso e posso ser preso a qualquer momento — disse amargamente. — Quase todos os nossos amigos são suspeitos, o coronel Jabani desapareceu, acusado de traição. Você se lembra dele, o que conduziu o povo contra os Imortais e perdeu quase toda a mão numa explosão...

Apatetada, ela ficou sentada, escutando, olhando para ele.

— ...mas o pior ainda está para vir, querida Xarazade. O tio... tio Valik e Annoush e os pequenos Jalal e Setarem estão todos mortos, foram mortos tentando fugir para o Iraque num 212 civil...