— Para onde você está indo?
— Para Qazvin, Excelência, Qazvin. O senhor vai nos dar a honra?
O caminhão não parou mas foi fácil para Ross ajudá-la a subir. Juntos, eles se abrigaram do vento. As pernas dela estavam tremendo e ela estava gelada e muito nervosa. Ele abraçou-a.
— Oh, Johnny, se você não estivesse aqui...
— Não se preocupe, não se preocupe. — Ele lhe transmitiu um pouco do seu calor. Qazvin? Isto não fica no meio do caminho para Teerã? É claro que sim. Nós vamos ficar no caminhão até Qazvin, disse a si mesmo, recuperando as forças. Depois podemos conseguir outra carona, ou encontrar um ônibus ou roubar um carro, é isso que vamos fazer.
— A entrada para a base fica a dois ou três quilômetros daqui — ela disse, tremendo nos seus braços. — Para a direita.
Base? Ah, sim, a base. E Erikki. Mas, o mais importante, e Gueng? E quanto e Gueng? Faça a sua mente trabalhar. O que você vai fazer?
— Como é... como é o terreno lá? Aberto e desprotegido ou uma ravina ou o quê? — perguntou.
— É bastante liso. A nossa aldeia está chegando, Abu Mard. Nós passamos pela aldeia, depois a terra se achata numa espécie de platô onde fica a nossa estrada. Depois a estrada principal torna a subir em direção ao desfiladeiro.
Ele podia ver a estrada subindo tortuosa, aparecendo de vez em quando, ondulando precariamente pela encosta da montanha
— Nós vamos saltar do outro lado da aldeia, antes da parte plana, vamos dar a volta pela floresta e chegar à base. Isso é possível?
— Sim. Eu conheço muito bem o terreno. Eu... eu ensinei na escola da aldeia e costumava levar as crianças para... para passear. Eu conheço os caminhos. — Mais uma vez ela estremeceu.
— Proteja-se do vento. Daqui a pouco você vai esquentar.
O velho caminhão subia com dificuldade, quase na mesma velocidade de alguém andando, mas era melhor do que andar. Ele manteve o braço em torno dela e em pouco tempo ela parou de tremer. Por cima da grade do caminhão ele viu um carro se aproximando depresssa, com as mudanças gemendo, seguido de uma pick-up verde. O motorista do carro não tirou a mão da buzina. Não havia espaço para o caminhão se afastar, então o carro passou pela contra mão e seguiu em frente. Espero que você se mate, pensou, enraivecido pelo barulho e pela estupidez. Notou que estava cheio de homens armados, bem como a pick-up que vinha atrás, embora todos esses homens estivessem em pé na traseira, segurando-se em barras de metal, com a grade traseira abaixada e batendo violentamente. Quando a pick-up passou, ele viu um corpo atirado debaixo dos pés deles. Primeiro pensou que fosse o velho. Mas não era. Era Gueng. Não havia dúvida por causa do que restava do uniforme. E do Kookri que estava enfiado na cintura de um dos homens.
— O que foi, Johnny?
Ele se viu ao lado dela, sem senti-la nem a qualquer outra coisa. Apenas que falhara com o segundo dos seus homens. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— O que foi? O que aconteceu?
— Nada. É só o vento. — Ele limpou as lágrimas, depois se ajoelhou e olhou em frente. Serpenteando, a estrada desaparecia e tornava a aparecer. Assim como o carro e a pick-up. Ele podia ver a aldeia agora. Do outro lado, a estrada tornava a subir, depois ficava plana, como ela dissera. O carro e a pick-up passaram pela aldeia em alta velocidade. Ele tinha no bolso um binóculo pequeno mas muito potente. Firmando-se contra o balanço do caminhão, focalizou o carro. Assim que este chegou na parte plana, acelerou, virou à direita na estrada que ia dar na base e desapareceu. Quando a pick-up chegou na interseção, ela parou, bloqueando a maior parte da estrada. Meia dúzia de homens saltaram, espalharam-se pela estrada e ficaram olhando na direção de Tabriz. Então a pick-up virou à direita e desapareceu atrás do carro.
O caminhão diminuiu a velocidade quando o motorista colocou ruidosamente a primeira. Bem à frente havia uma subida curta e íngreme, com um caminho que saía de lá, e não havia nenhum pedestre nesta parte da estrada.
