— Ele está indo muito bem, Azadeh — ele retrucara, tentando disfarçar o sarcasmo. Mas ela percebera e corara, dizendo:
— Oh, desculpe... eu não tive a intenção... eu sei que ele..
— Eu não estava querendo dizer nada — ele atalhou, focalizando o binóculo em Armstrong, elaborando um plano para entrar a bordo. Tão fácil. Um avião da S-G, era fácil reconhecer pelo emblema, e Armstrong. Estamos salvos! Mas agora não estamos salvos, estamos numa enrascada, disse a si mesmo com mais amargura ainda, caminhando pela neve, sentindo-se imundo e desejando um banho e louco de raiva. Eles têm que ter visto o SOS. Será que estavam com a cabeça nas nuvens? Por que diabo eles.
Ouviu o sinal de perigo emitido por Gueng e virou-se. Um carro estava a poucas centenas de metros de distância, dirigindo-se para lá. Ele correu e apontou para a floresta.
— Vamos para lá!
Já tinha planejado com antecedência. Primeiro o aeroporto, depois, se não desse certo, eles podiam ir para a base de Erikki. A base ficava a uns seis quilômetros de distância, a sudeste de Tabriz. Protegido pelas árvores, ele parou e olhou para trás. O carro parou no final da pista e alguns homens saltaram, começaram a persegui-los mas acharam o caminho muito pesado no meio da neve. Então tornaram a entrar no carro e foram embora.
— Eles não vão conseguir nos alcançar — disse Ross. Ele foi caminhando na frente cada vez mais para dentro da floresta, mantendo-se necessariamente no caminho mais difícil.
Na beirada da floresta havia campos gelados que no verão possuíam uma vegetação abundante, a maior parte pertencia a um pequeno número de proprietários rurais, apesar das reformas agrárias do xá. Do outro lado dos campos ficavam as favelas de Tabriz. Eles podiam ver os minaretes da mesquita Azul e a fumaça dos inúmeros incêndios, carregada pelo vento.
— Nós podemos contornar a cidade, Azadeh?
— Sim, mas é... é um caminho bem longo.
Eles perceberam a sua preocupação. Até agora ela caminhara rapidamente e sem se queixar. Mas ainda era um estorvo. Eles estavam usando vestes tribais sobre os uniformes. Suas botas sujas poderiam passar despercebidas. Bem como suas armas. E o chador dela. Ele a olhou, ainda não estava acostumado a vê-la enfeiada pelo chador. Ela percebeu o seu olhar e tentou sorrir. Ela compreendera. Tanto a respeito do chador quanto a ser um peso.
— Vamos atravessar a cidade — ela disse. — Nós podemos ficar nas ruas laterais. Eu tenho algum... algum dinheiro e poderemos comprar comida. Johnny, você pode fingir ser um caucasiano de, digamos, de Astara, eu posso fingir que sou sua mulher. Gueng, você fale em gurkhali ou numa língua estrangeira e pareça grosseiro e arrogante como os turcomanos do norte. Você poderia passar por um deles eles. Eles são descendentes de mongóis, muitos iranianos o são. Ou talvez eu pudesse comprar alguns lenços verdes e transformá-los em Faixas Verdes... É o melhor que posso fazer.
— Está bom, Azadeh. Talvez seja melhor nós não ficarmos todos juntos. Gueng, você pode nos seguir.
— Nas ruas, as esposas iranianas seguem os maridos. Eu... eu vou ficar um passo atrás de você, Johnny — disse Azadeh.
— É um bom plano, memsahib — disse Gueng. — Muito bom. A senhora pode guiar-nos.
Ela agradeceu-lhe com um sorriso. Em pouco tempo eles alcançaram os mercados, ruas e alamedas das favelas. Uma hora um homem deu um encontrão em Gueng. Sem hesitação, Gueng deu um soco na garganta do homem, fazendo-o cair esparramado na rua, desacordado, xingando-o alto num dialeto do gurkhali. Houve um momento de silêncio no meio da multidão, depois o barulho recomeçou e os que estavam perto conservaram os olhos baixos e seguiram adiante, alguns fazendo, disfarçadamente, o sinal contra o mau-olhado que todos aqueles que vinham do norte, os descendentes das hordas que não conheciam o único Deus, tinham a fama de possuir.
