Ahmed sabia disso, e não devia saber. — Eu... eu... dê-me um pouco d'agua. Armstrong fez menção de se levantar, mas parou diante da arma de Ahmed apontada para ele.
— Por favor, sente-se, Excelência, eu vou buscar água. Coloquem os cintos de segurança, todos dois.
— Não há nenhu...
— Façam o que estou dizendo — Ahmed rosnou e levantou a arma, espantado com a mudança na aparência e nos modos do khan e preparado para pôr em prática o outro plano sozinho. — Coloquem os cintos!
Eles obedeceram. Ahmed estava perto do filtro e encheu um copo de plástico e entregou-o ao khan. Hashemi e Armstrong ficaram olhando, sem ação. Nenhum deles tinha esperado uma capitulação tão imediata do khan. O homem parecia ter encolhido diante dos olhos deles, e estava muito pálido e respirando com dificuldade.
O khan terminou de beber a água e olhou para Hashemi, com os olhos injetados de sangue por trás dos óculos. Ele os tirou e limpou distraidamente, tentando recuperar as forças. Tudo parecia estar demorando mais do que o normal.
— Espere por mim ao lado do carro, Ahmed.
Inquieto, Ahmed obedeceu. Armstrong abriu o cinto e tornou a fechar a cortina. Por um momento, o khan sentiu-se melhor, o ar gelado que entrou ajudou a clarear a sua mente. — E então, o que vocês querem?
— O seu nome de código é Ivanovitch. Você tem sido um espião da KGB desde janeiro de 1944. Durante este tempo, você...
— Tudo mentira. O que você quer?
— Eu quero me encontrar com Petr Oleg Mzytryk. Eu quero interrogá-lo seriamente. Em segredo.
O khan ouviu as palavras e pesou-as. Se esse filho de um cão sabia o nome de código de Petr e o seu próprio e sabia a respeito do vale Oculto e de janeiro de 1944 quando ele foi secretamente a Moscou para entrar para a KGB, então ele deveria saber coisas mais sérias. O fato de que ele estava jogando dos dois lados para o bem do seu Azerbeijão faria pouca diferença para os assassinos da direita ou da esquerda.
— Em troca de quê?
— Liberdade para agir no Azerbeijão, enquanto o senhor fizer o que for bom para o Irã, e um firme relacionamento de trabalho comigo. Eu lhe darei informações que porão o Tudeh, os esquerdistas e os curdos nas suas mãos, — e lhe darei provas de como os soviéticos o estão enganando. Por exemplo, o senhor foi declarado Seção 16/a.
O khan olhou-o boquiaberto. Seus ouvidos começaram a rugir.
— Eu não acredito nisso!
— Petr Oleg Mzytryk assinou a ordem — disse Hashemi.
— Pr... provas, eu... eu quero provas — ele gaguejou.
— Traga-o para o lado de cá da fronteira, vivo, e eu lhe darei provas... pelo menos ele dará.
— Você... você está mentindo.
— O senhor não planejou ir para Tbilisi hoje ou amanhã, a convite dele? O senhor não voltaria nunca. A versão seria que o senhor teria fugido do Irã.
O senhor seria denunciado, seus bens confiscados e sua família caíra em desgraça. .. e seria entregue aos mulás. — Agora que Hashemi sabia que tinha Abdullah nas mãos, a única coisa que o preocupava era o estado de saúde do homem. Sua cabeça apresentava uma ligeira contração, o rosto geralmente corado estava pálido, com uma estranha vermelhidão em volta dos olhos e nas têmporas, e a veia da sua testa estava saltada. — É melhor o senhor ir para o norte e dobrar a sua guarda. Eu poderia negociar Petr Oleg... melhor ainda, eu poderia permitir que o senhor o resgatasse e... bem, há muitas soluções caso eu me apodere dele.
— O que... o que você quer com ele?
— Informação.
— Eu... eu poderia tomar parte nisso? Hashemi sorriu.
— Por que não? Então está combinado?
A boca do khan moveu-se sem produzir nenhum som. Depois ele disse:
— Eu vou tentar.
