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Naquela época, eles conversavam muito sobre Deus. Numa montanha na Suíça, era fácil e normal, e não havia do que se envergonhar — não com a sua bem-amada que sabia o Corão e lia em árabe e se sentia muito perto do Infinito e que acreditava piamente no Islã. Aqui no escuro da pequena caverna não era a mesma coisa. Nada era igual.

— Insha'Allah — ele disse e decidiu. — Nós vamos voltar, você e eu, e eu vou mandar Gueng prosseguir. — E se levantou.

— Espere — ele a ouviu levantar-se e sentiu o seu hálito e a sua proximidade. A mão dela tocou-lhe o braço. — Não, meu querido — ela disse, com a voz de antigamente. — Não, meu querido, isso destruiria o meu Erikki... e você e o seu soldado. Você não vê, eu sou o instrumento para destruir Erikki. Remova o instrumento e ele terá uma chance. Fora dos muros do meu pai você também tem uma chance. Quando você vir Erikki, diga a ele... diga a ele.

O que devo dizer a Erikki? ele se perguntou. Na escuridão, ele tomou-lhe a mão e, sentindo o seu calor, viu-se de volta à enorme cama, com uma violenta tempestade de verão sacudindo as janelas, os dois contando os segundos entre os relâmpagos e o trovão que ecoava no vale — às vezes apenas um ou dois segundos, oh, Johnny, deve estar quase aqui em cima, Insha'Allah se nos apanhar, não importa já que estamos juntos — de mãos dadas assim. Mas não assim, ele pensou com tristeza. Levou a mão dela aos lábios e beijou-a.

— Você mesma pode dizer a ele. Nós vamos tentar... juntos. Preparada?

— Você quer dizer prosseguir? Juntos?

— Sim.

Depois de uma pausa, ela disse:

— Primeiro pergunte a Gueng.

— Ele faz o que eu digo.

— Sim, é claro. Mas por favor, pergunte a ele. Mais um favor. Sim? Ele foi até a entrada da caverna. Gueng estava encostado nas rochas do lado de fora. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Gueng disse baixinho em ghurkali:

— Nenhum perigo ainda, sahib. Lá fora.

— Ah, você ouviu?

— Sim, sahib.

— O que você acha?

Gueng sorriu.

— O que eu acho, sahib, não pesa nada, não afeta nada. Carma é carma. Eu faço o que o senhor diz.

NO AEROPORTO DE TABRIZ: 12:40H. Abdullah Khan estava em pé ao lado do seu Rolls à prova de balas no pátio de concreto coberto de neve perto do terminal do aeroporto. Ele estava vermelho de raiva, observando o 125 terminar o pouso, rezando para que ele explodisse. Na véspera, um telex passado através do QG da polícia f ora-lhe entregue por seu sobrinho, coronel Mazardi, o chefe de polícia. "Por favor, espere pelo vôo G-ETLL, ETA 1240 amanhã, terça-feira, (assinado) coronel Hashemi Fazir." O nome o fizera tremer e a todos os que tiveram acesso à mensagem. O Serviço Secreto sempre estivera acima da lei e o coronel Hashemi Fazir era o seu grande inquisidor, um homem cuja crueldade era uma lenda até no Irã, onde a crueldade era desejada e admirada.

— O que ele quer aqui, Alteza? Mazardi perguntara, muito amedrontado.

— Discutir o Azerbeijão — respondera, escondendo o temor e abalado pela secura do telex, completamente desorientado por esta chegada inesperada e indesejada. — É claro que é para perguntar como pode me ajudar. Ele tem sido um amigo secreto há anos — acrescentou, mentindo automaticamente.

— Vou ordenar uma guarda de honra e um comitê de boas-vindas e..

— Não seja idiota! O coronel Fazir gosta de ficar incógnito. Não faça nada, não chegue perto do aeroporto, apenas certifique-se de que as ruas estão tranqüilas e... ah, sim, aumente a pressão sobre o Tudeh. Aliás, obedeça às ordens de Khomeini de arrasá-los. Incendeie o quartel-general deles hoje à noite e prenda os líderes conhecidos. — Será um pishkesh perfeito, caso eu precise de um, pensara, encantado com a própria esperteza. Fazir não é fanaticamente anti-Tudeh? Graças a Deus que Petr Oleg já aprovou.

Então ele tinha mandado Mazardi embora e xingara todos os que estavam por perto, mandando-os embora também. O que será que esse filho de um cão do Fazir quer comigo?

