— Eu gostaria muito, Tom. Se você puder conseguir isso, é claro que estará tirando um peso enorme dos meus ombros.
— Está combinado. Nós temos que mandar um mecânico. Por que não você, você é mais antigo?
— Obrigado. Muito obrigado, Tom. — Rodrigues ficou radiante. — Eu vou só ajustar o pedal e ele estará como novo.
Lá embaixo, na área de abastecimento, Lochart viu que a carga de canos estava pronta para ser embarcada. Dois operários iranianos esperavam para guiar o gancho suspenso para dentro da cavilha. Ele começou a entrar na cabine, mas parou ao ver dois homens se aproximando pelo caminho que ia dar na aldeia, a uns cem metros de distância. Nitchak Khan e um outro homem carregando uma carabina. Mesmo àquela distância era fácil ver a faixa verde no braço.
Lochart foi ao encontro deles, preparando a mente para pensar e falar em farsi.
— Salaam, calênder, salctam, aga — ele disse para o outro homem, também barbado, mas muito mais jovem.
— Salaam — respondeu Nitchak. — Vocês conseguiram um prazo até o quinto pôr-do-sol.
Lochart tentou disfarçar o choque. Hoje era terça-feira, o quinto dia seria domingo.
— Mas, Excelência, o.
— Até o quinto pôr-do-sol — disse o Faixa Verde, sem nenhuma gentileza. Vocês não podem trabalhar nem voar no Dia Sagrado, é melhor dar graças a Deus, e no quinto pôr-do-sol a partir de hoje se todos os estrangeiros e seus aviões não tiverem partido, a base será incendiada.
Lochart olhou para ele em silêncio. Atrás do homem ficava a cozinha e ele viu Jean-Luc sair de lá e depois caminhar na direção deles.
— Em quatro dias úteis vai ser muito difícil, aga, e eu não acho..
— Insha'Allah.
— Se nós partirmos, todas as plataformas terão que parar. Só nós podemos abastecê-las e a seus homens. Isso vai prejudicar o Irã, isso...
— O Islã não precisa de petróleo. Os estrangeiros precisam de petróleo. No quinto pôr-do-sol. Se vocês não partirem, a responsabilidade é de vocês.
Nitchak Khan olhou de banda para o homem. Depois disse para Lochart:
— Aga, eu gostaria de ir junto com este homem falar com o calênder dos italianos. Eu gostaria de ir agora, por favor.
— A honra é toda minha, calênder — disse Lochart, e pensou, Mimmo Sera está nas montanhas há anos, ele vai saber o que fazer. — Eu tenho uma carga de canos para entregar na plataforma Rosa; podemos ir imediatamente.
— Canos? — o rapaz falou rudemente. — Não há necessidade de canos. Vamos diretamente. Sem canos.
— A IranOil mandou entregar os canos e os canos vão, ou você não vai — disse Lochart, zangado. — O aiatolá Khomeini ordenou que a produção de petróleo voltasse ao normal. Por que o komiteh o desobedece?
O rapaz olhou, mal-humorado, para o Khan que disse calmamente:
— Seja como Deus quiser. O aiatolá é o aiatolá, o komiteh só obedece a ele. Vamos, aga.
Lochart tirou os olhos do rapaz.
— Está bem. Iremos imediatamente.
— Salaam, calênder — disse Jean-Luc, juntando-se a eles. — Tom, qual é a resposta? — perguntou em inglês.
— Pôr-do-sol de domingo. Nós já teremos que ter saído nessa hora e não podemos voar na sexta-feira.
Jean-Luc engoliu um palavrão.
— Nenhuma chance de negociação?
— Nenhuma. A não ser que você queira discutir com esse filho da mãe Insolentemente, o rapaz com a arma encarou Jean-Luc
— Diga a este filho de um cão que ele cheira mal. Lochart tinha sentido um leve cheiro de alho.
— Ele está dizendo que a sua comida tem um cheiro ótimo, Jean-Luc. Ouça, eles querem falar com Mimmo Sera. Eu voltarei assim que puder, e então resolverei o que fazer. Calênder, nós podemos ir agora — disse em farsi e abriu a porta da cabine.
— Olhe! — disse Rodrigues, de repente e apontou para cima das montanhas na direção norte. Havia fumaça subindo para o céu. — É Maria?
— Pode ser Bellissima — disse Jean-Luc. Nitchak Khan estava tentando enxergar ao longe.