— Não — o coronel disse duramente, achando que tinha chegado a hora do coup de grace. — Não. O senhor tem quatro dias. Eu voltarei no sábado. Ao meio-dia de sábado eu estarei no seu palácio para receber a mercadoria. Ou, se o senhor preferir, poderá entregá-lo secretamente neste endereço. — E pôs um pedaço de papel na mesa entre eles. — Ou, terceira opção, se o senhor me disser a hora e o lugar em que ele atravessará a fronteira, eu providenciarei tudo. — Ele soltou o cinto de segurança e se levantou. — Quatro dias, Ivanovitch.
A raiva de Abdullah quase lhe arrebentou os tímpanos. Ele tentou levantar-se mas não conseguiu. Armstrong ajudou-o e Hashemi foi até a cortina, mas antes de abri-la tirou a automática do coldre.
— Diga a Ahmed para não nos atrapalhar.
Fraco, o khan ficou em pé na porta e fez o que lhe tinha sido ordenado. Ahmed estava ao pé da escada, com a arma preparada. O vento mudara de direção, agora estava soprando em direção ao final da pista e tinha aumentado consideravelmente.
— Você não ouviu o que Sua Alteza disse? — O coronel gritou. — Está tudo bem, mas ele precisa de ajuda. — Manteve a voz calma. — Ele deve ver um médico o quanto antes.
Ahmed estava confuso, sem saber o que fazer. Lá estava o seu mestre, visivelmente pior do que antes, mas aqui estavam os homens que tinham causado isso — que deviam ser mortos.
— Ajude-me a entrar no carro, Ahmed — disse o khan, com um palavrão e isso resolveu tudo.
Ele obedeceu imediatamente. Armstrong segurou-o do outro lado e, juntos, eles desceram as escadas. Rapidamente, os pilotos saíram e correram para o avião enquanto Armstrong ajudava o homem enfermo a entrar no banco de trás. Abdullan ajeitou-se com dificuldade, enquanto Armstrong sentia-se mais nu do que nunca, ali sozinho, desprotegido, enquanto Hashemi ficava em segurança na porta da cabine. Os motores a jato ganharam vida.
— Salaam, Alteza — ele disse. Espero que o senhor esteja bem
— É melhor o senhor sair depressa da nossa terra — disse o khan. Depois falou para o motorista: — Volte para o palácio.
Armstrong ficou observando o carro se afastar, depois voltou-se. Viu o estranho sorriso de Hashemi, a automática semi-oculta na mão, e por um momento pensou que o homem ia atirar nele.
— Depressa, Robert!
Ele subiu correndo os degraus, com as pernas geladas. O co-piloto já tinha apertado o botão de recolher a escada. A escada subiu, a porta foi fechada e eles começaram a se mover. Lá dentro, ele se sentiu revigorado.
— Está frio lá fora — disse. Hashemi não prestou atenção nele.
— Capitão, decole o mais rápido possível — ordenou, em pé atrás dos pilotos.
— Eu vou ter que taxiar para trás, senhor. Eu não ouso decolar deste lado, com o vento soprando por trás.
Hashemi praguejou e espiou pela janela da cabine de pilotagem. O outro lado da pista parecia estar a um milhão de quilômetros de distância, com o vento levantando bolos de neve. Para usar a rampa de saída correta, eles teriam que passar perto da área de estacionamento do terminal. Eles teriam que cruzá-la e usar a rampa oposta para a decolagem. O Rolls estava se afastando em direção ao terminal. Ele podia ver homens armados reunindo-se para esperá-lo.
— Recue pela pista e faça uma decolagem curta.
— Isso é altamente irregular sem autorização da torre — disse John Hogg.
— Você prefere uma bala na cabeça ou uma prisão da Savak? Aqueles homens são inimigos. Faça o que estou dizendo!
Hogg podia ver as armas. Ele ligou o seu botão de transmissão.
— ECO TANGO LIMA LIMA pedindo permissão para recuar — disse, não esperando nenhuma resposta.
Depois de saírem do espaço aéreo de Teerã, não tinha havido nenhuma resposta até ali, e nenhum contato com essa torre. Ele deslizou o jato de marcha à ré pela pista, derrapando, e acelerou um pouco mais, mantendo-se à esquerda, seguindo a trilha que deixaram ao descer. — Torre, aqui é Eco Tango Lima Lima, dando marcha à ré. — Gordon Jones, o co-piloto, estava checando tudo, preparando a viagem de volta a Teerã. O vento os empurrava, as rodas incertas. Eles viram o Rolls parar no terminal e os homens o cercarem.
— O mais rápido que puder. Faça a volta, há pista suficiente — disse Hashemi.