— É melhor eu ficar lá fora, é mais seguro, não resta muito tempo, sahib.
— Sim. — Ross tinha percebido a inquietação na voz dele, mas não fez nenhum comentário. Sabia o motivo. — Você está bem, Azadeh? — perguntou baixinho
— Sim. Agora estou. É melhor no escuro. Desculpe-me por estar tão desarrumada. Sim, estou melhor agora.
— O que está havendo? Onde está o seu marido? — Ele usou a palavra deliberadamente e ouviu-a mover-se na escuridão.
— Logo depois que você partiu, na noite passada, Cimtarga e um guarda vieram e disseram a Erikki que ele tinha que se vestir imediatamente e partir. Este homem, Cimtarga, disse que sentia muito mas que tinha havido uma mudança de planos e que queria partir imediatamente. E eu, eu fui chamada pelo meu pai. Deveria ir imediatamente. Antes de entrar no quarto dele, eu o ouvi dando ordens para que vocês dois fossem presos e desarmados pouco antes do amanhecer. — Havia tensão na voz dela. — Ele estava planejando mandar buscar vocês dois a pretexto de discutir a sua partida amanhã, mas vocês seriam levados para uma cilada perto dos edifícios da fazenda, amarrados, colocados num caminhão e enviados para o norte imediatamente.
— Para que lugar no norte?
— Tbilisi. — Nervosamente, ela continuou: — Eu não sabia o que fazer, não havia nenhuma maneira de avisá-los. Eu sou vigiada tão de perto quanto vocês e mantida afastada dos outros. Quando eu vi meu pai, ele disse que Erikki ficaria fora alguns dias, que hoje, ele, meu pai, ia fazer uma viagem de negócios para Tbilisi e que... que eu iria com ele. Ele... ele disse que ficaríamos fora dois ou três dias e que então Erikki já teria terminado e nós poderíamos voltar para Teerã. — Ela estava quase chorando. — Eu estou tão assustada. Estou tão assustada de que tenha acontecido alguma coisa com Erikki.
— Erikki deve estar bem — disse, sem entender a respeito de Tbilisi, tentando decidir sobre o khan. Sempre pensando no que Vien tinha dito: "Confie sua vida a Abdullah e não acredite nas mentiras que disserem sobre ele". E no entanto, aqui estava Azadeh dizendo o contrário. Ele olhou para onde ela estava, sem enxergá-la, odiando a escuridão, querendo ver-lhe o rosto, os seus olhos, pensando que talvez pudesse ler algo neles. Gostaria que ela me tivesse contado tudo isso do outro lado do maldito muro ou na cabana, pensou, seu nervosismo aumentando. Cristo, o guarda!
— Azadeh, o guarda, você sabe o que aconteceu com ele?
— Oh, sim. Eu... eu o subornei, Johnny, eu o subornei para se afastar por meia hora. Era a única maneira de chegar... era a única maneira.
— Meu Deus... ele murmurou. — Você pode confiar nele?
— Oh, sim. Ali é... ele está com meu pai há anos. Eu o conheço desde os sete anos e dei-lhe um pishkesh de algumas jóias, o bastante para sustentar a ele e à sua família durante anos. Mas, Johnny, quanto a Erikki... estou tão preocupada!
— Não precisa preocupar-se, Azadeh. Erikki não disse que eles talvez o mandassem para perto da Turquia? — Ele disse para animá-la, ansioso para fazê-la voltar em segurança. — Não sei como agradecer-lhe por ter-nos avisado. Vamos, primeiro nós vamos levá-la de volta e...
— Oh, não, eu não posso — ela exclamou. — Você não compreende? Papai vai me levar para o norte e eu nunca vou conseguir fugir, nunca. Meu pai me odeia e vai me deixar com Mzytryk, eu sei que vai, eu sei.
— Mas e quanto a Erikki? — ele perguntou, chocado. — Você não pode simplesmente fugir!
— Oh, sim, eu tenho que fugir, Johnny. Eu tenho. Não tenho coragem de ficar esperando, não tenho coragem de ir para Tbilisi, é muito mais seguro para Erikki que eu fuja agora. Muito mais seguro.
— Do que é que você está falando? Você não pode simplesmente fugir assim! Isso é loucura! Digamos que Erikki volte esta noite e descubra que você partiu? O que...