— Ali fica perto de onde nós vamos, não?
— Não fica muito fora da rota, calênder. O velho parecia muito preocupado.
— Talvez fosse melhor levar os canos no seu próximo vôo, piloto. Há dias que temos ouvido dizer que os esquerdistas estavam-se infiltrando nas montanhas, querendo sabotar e criar problemas. Na noite passada, um dos meus pastores teve a garganta cortada e os testículos arrancados. Eu tenho homens lá fora procurando os assassinos. — Com o rosto preocupado, ele entrou na cabine. O Faixa Verde seguiu-o.
— Rod — disse Lochart — tire o 206 do hangar. Jean-Luc, fique na escuta HF. Eu vou me comunicar com você.
— Oui, pas problème. — Jean-Luc tornou a olhar para a fumaça. Lochart deixou o carregamento de canos na base e partiu rapidamente em direção ao norte. Era Bellissima e estava pegando fogo. De longe ele pôde ver as chamas subindo a dez metros de um dos trailers que, ressecado pelo ar sem umidade, estava quase todo destruído. De um dos lados, perto do aparelho de perfuração, lavrava outro incêndio. Perto do barracão de dinamite, havia um corpo na neve. Acima da base, o pico coberto de neve da montanha, reformado pela explosão de Pietro e pela conseqüente avalanche, estava agradável. Abaixo, a ravina caía dois mil e quinhentos metros.
Quando se aproximou, viu meia dúzia de figuras correndo pelo caminho tortuoso que descia até o vale — todos eles armados. Sem hesitação, virou e foi atrás deles, vendo-os à frente agora, exatamente em frente, praguejando por não estar num avião de combate. Não teria dificuldade em pegar todos eles. Seis homens, barbados, usando roupas nativas. Então viu um dos homens parar e mirar e depois o clarão familiar dos tiros e teve que se afastar, fazendo uma manobra de fuga, e quando tornou a voltar, numa altura mais segura, as figuras tinham desaparecido.
Virou-se para a cabine. Nitchak Khan e o Faixa Verde estavam olhando pelas janelas laterais, com os narizes apertados nas janelas. Gritou mas eles não escutaram, então bateu na parede da cabine para atrair a atenção deles e fez um sinal chamando Nitchak Khan. O velho foi até a frente, se segurando, pouco à vontade no ar.
— Você os viu? — gritou.
— Sim, sim — Nitchak Khan gritou de volta. — Não é gente da montanha. São os terroristas.
Lochart voltou a pilotar.
— Jean-Luc, está me ouvindo?
— Alto e claro, Tom, continue.
Informou o que tinha visto e mandou que ele ficasse no rádio, depois concentrou-se no pouso, sobre a imensidão da ravina como sempre, com muitas correntes ascendentes e um vento forte. Esta era a primeira vez que ele vinha a Bellissima desde que voltara de Teerã. Com a morte de Guineppa, Bellissima estava operando, no mínimo, com apenas um turno. Quando pousou, viu Pietro, agora o chefe no lugar de Guineppa, que se afastou do incêndio e correu em direção a eles.
— Tom! Nós precisamos de ajuda — gritou na janela do piloto, quase chorando. — Gianni está morto e há dois feridos...
— Está bem. Não se preocupe. — Lochart começou a desligar o aparelho. — Nitchak está lá atrás com um Faixa Verde. Não se preocupe, está bem? — Ele tornou a se virar no assento e apontou para a porta. O velho concordou com a cabeça. — Que diabo aconteceu, Pietro? — perguntou, procurando os botões com os dedos.
— Não sei... eu não sei, amico. — Pietro pôs a cabeça mais perto da janela da cabine. — Nós estávamos almoçando quando aquela garrafa cheia de gasolina com um pano pegando fogo entrou pela janela e começamos a pegar fogo... — Ele olhou para trás quando as chamas alcançaram um tambor quase cheio de óleo e subiram para o céu, soltando uma fumaça preta. Os quatro homens que lutavam contra o fogo recuaram. — Si, o refeitório incendiou rapidamente e quando corremos para fora lá estavam aqueles homens, nativos, banditos... Mamma mia, eles começaram a atirar e aí nós nos espalhamos e nos protegemos. Então, mais tarde, Gianni os viu pondo fogo na sala do gerador, perto de onde está a dinamite e... e ele simplesmente correu para avisá-los mas um deles atirou nele. Mamma mia, não havia motivo para atirar nele! Bastardi, stronzi bastardi!