— Ela está enganada.
— Em nome de Deus, diga-me a verdade! O senhor deve saber! Tom deve ter-lhe contado, o senhor pode confiar em mim — explodiu o rapaz, fora de si de preocupação. — O senhor tem que confiar em mim. Talvez eu possa ajudar. Tom está correndo um perigo terrível, bem como Xarazade e toda a nossa família! O senhor tem que confiar em mim! Como foi que Tom conseguiu sair?
McIver sentiu o laço sendo apertado em volta de todos eles — Lochart, Pettikin, ele. Não perca a calma, disse a si mesmo, tenha cuidado. Você não deve admitir nada. Não admita nada!
— Pelo que sei, Tom não chegou perto do HBC.
— Mentiroso! — disse o rapaz, furioso, e despejou o que concluíra no trajeto até chegar lá, andando, lutando por um lugar num ônibus, tornando a andar, com a neve caindo, com frio e desesperado, e ainda tendo que comparecer diante do komiteh. — O senhor deve ter assinado a autorização, o senhor ou Pettikin, e o nome de Tom deve constar da autorização. Eu conheço você muito bem, vocês e seus sermões sobre respeitar as regras, assinando formulários, sempre com um formulário para assinar. O senhor assinou, não foi? Não foi? — gritou.
— Acho melhor o senhor sair, capitão — disse secamente McIver.
— O senhor está tão envolvido quanto Tom, será que não compreende? O senhor está numa encrenca tanto quanto...
— Acho que é melhor você esquecer isso. Eu sei que você está esgotado e foi terrível o que houve com seu pai — disse bondosamente. — Lastimo profundamente.
Não havia nenhum outro som além do zumbido suave do HF e do gerador que ficava sobre o telhado. McIver esperou. Karim também. Então o rapaz balançou a cabeça.
— O senhor tem razão — disse abatido —, por que confiaria em mim? Não existe mais confiança. O nosso mundo se transformou num inferno e tudo por causa do xá. Nós confiamos nele e ele traiu a nossa confiança, deu-nos falsos aliados, amordaçou os nossos generais, fugiu e nos deixou na fogueira, envergonhados, abandonou-nos aos falsos mulás. Juro por Deus que o senhor pode confiar em mim, mas que diferença isso faz para o senhor ou para qualquer pessoa? Não existe mais confiança. — Seu rosto contorceu-se. — Talvez Deus tenha nos abandonado. — O HF na outra sala deu um estalo, por causa da estática produzida por uma tempestade elétrica em algum lugar. — O senhor pode falar com Zagros? Xarazade disse que Tom foi para lá hoje de manhã.
— Eu tentei, mas não consegui. — McIver disse com sinceridade. — Nesta época do ano é quase impossível, mas eu soube que ele chegou bem. A nossa base em Kowiss transmitiu um relatório pouco depois do meio-dia.
— É melhor... é melhor o senhor contar a Tom, contar-lhe o que eu disse. Diga-lhe para dar o fora. — A voz de Karim era inexpressiva. — Vocês são abençoados, vocês podem voltar para casa. — Então o seu desespero explodiu e as lágrimas rolaram-lhe pelo rosto.
— Ora, rapaz...
Penalizado, McIver pôs o braço em volta dos seus ombros e consolou-o, o rapaz era da mesma idade que seu filho que estava a salvo na Inglaterra, que nascera inglês, que estava a salvo no chão, era médico e não tinha nada a ver com aviação, em segurança... Meu Deus, quem está seguro?
Pouco depois sentiu que o rapaz estava mais calmo. Para poupar-lhe o embaraço, afastou-se e olhou para a cozinha.
— Eu ia tomar um chá, você quer me fazer companhia?
— Eu... quero apenas um copo d'água e depois vou embora, obrigado. Imediatamente, McIver foi buscar água. Pobre rapaz, pensou, que coisa terrível o que houve com seu pai — um sujeito fantástico, forte, linha dura mas correto e leal, e não uma pessoa de duas caras. Terrível. Meu Deus, se eles o fuzilaram, são capazes de fuzilar qualquer um. Nós todos estaremos mortos em breve, de uma maneira ou de outra.
— Aqui está — disse, revoltado, entregando o copo a Karim.
O rapaz aceitou-o, envergonhado por ter perdido o controle na frente de um estrangeiro.
