— O sr. Talbot ficaria feliz em reforçar este pedido — Armstrong falou na mesma voz baixa e paciente.
— Não. Sinto muito. — McIver virou-se mas estacou ao ouvi-lo perguntar num tom carregado de veneno:
— Antes de ir, eu poderia perguntar a respeito do HBC e de Tom Lochart e do seu sócio Valik, sua mulher e dois filhos?
McIver ficou paralisado de choque. Podia ver o rosto esculpido em pedra, a boca dura e os olhos que brilhavam com a luz refletida da lanterna.
— Eu... eu não sei do que você está falando.
Armstrong pôs a mão no bolso, tirou um pedaço de papel e levantou-o até a altura do rosto de McIver. McIver dirigiu o foco da lanterna para ele. O papel era a fotocópia de uma anotação num livro de autorizações. A letra era boa. "EP-HBC autorizado às 6:20h para um vôo da CHI para Bandar Delam, entrega de peças; piloto capitão T. Lochart, vôo autorizado pelo capitão McIver." A parte de baixo do papel era uma fotocópia da própria autorização, assinada por ele com o nome do capitão N. Lane riscado e marcado 'doente', e substituído pelo do capitão Lochart,
— Um presente, com os meus cumprimentos.
— Onde conseguiu isso?
— Quando o 125 entrar no espaço aéreo de Teerã, fale com o capitão Hogg pelo rádio e diga-lhe que terá de voar imediatamente até Tabriz. Você receberá a autorização a tempo.
— Não, eu não...
— Se você não providenciar tudo e não mantiver tudo em segredo, só entre nós — Armstrong falou com uma determinação que assustou a McIver —, os originais vão para a Savak, agora rebatizada de Savama.
— Isto é chantagem!
— É uma barganha. — Armstrong enfiou o papel na mão dele e começou a se afastar.
— Espere! Onde... onde estão os originais?
— Não estão nas mãos deles, ainda não.
— Se... se eu fizer o que você pede, eu os tenho de volta, certo?
— Você deve estar brincando! É claro que você não terá nada de volta.
— Isso não é justo. Não é nada justo!
Armstrong voltou e encarou-o, seu rosto parecendo uma máscara.
— É claro que não é justo. Se você os conseguir de volta, estará livre, não? Todos vocês. Enquanto esses papéis existirem, vocês farão o que for preciso, não farão?
— Você é um maldito filho da mãe!
— E você é um idiota que devia cuidar da sua pressão. McIver engasgou.
— Como você sabe disso?
— Você ficaria estarrecido com o que eu sei sobre você e Genevere Mac-Allister e Andrew Gavallan e a Casa Nobre e muitas outras coisas que ainda não comecei a usar. — A voz de Armstrong tornou-se mais dura, com o cansaço e a tensão fazendo-o perder o controle. — Será que você não entende que há uma forte possibilidade de que os tanques e os aviões soviéticos estacionem permanentemente deste lado de Ormuz e que o Irã se torne uma província soviética? Eu estou cansado de bancar o idiota com vocês, uns avestruzes. Faça o que eu estou pedindo sem discutir, porque se não fizer eu vou acabar com vocês todos.
TERÇA-FEIRA
20 de fevereiro
TABRIZ: 5:12H. Na pequena cabana quase no limite da propriedade do khan, Ross acordou de repente. Ficou deitado imóvel, mantendo a respiração regular, mas com todos os sentidos atentos. Aparentemente, não havia nada de diferente, só os mosquitos de sempre e o abafamento do quarto. Pela janela ele pôde ver que a noite estava escura, o céu encoberto. Do outro lado do quarto, no outro catre, Gueng dormia encolhido, respirando normalmente. Por causa do frio, os dois homens tinham se deitado completamente vestidos. Sem fazer barulho, Ross foi até a janela e examinou a escuridão. Nada ainda. Então, junto ao seu ouvido, Gueng cochichou:
— O que foi, sahib!
— Não sei. Provavelmente nada.
Gueng cutucou-o e apontou. Não havia nenhum guarda na cadeira do lado de fora, na varanda.
— Talvez ele só tenha ido dar uma volta.
