— E abriu caminho no meio dos pedestres e juntou-se ao grupo que estava voltando em direção à cidade. Uns cem metros adiante ele se sentou num caixote e desamarrou a bota como se esta o estivesse machucando. Suas meias estavam em frangalhos, mas isso não importava. As solas dos seus pés eram duras como ferro. Ganhando tempo, ele tornou a amarrar a bota, divertindo-se em ser um turcomano.
Na barreira, Ross juntou-se à fila dos que estavam deixando Tabriz. Ele reparou na polícia que estava junto com os Faixas Verdes, observando as pessoas. As pessoas estavam irritadas, como sempre, odiando qualquer autoridade e qualquer intromissão no seu direito de ir e vir à vontade. Muitos estavam francamente zangados e alguns estavam a ponto de explodir.
— Você — um Faixa Verde falou com ele —, onde estão os seus papéis? Demonstrando raiva, Ross cuspiu no chão.
— Papéis? Minha casa foi queimada, minha mulher foi queimada e meus filhos foram queimados pelos cães esquerdistas. Só me resta esta arma e um pouco de munição. É a Vontade de Deus, mas por que vocês não vão queimar os partidários de Satã e fazer o trabalho de Deus ao invés de parar homens honestos?
— Nós somos honestos! — o homem disse zangado. — Nós estamos fazendo o trabalho de Deus. De onde você vem?
— De Astara. Astara, na costa. — E deixou a raiva aparecer. — Astara. E você?
O próximo homem na fila e o que estava atrás dele começaram a xingar e dizer aos Faixas Verdes para se apressarem e não os obrigarem a ficar esperando no frio. Um policial estava abrindo caminho em direção a eles, então Ross decidiu arriscar e passou com um palavrão, o homem que estava atrás o seguiu e o próximo e agora eles estavam do outro lado. O Faixa Verde gritou uma obscenidade e depois continou a tomar conta da fila.
Ross levou um certo tempo para respirar com mais facilidade. Ele tentou não se apressar e os seus olhos examinaram a estrada. Não havia sinal de Azadeh. Havia carros e caminhões passando, subindo com dificuldade ou descendo depressa demais, com as pessoas se espalhando de vez em quando com a inevitável torrente de palavrões. O homem que estava atrás dele na fila alcançou-o, os pedestres agora estavam diminuindo, entrando em caminhos laterais que conduziam a cabanas do lado da estrada ou a aldeias dentro da floresta. Era um homem de meia-idade com um rosto forte, pobremente vestido e um rifle bem conservado.
— Aquele filho da mãe daquele Faixa Verde — disse com um forte sotaque. — O senhor tem razão, aga, eles deveriam estar fazendo o serviço de Deus, o serviço do imã, não o de Abdullah Khan.
Ross pôs-se imediatamente em guarda.
— Quem?
— Eu venho de Astara e pelo seu sotaque eu sei que o senhor não vem de Astara, aga. Os astaris nunca mijam na direção de Meca nem com as costas para Meca. Somos todos bons muçulmanos em Astara. Pela sua aparência, o senhor deve ser o Sabotador pelo qual o Khan está oferecendo uma recompensa. — A voz do homem era calma, curiosamente amigável, e o velho rifle Enfield continuava pendurado no seu ombro.
Ross não disse nada, apenas resmungou, sem mudar de passo.
— Sim, o Khan está oferecendo um bom preço pela sua cabeça. Muitos cavalos, um rebanho de ovelhas, dez camelos ou mais. Um resgate digno de um xá para uma pessoa comum. O resgaste é maior se o senhor for capturado vivo. Mais cavalos, ovelhas e camelos, o suficiente para a vida inteira. Mas onde está a mulher, Azadeh, a filha dele, a filha que o senhor raptou, o senhor e o outro homem?
Ross olhou-o espantado e o homem riu.
— O senhor deve estar muito cansado para se denunciar assim com tanta facilidade. — Repentinamente, o seu rosto endureceu-se, sua mão entrou no bolso da velha jaqueta, ele tirou um revólver e enfiou-o na cintura de Ross. — Caminhe um passo na minha frente, não se vire nem faça nada ou eu lhe darei um tiro na espinha. Agora, onde está a mulher? Há uma recompensa por ela também.