Ao longo dos anos, eles tinham se encontrado diversas vezes e tinham trocado informações, vantajosas para ambos. Mas o coronel Hashemi Fazir era um desses homens que acreditavam que a única proteção do Irã repousava num governo absolutamente centralizado, com sede em Teerã, e que os chefes tribais eram arcaicos e representavam um perigo para o Estado — e, acima de tudo, Fazir era um teerani com o poder para descobrir muitos segredos, segredos que poderiam ser usados contra ele. Que Deus amaldiçoe todos os teeranis e os mande para o inferno. E Azadeh, e o seu maldito marido!

Azadeh! Será que eu gerei mesmo aquele demônio? Não é possível! Alguém deve ter... Deus me perdoe por desconfiar da minha amada Naphtala! Azadeh está possuída pelo demônio. Mas ela não vai escapar, oh não, eu juro que a levarei para Tbilisi e que deixarei Petr usá-la..

O sangue começou a rugir nos seus ouvidos e o aperto no peito recomeçou, uma dor incômoda. Pare, disse a si mesmo, ansiosamente, acalme-se. Deixe-a de lado, você vai ter sua vingança mais tarde. Pare ou você se matará! Pare com isso, deixe-a de lado e pense em Fazir, você vai precisar de toda a sua astúcia para lidar com ele. Ela não pode escapar.

Quando, logo depois do amanhecer, os guardas apavorados tinham corrido para lhe dizer que os dois prisioneiros haviam desaparecido e, quase ao mesmo tempo, viram que ela não estava lá, a sua violência não teve limites. Imediatamente ele mandara homens revistarem o esconderijo dela nos rochedos, de cuja existência ele sabia há anos e ordenara que eles não voltassem sem ela e os sabotadores. Mandara decepar o nariz do guarda da noite, os outros guardas foram açoitados e atirados na prisão, acusados de conspiração, as criadas dela foram chicoteadas. Por fim, saíra bufando para o aeroporto, deixando uma nuvem de terror por todo o palácio.

Que Deus amaldiçoe todos eles, pensou, fazendo um esforço enorme para se acalmar, sem tirar os olhos do jato. O céu estava parcialmente azul, com nuvens ameaçadoras e um vento mau que varria a pista coberta de neve. Ele estava usando um chapéu de astracã, um sobretudo com gola de pele e botas forradas de pele, e o frio embaçava-lhe os óculos. No bolso, trazia um pequeno revólver. Atrás dele, o pequeno prédio do terminal estava vazio, exceto pelos seus homens que guardavam o aeroporto e a estrada de acesso ao lado. Em cima, no telhado, colocara um atirador com instruções para matar Fazir caso ele tirasse do bolso um lenço branco e assoasse o nariz. Eu fiz tudo o que podia, agora está nas mãos de Deus. Exploda, seu filho da mãe!

Mas o 125 fez uma aterrissagem perfeita, com a neve espirrando das rodas. O seu temor aumentou. E também o som das batidas do seu coração.

Seja como Deus quiser — murmurou e entrou no banco de trás do carro, separado do motorista e de Ahmed, seu conselheiro de maior confiança e guarda-costas, pelo vidro móvel, à prova de balas.

— Intercepte-o — ordenou e verificou o revólver, deixando-o destravado. O 125 saiu do final da pista e foi para a área de abastecimento, virou a favor do vento e parou. Tudo estava deserto, só havia montes de neve e espaços vazios. O grande Rolls parou ao lado do avião e a porta do jato se abriu. Ele viu Hashemi Fazir em pé na porta, acenando para ele:

— Salaam! Que a paz esteja com Vossa Alteza, venha a bordo. Abdullah Khan abriu o vidro e respondeu:

— Salaam, que a paz esteja com Vossa Excelência, venha para cá. — Você deve achar que eu sou um idiota em colocar a minha cabeça numa armadilha dessas, pensou. — Ahmed, suba a bordo, vá armado e finja que não sabe falar inglês.

Ahmed Dursak era um turcomano muçulmano, muito forte, muito rápido com um revólver ou uma faca. Ele saiu do carro, com a metralhadora na mão, e subiu rapidamente os degraus, com o vento levantando o seu casaco comprido.

— Salaam, coronel Excelência — disse em farsi, parando no último degrau. — O meu mestre pede que o senhor se junte a ele no carro. As cabines de jatos pequenos o fazem sentir-se mal. No carro os senhores podem conversar em particular e em paz, totalmente sozinhos se desejar. Ele pergunta se o senhor honrará a sua pobre casa ficando com ele durante sua permanência aqui.