Hashemi ficou chocado de que Abdullah tivesse tido a ousadia — e a confiança — de mandar um emissário armado. Ir para o carro também não convinha a ele, era muito fácil haver aparelhos escondidos.
— Diga a Sua Alteza que eu às vezes fico enjoado em carros e que peço que ele venha até aqui. Aqui nós podemos conversar em particular, também podemos ficar a sós e isto seria um favor que ele me faria. É claro que você deve revistar a cabine, para o caso de um inimigo ter-se escondido a bordo.
— O meu mestre preferiria, Excelência, que...
Hashemi chegou mais perto dele e seus lábios eram uma linha e sua voz dura.
— Reviste o avião! Agora! E faça isso depressa, Ahmed Dursak, três vezes assassino. Uma delas de uma mulher chamada Najmeh. E faça o que estou mandando ou você não durará mais nem uma semana nesta terra.
— Então estarei mais depressa no paraíso, porque servindo o khan eu estou fazendo o trabalho de Deus — disse Ahmed Dursak — mas vou fazer a revista como o senhor deseja. — Ele entrou na cabine e viu os dois pilotos. Armstrong estava na cabine. Seus olhos se estreitaram, mas não disse nada, apenas passou por ele educadamente e abriu a porta do toalete, certificando-se de que estava vazio. Não havia nenhum outro lugar onde alguém pudesse esconder-se.
— Se o que o senhor sugere for possível, Excelência, os pilotos sairão? Antes, Hashemi tinha perguntado ao capitão, John Hogg, se ele se importaria de sair caso fosse necessário.
— Desculpe, senhor — dissera Hogg — mas eu não gosto nem um pouco dessa idéia.
— Seria apenas por alguns minutos. O senhor pode levar a chave da ignição, e os disjuntores — dissera Robert Armstrong. — Eu me responsabilizo pessoalmente de que ninguém entre na cabine do piloto nem toque em nada.
— Eu ainda não gosto da idéia, senhor.
— Eu sei — respondera Armstrong. — Mas o capitão McIver lhes disse que obedecessem às instruções. Dentro do razoável. E isso está dentro do razoável.
Hashemi viu a arrogância no rosto de Ahmed e teve vontade de arrancá-la dali. Isto vem mais tarde, prometeu a si mesmo.
— Os pilotos esperarão no carro.
— E o infiel?
— Este infiel fala farsi melhor do que você, e se você for esperto, verme, será educado com ele e o chamará de Excelência, pois posso lhe assegurar, e aos seus ancentrais turcomanos, que ele tem uma memória tão boa quanto a minha e pode ser muito mais cruel do que você imagina.
Ahmed esboçou um sorriso.
— E Sua Excelência, o infiel, ele também vai esperar na pista?
— Ele fica aqui. Os pilotos vão esperar dentro do carro. Se Sua Alteza quiser trazer um guarda com ele, para certificar-se de que não há nenhum assassino escondido, ele será bem-vindo. Se este acordo não estiver bom para ele, talvez nós possamos nos encontrar na chefatura de polícia. Agora dê o fora.
Ahmed agradeceu educadamente, desceu e contou ao khan o que fora dito, acrescentando:
— Acho que aquele cão deve estar muito seguro de si mesmo para ter sido tão grosseiro. — E no avião, Hashemi dizia em inglês:
— Robert, aquele filho de um cão deve estar muito seguro de si para ter criados tão arrogantes.
— Você realmente arrastaria o khan de todos os Gorgons para a chefatura de polícia?
— Eu poderia tentar. — Hashemi acendeu outro cigarro. — Mas acho que não conseguiria. O sobrinho dele, Mazardi, ainda é o chefe de polícia e a polícia aqui ainda mantém grande parte do seu poder. Os Faixas Verdes e os komitehs ainda não estão dominando.
— Por causa de Abdullah?
— É claro que sim. Durante meses, por ordem dele, a polícia de Tabriz apoiou Khomeini. A única diferença dos tempos do xá para os tempos de Khomeini é que os retratos do xá foram substituídos pelos retratos de Khomeini, os emblemas do xá foram retirados de todos os uniformes e agora o poder de Abdullah é maior do que nunca. — Um vento gelado entrou pela porta entreaberta. — O povo do Azerbeijão é uma raça traiçoeira e cruel. Os xás Qajar vieram de Tabriz, bem como o xá Abbas, que construiu Isfahan e tentou garantir a sua longevidade assassinando seu filho mais velho e cegando outro ..