Azadeh comprou comida dos vendedores de rua, pão fresco, kebab de carneiro e horisht de feijão e legumes, com bastante arroz. Eles se sentaram em bancos toscos e comeram, depois continuaram a andar. Ninguém prestou atenção neles. Ocasionalmente, alguém oferecia-lhes algo para comprar, mas Azadeh intervinha e protegia-os, engrossando a voz e falando no dialeto turco local. Quando os muezins chamaram para a oração da tarde, ela parou, com medo. Em volta deles, homens e mulheres procuravam um pedaço de tapete, fazenda, papelão, jornal ou caixa para se ajoelharem e começarem a rezar. Ross hesitou; depois, atendendo ao seu olhar suplicante, fingiu rezar também e o momento passou. Na rua inteira, só uns quatro ou cinco permaneceram em pé, Gueng entre eles, encostados numa parede. Ninguém incomodou os que ficaram em pé. Os habitantes de Tabriz descendiam de muitas raças, muitas religiões.
Continuaram andando, dirigindo-se para sudeste e agora estavam nos subúrbios, cheios de barracos, lixo e cachorros famintos, onde a vala era o único esgoto. Em breve não haveria mais barracos, começariam os campos e pomares, depois a floresta e a estrada principal para Teerã, que subia, cheia de curvas, em direção ao desfiladeiro que os levaria até Tabriz Um. Ross não sabia o que fazer quando chegassem lá, mas Azadeh dissera que conhecia várias cavernas nas redondezas onde eles poderiam esconder-se até que um helicóptero pousasse.
Atravessaram a última favela e saíram para a trilha coberta de neve. A neve da superfície estava suja de bosta de mula e de burro, escorregadia e traiçoeira, e eles juntaram-se a outros que caminhavam por ali, alguns conduzindo burros carregados, outros curvados sob o peso da carga que levavam, outros fazendo as suas necessidades, homens, mulheres e crianças — passavam um punhado de neve com a mão esquerda e continuavam a andar — um povo poliglota, gente de tribos, nômades, gente da cidade — que só tinham em comum a pobreza, e o orgulho.
Azadeh estava muito cansada, ressentindo-se da tensão de ter tido que atravessar a cidade. Ela tivera medo de cometer algum erro, medo deles serem reconhecidos, estava louca de preocupação com Erikki e sem saber o que fariam quando chegassem na base. Insha'Allah, ela disse a si mesma, muitas e muitas vezes. Deus vai velar por você, por ele e por Johnny.
Quando chegaram perto do lugar onde a trilha se juntava à estrada de Teerã, viram Faixas Verdes e homens armados em pé ao lado de uma barreira, examinando veículos e observando as pessoas que passavam. Não havia nenhum modo de evitá-los.
— Azadeh, você vai primeiro — cochichou Ross. — Espere por nós mais adiante na estrada. Se nos pararem, não interfira, apenas prossiga. Vá em direção à base. Vamos nos separar, é mais seguro. — E sorriu para ela. — Não se preocupe. — Ela concordou com a cabeça, com o rosto ainda mais pálido por causa do medo, e saiu andando. Ela estava carregando a mochila dele. Ao sair da cidade, ela tinha insistido:
— Olhe para as outras mulheres, Johnny. Se eu não carregar alguma coisa, vou chamar muita atenção.
Os dois homens esperaram, depois foram até a beira da estrada e urinaram no banco de neve. As pessoas continuaram passando. Algumas repararam neles. Umas poucas os xingaram de infiéis. Uma ou duas ficaram intrigadas — sem saber, eles estavam urinando na direção de Meca, um ato que nenhum muçulmano jamais faria.
— Depois que ela passar, vai você, Gueng. Eu o seguirei em dez minutos.
— É melhor o senhor ser o próximo — cochichou Gueng. — Eu sou um turcomano.
— Está bem, mas se me pararem, não interfira. Escape no meio da confusão e leve-a para um lugar seguro. Não vá falhar!
O homenzinho sorriu, com os dentes muito brancos.
— Não vá o senhor falhar, sahib. O senhor ainda tem muito o que fazer antes de ser o Senhor da Montanha. — Gueng olhou para a barreira a cem metros de distância. Ele viu que Azadeh estava passando agora. Um dos Faixas Verdes disse algo a ela, mas ela manteve os olhos desviados, respondeu e o homem fez sinal para que ela passasse. — Não espere por mim na estrada, sahib. Eu posso atravessar os campos. Não se preocupe comigo. Eu o encontrarei.