— Onde vai dar aquele caminho, Azadeh?
Ela ficou de joelhos e olhou para onde ele estava apontando.
— Vai dar em Abu Mard, a nossa aldeia — respondeu. — Ele dá várias voltas mas termina dando lá.
— Prepare-se para pular. Há uma outra barreira lá na frente.
No momento certo ele escorregou pelo lado, ajudou-a a descer e correram para se esconder. O caminhão não parou e o motorista não olhou para trás. Em pouco tempo ele tinha tomado distância. De mãos dadas, eles correram para o meio das árvores.
EM ZAGROS TRÊS: 16:05H. Lochart recostou-se na cabine do 212, esperando para ir de novo até a plataforma Rosa com outro carregamento de cano's — o céu estava sem nuvens, as montanhas tão claras e distintas que ele sentiu como se pudesse esticar a mão e tocá-las. Observava Rodrigues, o seu mecânico, que estava ajoelhado na neve, espiando o interior de um painel de inspeção.
— É uma tarde perfeita para se esquiar ou andar de tobogã, Rod, não para trabalhar.
— É um dia perfeito para dar o fora daqui, Tom.
— Talvez a gente não tenha que fazer isso — disse Lochart. Desde sábado, quando tivera o confronto com Nitchak Khan, que não tinha mais tido notícias dele nem de qualquer pessoa da aldeia. — Talvez o komiteh mude de idéia ou Mac consiga que a ordem seja cancelada. É loucura nos mandar embora quando estão precisando de todo o petróleo que puderem conseguir e o novo poço da Rosa é um maná. Jesper Almqvist calculou que ele daria 18 mil barris por dia quando começasse a funcionar. Isso significa quase 360 mil dólares por dia, Rod.
— Os mulás não ligam a mínima para petróleo ou qualquer outra coisa a não ser Alá, o Corão ou o paraíso, você disse isso um milhão de vezes. — Rodrigues limpou uma mancha de óleo. — Nós todos deveríamos ter ido com Jesper para Shiraz, e depois para fora do Irã. Nós não somos desejados. Nasiri teve os miolos estourados, certo? Para quê? Ele era um cara legal. Nunca fez mal a ninguém. Já nos mandaram ir embora. Que diabo estamos esperando?
— Talvez o komiteh mude de idéia. Nós temos 11 plataformas para manter.
— As plataformas estão operando com capacidade mínima, as turmas de trabalho estão loucas para darem o fora e não têm sido substituídas há semanas. — Rodrigues levantou-se, limpou a neve dos joelhos e começou a tirar o óleo das mãos. — É loucura ficar num lugar em que não se é desejado. O jovem Scot está agindo de um modo muito estranho. E você também, pensando bem.
— Bobagem — retrucou Lochart. Ele não tinha contado a ninguém o que Scot dissera que realmente acontecera na aldeia. Sua ansiedade voltou — por Scot, pela base, por Xarazade, pelo HBC, e de novo por Xarazade.
— Bobagem nada — disse Rodrigues —, você tem estado nervoso pra burro desde que voltou de Teerã. Você quer ficar no Irã, Tom, está bem, é diferente, você está casado com o Irã. Mas eu quero sair.
Lochart tirou Xarazade da mente. Ele viu o medo no rosto do amigo.
— Qual é o problema, Rod?
O homem troncudo ajeitou o cinto em cima da barriga e abotoou o casaco.
— Eu estou nervoso como o diabo com a minha indentificação falsa, Tom. Merda, assim que eu abrir a boca eles vão saber que eu não sou britânico. Todos os meus vistos estão vencidos. Está acontecendo o mesmo com alguns dos rapazes, mas eu sou o único americano aqui, eu fiz uma palestra na escola sobre os Estados Unidos e os malditos mulás dizem que eu sou Satã, eu, um ótimo católico, pelo amor de Deus! Eu não consigo mais dormir de noite.
— Por que você não disse isso antes? Você não precisa ficar, Rod. 0212 deve partir amanhã. Que tai ir junto com Scot? Uma vez em Al Shargaz, você pode pedir transferência para a Nigéria, o Quênia ou qualquer outro lugar.
Por um momento Rodrigues não disse nada, com uma expressão desolada no rosto.