— Eu deixei um bilhete para ele. Nós combinamos que numa emergência eu deixaria um bilhete num lugar secreto do nosso quarto. Nós não tínhamos como saber o que papai iria fazer enquanto ele estivesse fora. Erikki vai entender. Há mais uma coisa. Papai vai ao aeroporto hoje, por volta de meio-dia. Ele vai esperar um avião, alguém que vem de Teerã, eu não sei quem é, nem do que se trata, mas achei que talvez você pudesse... você pudesse convencê-los a nos levar de volta para Teerã ou que nós pudéssemos subir a bordo sem sermos vistos ou que você... você pudesse obrigá-los a nos levar...
— Você está louca — ele disse, zangado. — Isso tudo é loucura, Azadeh. É loucura partir e deixar Erikki. Como você sabe que não é como o seu pai falou, pelo amor de Deus? Você diz que o khan odeia você. Meu Deus, se você fugir assim, quer ele a odeie ou não, ele vai ficar furioso. De qualquer maneira, você vai colocar Erikki num perigo ainda maior.
— Como você pode ser tão cego? Você não percebe? Enquanto eu estiver aqui, Erikki não tem nenhuma chance, nenhuma. Se eu não estiver aqui, ele só precisa pensar em si mesmo. Se ele souber que eu estou em Tbilisi, ele vai para lá e estará perdido. Você não está vendo? Eu sou a isca. Em nome de Deus, Johnny, abra os olhos! Por favor, ajude-me!
Ele a ouviu chorar, baixinho, e isto apenas aumentou a sua fúria. Cristo, nós não podemos levá-la. Isso é totalmente impossível. Seria assassinato — se o que ela diz sobre o khan é verdade, haverá um batalhão atrás de nós dentro de duas horas e teremos sorte se ainda estivermos vivos ao pôr-do-sol.
— Já devem estar atrás de nós, pelo amor de Deus, raciocine direito! É maluquice fugir! Você tem que voltar. É melhor — disse.
O choro parou.
— Insha'Allah — ela disse num tom de voz diferente. — Como você achar melhor, Johnny. É melhor vocês partirem depressa. Vocês não têm muito tempo. Para que lado vocês vão?
— Eu... eu não sei. — Ele estava contente com a escuridão, que ocultava o seu rosto. Meus Deus, por que tinha que ser Azadeh? — Vamos, nós vamos levá-la de volta.
— Não há necessidade. Eu... eu vou ficar aqui mais um pouco. Ele percebeu a mentira e seus nervos ficaram ainda mais tensos.
— Você vai voltar. Tem que voltar.
— Não — ela respondeu desafiadoramente. — Eu não posso voltar nunca mais. Vou ficar aqui. Ele não vai me encontrar. Eu já me escondi aqui antes. Uma vez eu fiquei aqui dois dias. Aqui eu estou segura. Não se preocupe comigo. Eu ficarei bem. Vá você. É o que você tem que fazer.
Exasperado, ele conseguiu controlar o impulso de erguê-la à força, e ao invés disso tornou a recostar-se na parede da caverna. Eu não posso deixá-la, não posso carregá-la de volta contra a vontade e não posso levá-la. Não posso deixá-la, não posso levá-la. Oh, você pode levá-la com você, mas por quanto tempo? E quando ela for capturada, estaria envolvida com sabotadores e só Deus sabe do que mais eles a acusariam e eles atiram pedras nas mulheres por isso.
— Quando descobrirem que não estamos lá, e que você também não está, o khan vai saber que você nos avisou. Se você ficar aqui, acabará sendo descoberta e o khan vai saber de qualquer maneira que você nos avisou e isto vai tornar as coisas piores do que nunca para você, e para o seu marido. Você precisa voltar.
— Não, Johnny. Eu estou nas mãos de Deus e não estou com medo.
— Pelo amor de Deus, Azadeh, raciocine.
— Eu estou raciocinando. Eu estou nas mãos de Deus, você sabe disso. Nós não conversamos sobre isso lá nas montanhas uma dezena de vezes? Eu não estou com medo. Deixe-me uma granada como a que você deu a Erikki. Eu estou em segurança nas mãos de Deus. Por favor, vá agora.