Hashemi Fazir estava observando o carro pela janela, desejando que Abdullah cedesse. Ele agora se sentia melhor e mais confiante de que veria o Dia Santo desta semana do que estivera no sábado à noite, quando o general Janan invadira o seu QG com ordens para dissolver o Serviço Secreto e levara os cassetes e Rakoczy. Durante toda aquela noite ele tinha ficado apavorado, então, na madrugada de ontem, quando saiu de casa, descobriu que havia homens seguindo-o e, de manhã, sua mulher e seus filhos foram empurrados na rua. Ele só conseguira se livrar das pessoas que o seguiam no início da tarde. Nessa ocasião, um dos líderes do seu Grupo Quatro, secreto, estava esperando num esconderijo e naquela noite, quando o general Janan saltou da sua limusine à prova de balas para entrar em casa, um carro estacionado ali perto, cheio de explosivos plásticos, explodiu, matando a ele e a dois dos seus assistentes de maior confiança, destruindo totalmente sua casa, acabando com sua mulher, três filhos e sete criados — além do seu velho e enfermo pai. Homens gritando slogans esquerdistas dos mujhadins foram vistos fugindo do local. Na fuga, eles deixaram panfletos grosseiramente escritos: "Morte à Savak, agora Savana."
Nas primeiras horas da manhã, meia hora depois de Abrim Pahmudi ter deixado discretamente a cama de sua amante muito secreta, homens cruéis tinham-lhe feito uma visita. Mais slogans esquerdistas tinham sido ouvidos e a mesma mensagem fora rabiscada nas paredes, com sangue, vômito e fezes da moça em lugar de tinta. Às nove horas daquela manhã, com hora marcada, ele tinha ido apresentar as suas condolências a Abrim Pahmudi pelas duas tragédias — é claro que o Serviço Secreto o informara a respeito. Como pishkesh ele levou parte do testemunho de Rakoczy como uma informação que tivesse vindo parar em suas mãos através de outras fontes — contendo o estritamente necessário para ter valor.
— Estou certo, Excelência, de que se pudesse continuar com o meu trabalho, poderia conseguir muito mais. E se o meu departamento fosse honrado com a sua confiança e tivesse permissão para operar como antes — mas reportando-se unicamente ao senhor e a nenhum outro poder — eu poderia evitar esses horrores e talvez remover esses cães terroristas da face da terra. Enquanto ele estava lá, um assistente entrara às pressas, desolado, para dizer que outros terroristas tinham assassinado um dos mais importantes aiatolás de Teerã — outro carro-bomba — e que o Komiteh Revolucionário exigia a presença imediata de Pahmudi. Pahmudi levantara-se imediatamente, mas antes de sair revogou suas ordens anteriores.
— Concordo, coronel Excelência. Por trinta dias. O senhor tem trinta dias para provar o seu valor.
— Obrigado, Excelência, a sua confiança me honra, pode ter certeza da minha lealdade. Posso ter Rakoczy de volta, por favor?
— Aquele cão, o general Janan deixou que ele fugisse.
Depois ele fora para o aeroporto e se encontrara com Robert Armstrong no 125 e, uma vez lá em cima, rira às gargalhadas. Era a primeira vez que um carro-bomba com um detonador de controle remoto era usado no Irã.
— Por Deus, Robert — dissera alegremente —, é totalmente eficiente. Você fica esperando a cem metros de distância até ter certeza de que é ele, depois liga o botão do controle que não é maior do que uma carteira de cigarros e... bum! mais um inimigo que se vai para sempre, e o seu pai! — E enxugou as lágrimas dos olhos, morrendo de rir. — Foi isso que abalou Pahmudi. Sim, e sem o Grupo Quatro teríamos sido eu e minha família.
O Grupo Quatro nascera de uma sugestão de Armstrong que ele aceitara e trabalhara: pequenos bandos de homens e mulheres bem selecionados, altamente treinados nas mais modernas táticas antiterroristas, muito bem pagos e cuidadosamente protegidos — todos não-iranianos, e todos desconhecidos entre si — conhecidos apenas por Hashemi e leais a ele. O seu anonimato significava que uns podiam ser usados contra os outros caso fosse necessário. Individualmente eles eram descartáveis e facilmente substituíveis — no Oriente Médio e no Oriente Próximo havia muita pobreza, muitas causas traídas, muito ódio, muitas crenças, muitos desabrigados, o que fornecia um mar de homens e mulheres desesperados por um emprego desses.