Nesse momento um caminhão que vinha descendo derrapou na curva, arremessou-se para o outro lado da estrada e foi para cima deles, buzinando alto. As pessoas se espalharam. Os reflexos de Ross foram mais rápidos e ele deu um passo para o lado, deu um encontrão no homem, fazendo-o rolar no meio do caminho do caminhão. As rodas da frente e de trás do caminhão passaram por cima do homem. O caminhão parou alguns metros à frente.
— Que Deus nos proteja, vocês viram isso? — disse alguém. — Ele pulou na frente do caminhão.
Ross arrastou o corpo para fora da estrada. O revólver tinha desaparecido na neve.
— Ah, o mártir de Deus é seu pai, aga? — uma velha perguntou.
— Não... não — Ross falou com dificuldade, em pânico, tudo acontecera depressa demais. — Eu... ele é um estranho. Eu nunca o vi antes.
— Pelo Profeta, como os pedestres são descuidados! Será que eles não têm olhos? Ele está morto? — o motorista do caminhão perguntou, subindo a colina. Era um homem robusto, rude, barbado. — Deus é testemunha de que ele se jogou na minha frente, como todos puderam ver! Você — ele disse para Ross —, você estava ao lado dele, deve ter visto.
— Sim... sim, é como você está dizendo, eu estava atrás dele.
— Seja como Deus quiser. — O motorista foi embora satisfeito, estava tudo certo e acabado. — Sua Excelência viu tudo. Insha'Allah!
Ross afastou-se no meio dos poucos que tinham se dado ao trabalho de parar e subir a colina, nem depressa nem devagar, tentando controlar-se, sem ousar olhar para trás. Depois da curva, ele apertou o passo, imaginando se fora certo reagir com tanta rapidez — quase sem pensar. Mas o homem teria vendido os dois. Não pense nele, carma é carma. Mais uma curva e ainda nenhum sinal de Azadeh. Sua ansiedade aumentou.
Nesse ponto a estrada subia tortuosa. Ele passou por algumas cabanas meio escondidas na beira da floresta. Cachorros sarnentos catavam comida. Os poucos que chegaram perto dele, ele enxotou, havia muitos cães raivosos por lá. Mais uma curva, o suor escorria, e lá estava ela agachada do lado da estrada, descansando como uma dezena de outras velhas. Ela o viu no mesmo instante, sacudiu a cabeça para alertá-lo, levantou-se e continuou a andar. Ele seguiu uns vinte metros atrás. Então houve um tiroteio mais abaixo. Como todo mundo, eles pararam e olharam para trás. Não conseguiram ver nada. A barreira ficava muito atrás, muitas curvas abaixo, a meio quilômetro de distância. O tiroteio cessou logo. Ninguém disse nada, apenas começaram a subir mais depressa.
A estrada não era boa. Eles andaram mais ou menos um quilômetro, saindo da estrada quando havia trânsito. De vez em quando um ônibus passava, mas sempre superlotado e nenhum parava. Nessa época a pessoa podia esperar até um dia ou dois num ponto de ônibus antes de conseguir lugar. Às vezes um caminhão parava, em troca de dinheiro.
Mais adiante, um caminhão passou por ele e diminuiu a velocidade quando chegou perto de Azadeh.
— Por que andar quando os que estão cansados podem viajar aqui com ajuda de Ciro, o caminhoneiro, e de Deus? — gritou o motorista, rindo debochadamente, cutucando o seu companheiro, um homem de barba escura mais ou menos da idade dele. Eles a estavam observando há algum tempo, observando o balanço dos seus quadris que nem mesmo um chador conseguia esconder. — Por que uma flor de Deus deveria caminhar quando poderia estar aquecida num caminhão ou no tapete de um homem?
Ela levantou os olhos, disse um palavrão e gritou para Ross:
— Marido, este leproso filho de um cão ousou insultar-me e fez comentários obscenos contra as leis de Deus... — Ross já estava ao lado dela e o motorista se viu olhando para o cano de uma arma.
— Excelência... eu estava perguntando se... se o senhor e ela não gostariam de uma carona — disse o motorista, em pânico. — Há lugar lá atrás... se Vossa Excelência quiser honrar o meu veículo...
O caminhão estava cheio de aparas de ferro, mas era melhor do que andar.