Havia sempre, pelo menos, um guarda. De dia ou de noite. Na noite anterior, havia dois, e Ross fizera um boneco na sua cama e deixara Gueng para distraí-los, pulando pela janela dos fundos, indo sozinho ao encontro de Erikki e Azadeh. Ao voltar, quase tropeçara numa patrulha, mas eles estavam sonolentos e distraídos, e não repararam nele.
— Dê uma olhada pela janela dos fundos — murmurou Ross.
— Sahib, talvez tenha sido apenas um espírito da montanha — Gueng disse baixinho. No país do Alto do Mundo, havia uma superstição de que, à noite, os espíritos visitavam a cama dos que dormiam, com boas ou más intenções, e que os sonhos eram histórias que eles cochichavam.
O homenzinho apurou os olhos e os ouvidos para sentir a escuridão.
— Acho que talvez seja melhor prestarmos atenção aos espíritos.
E voltou para a cama, enfiou as botas, tornou a colocar o talismã que tinha guardado debaixo do travesseiro no bolso do uniforme, depois vestiu suas roupas tribais e seu turbante. Rapidamente, checou o seu rifle, as granadas e a mochila que continha munição, granadas, água e um pouco de comida. Não havia necessidade de checar sua kookri, esta nunca estava longe do seu alcance, era sempre limpa e lubrificada toda noite — e afiada — pouco antes de dormir.
Agora Ross também estava pronto. Mas pronto para quê?, perguntou a si mesmo. Não se passaram nem cinco minutos desde que você acordou e aí está você, com a kookri solta na bainha, com a trava de segurança solta e para quê? Se Abdullah quisesse fazer-lhe algum mal, ele teria tirado as suas armas — ou tentado tirá-las.
Na tarde anterior eles tinham ouvido o 206 decolar e pouco depois Abdullah Khan fora vê-los.
— Ah, capitão, desculpe pelo atraso, mas a confusão está maior do que nunca. Os nossos amigos soviéticos estão oferecendo um prêmio muito alto por suas cabeças — disse jovialmente. — O suficiente até para tentar-me, quem sabe?
— Esperemos que não, senhor. Quanto tempo vamos ter que esperar?
— Uns poucos dias, não mais do que isso. Parece que os soviéticos querem muito pegar vocês. Recebi outra delegação deles pedindo-me para ajudá-los a capturar vocês, a primeira foi antes de vocês chegarem. Mas não se preocupe, eu sei onde está o futuro do Irã.
Na noite anterior, Erikki tinha confirmado a questão da recompensa:
— Hoje eu estava perto de Sabalan, limpando outro posto de radar. Alguns dos operários pensaram que eu era russo. Há muitas pessoas que falam russo entre os povos da fronteira, e disseram que esperavam que fossem eles a capturar o Sabotador britânico alto e seu ajudante. A recompensa são cinco cavalos, cinco camelos e cinqüenta ovelhas. Isso é uma fortuna, e se eles sabem da existência de vocês aqui tão ao norte, pode apostar que estão procurando por aqui.
— Os soviéticos estavam supervisionando vocês?
— Só Cimtarga, mas mesmo assim ele não parecia estar controlando. Só a mim e ao aparelho. Os que falavam russo ficavam me perguntando quando avançaríamos pela fronteira com as tropas.
— Meu Deus. Eles tinham algo em que se basear para perguntar isso?
— Eu duvido, só boatos. O pessoal aqui se alimenta de boatos. Eu disse: Nunca: Mas o homem zombou e disse que sabia que nós tínhamos 'quilômetros' de tanques e exércitos esperando, que ele os vira. Eu não sei falar farsi, portanto não sei se ele era um outro agente da KGB disfarçado de nativo.
— Este 'material' que você está transportando, é importante?
— Não sei. Alguns computadores e um bocado de caixas pretas e papéis. Eles me mantêm afastado, mas nada disso é desmontado por especialistas, é apenas arrancado da parede, os fios são cortados, ficam pendurados e são enfiados para dentro de qualquer jeito. Os operários só estão interessados nos mantimentos, principalmente em cigarros.
Eles tinham conversado a respeito de fugir. Era impossível fazer planos. Havia muitos elementos imponderáveis.