— Obrigado. Boa noite. — E viu McIver olhar estranhamente para ele. — O que é?
— Apenas uma idéia súbita, Karim. Você poderia ter acesso à torre de Doshan Tappeh?
— Não sei. Por quê?
— Se você pudesse, sem que ninguém soubesse o que estava querendo, você talvez pudesse apanhar a autorização do HBC. Tem que estar no livro de decolagens, caso eles estivessem usando um naquele dia. Então nós saberíamos quem estava pilotando, não é?
— Sim, mas de que adiantaria isso? — Karim observou os olhos claros no rosto anguloso. — Eles estariam com os gravadores automáticos ligados.
— Talvez sim, talvez não. Tinha havido luta por lá... talvez eles não tenham podido ser tão eficientes. Pelo que eu sei, quem levou o HBC não teve autorização verbal da torre. Ele simplesmente decolou. Talvez no meio de toda a excitação eles não tenham gravado qualquer autorização. — A esperança de McIver foi crescendo à medida que ele desenvolvia este raciocínio. — Só o livro poderia dizer, o livro de autorização de decolagens.
Karim tentou compreender aonde McIver queria chegar.
— E se estiver escrito que foi Tom Lochart?
— Não sei como poderia, porque então a minha assinatura teria que estar lá, o que seria, ahn, uma assinatura forjada. — McIver odiava mentiras, e a sua história improvisada cada vez soava mais falsa. — A única autorização que eu assinei foi para Nogger Lane levar algumas peças para Bandar Delam, mas cancelei-a. As peças não eram importantes e as coisas estavam muito tumultuadas, e então o HBC já tinha sido seqüestrado.
— A autorização é a única prova?
— Isso só Deus pode saber com certeza. Se a autorização mencionar Tom Lochart e estiver assinada por mim, é falsa. Uma falsificação que pode causar muitos problemas. Portanto ela não deveria existir. Não acha?
Karim balançou a cabeça vagarosamente, com a sua imaginação já levando-o até a torre, passando pelos guardas — haveria guardas lá? — encontrando o livro e a página correta e vendo... vendo o Faixa Verde na porta, matando-o, apanhando o livro e fugindo, tão silenciosamente e secretamente como tinha entrado, indo até o aiatolá, contando-lhe a respeito do crime monstruoso cometido contra seu pai, o aiatolá sábio, prestando atenção, e não como os cães que tinham abusado da Palavra, ordenando imediatamente vingança em nome do Único Deus. Depois indo até Meshang e contando-lhe que a família estava salva, e mais importante, sabendo que Xarazade, que ele amava e desejava com loucura, mas que lhe era proibida nesta vida — prima em primeiro grau e contra a lei do Corão — também estava salva.
— A autorização não deveria existir — repetiu, muito cansado. E se levantou. — Eu vou tentar. Sim, vou tentar. O que aconteceu com Tom?
Atrás de McIver, o telex começou a se manifestar. Os dois deram um pulo. McIver tornou a prestar atenção em Karim.
— Quando você o encontrar, pergunte-lhe, esta é a coisa certa a fazer. Não é? Pergunte a Tom.
— Salaam.
Trocaram um aperto de mão e ele saiu. McIver tornou a trancar a porta. O telex era de Genny, em Al Shargaz: "Alô número um criança. Conversei com Chinês que chega amanhã à noite, segunda-feira, e estará no 125 para Teerã, terça-feira. Ele diz que é imperativo que você se encontre com ele para uma conferência no aeroporto. Tudo acertado aqui para consertos nos 212 e retorno rápido. Acuse recebimento. Falei com as crianças na Inglaterra e está tudo bem. Estou me divertindo muito aqui, farreando pela cidade, satisfeita por você não estar aqui, por que você não está? MacAllister."
MacAllister era o seu nome de solteira e ela só o usava quando estava muito zangada com ele.
— Grande Gen — disse alto, sentindo-se melhor ao pensar nela. Estou contente que ela esteja a salvo e fora desta confusão. Estou contente dela ter falado com as crianças, isso deve tê-la alegrado. Grande Gen. Tornou a ler o telex. O que há de tão urgente com Andy? Vou saber logo. Pelo menos estamos em contato através de Al Shargaz. Ele se sentou na cadeira da secretária e começou a datilografar a resposta.