"O vestido apropriado para uma mulher é o hijab que exige que elas cubram os seus cabelos e braços e pernas e zinaat — suas partes tentadoras."
— Eu escolhi usar o chador em protesto contra o xá, Meshang — Zarah, sua mulher, berrara para ele. — Eu escolhi! Eu o fiz! Eu nunca usarei um véu, um chador ou um lenço contra a minha vontade, nunca nunca nunca...
"A educação mista, introduzida pelo Satã xá há poucos anos, deixará de existir, porque na prática ela transformou muitas de nossas escolas em casas de prostituição."
— Mentira, tudo mentira! Ridículo! — Xarazade dissera a Lochart. —
A verdade deve ser gritada do alto dos edifícios. Não é o imã que está dizendo estas coisas, são os fanáticos que o cercam...
"O abominável Ato de Proteção ao Casamento do Satã xá está abolido."
— Isso deve ser um engano, Hussain — a esposa do mulá dissera cautelosamente. — O imã não pode estar dizendo isso. O Ato nos protege contra a rejeição por parte do marido, contra a poligamia e nos garante o direito de divórcio, o direito de voto e protege a propriedade da esposa...
"Na nossa nação islâmica, todo mundo será governado unicamente pelo Corão e pelo Sharia. As mulheres não devem trabalhar, devem voltar para o lar, ficar no lar, para cumprir o seu dever sagrado, ordenado por Deus, de parir e criar filhos e cuidar dos seus Senhores."
— Pelo profeta, Erikki, por mais que eu deseje ter filhos e ser uma boa esposa para você — dissera Azadeh, juro que não posso ficar sentada sem fazer nada e ver as minhas irmãs menos afortunadas serem forçadas a voltar para a Idade Média, sem liberdade nem direitos. São os fanáticos, não Khomeini, que estão tentando fazer isso. Eu vou marchar esteja onde estiver...
Por todo o Irã, as mulheres tinham preparado marchas de solidariedade — em Qom, Isfahan, Meshed, Abadan, Tabriz, mesmo em pequenas cidades como Kowiss — mas não nas aldeias. Por todo o Irã tinha havido brigas e discussões entre pais e filhas, maridos e esposas, irmãos e irmãs, as mesmas brigas, súplicas, xingamentos, exigências, promessas, proibições e, Deus nos proteja, até mesmo rebeliões — às claras ou em segredo. E em todo o Irã a resolução secreta das mulheres era a mesma.
— Estou contente do meu Tommy não estar aqui. Isso torna as coisas bem mais fáceis — dissera Xarazade à sua imagem no espelho naquela manhã, a marcha estava marcada para começar ao meio-dia. — Estou contente dele estar longe, porque o que quer que ele dissesse eu iria desobedecer. — Um tremor de excitação, agradável e ao mesmo tempo doloroso percorreu-a.
Ela estava verificando a maquilagem no espelho, mais uma vez, para certificar-se de que a mancha em volta do olho esquerdo estava bem coberta com pó. Quase não aparecia mais. Ela sorriu para si mesma, satisfeita com o que viu. Seu cabelo estava ondulado e solto e ela usava uma blusa verde, uma saia da mesma cor, meias de náilon e botas de pelica russa, e quando saiu, tinha decidido vestir um casaco enfeitado de pele e um chapéu da mesma cor. O verde não é a cor do Islã?, pensou alegremente, esquecendo-se de toda a tristeza.
Atrás dela, a cama estava entulhada de roupas de esqui e outras roupas que ela pensara em usar e desistira. Afinal, as mulheres nunca protestaram em grupo antes, então temos que estar com a nossa melhor aparência. Que pena que não estejamos na primavera, aí eu poderia usar o meu vestido de seda amarela e o chapéu amarelo e...
Uma súbita tristeza tomou conta dela. Seu pai lhe dera aquele vestido de presente de aniversário no ano anterior, e o lindo colar de pérolas. Pobre papai, pensou, sentindo a raiva subir. Que Deus amaldiçoe os homens maus que o mataram. Que Deus os atire no fogo do inferno para sempre! Que Deus proteja Meshang e toda a família e o meu Tommy, e que não permita que os fanáticos nos privem da nossa liberdade.
Agora havia lágrimas em seus olhos e ela as afastou. Insha'Allah, pensou. Papai está no paraíso para onde vão os fiéis, então não há motivo para lamentações. Não. Só o desejo de ver fazerem justiça contra os malditos assassinos. Assassinato! Tio Valik. HBC. Annoush e as crianças. HBC! Como eu odeio estas letras! O que aconteceu com Karim? Ela não tinha tido nenhuma notícia desde domingo e não sabia se ele estava detido, morto ou livre, nem tinha ouvido mais nada a respeito do telex — não havia nada a fazer a não ser rezar. E foi o que ela fez. Mais uma vez. E varreu da mente aqueles problemas, jogando-os para os ombros de Deus e sentiu-se limpa. Enquanto estava colocando o chapéu forrado de pele, a porta se abriu e Jari entrou apressada, também vestida com a sua melhor roupa.
— Está na hora, princesa, Sua Alteza Zarah já chegou, oh, como você está bonita!
Cheia de entusiasmo, Xarazade apanhou o casaco, correu pelo corredor, com a saia voando, e desceu as escadas para cumprimentar Zarah que esperava por ela no saguão.
— Oh, você está linda, Zarah querida — disse, abraçando-a. — Oh, eu achei que Meshang iria impedi-la no último minuto.
— Ele não teve nenhuma chance — disse Zarah, com uma gargalhada, com um lindo chapéu de pele elegantemente pousado sobre a cabeça. — Eu o atormentei ontem na hora do café e continuei o dia inteiro, a noite inteira e hoje de manhã a respeito do novo casaco de zibelina que eu tinha que possuir de qualquer maneira ou morreria de vergonha na frente das minhas amigas. Ele fugiu para o bazar para escapar e se esqueceu da marcha. Vamos embora, já devemos estar atrasadas, eu tenho um táxi esperando. Parou de nevar, o dia está prometendo ser bonito, embora esteja muito frio.
Havia mais três mulheres no táxi, amigas e primas, duas usando orgulhosamente jeans e saltos altos e jaquetas de esquiar, com os cabelos soltos, uma delas com um boné de esquiar e todas estavam tão excitadas como se estivessem indo a um piquenique como nos velhos tempos. Nenhuma delas notou os res-mungos de desaprovação do motorista de táxi, nem se incomodou com isso.
— Para a universidade — ordenou Zarah, e começaram a falar todas ao mesmo tempo como um bando de pássaros. Quando estavam ainda a duas ruas de distância dos portões da universidade, onde a marcha ia se concentrar, o táxi teve que parar, tão grande era a multidão.
Onde se havia esperado umas poucas centenas, havia milhares e chegavam mais a cada minuto, de todos os lados. Jovens e velhas, bem-nascidas e mal nascidas, cultas e analfabetas, camponesas e nobres, ricas e pobres — de jeans, saias, calças, botas, sapatos, farrapos, peles — e em todas o mesmo fervor, mesmo daquelas que tinham vindo usando o chador. Algumas das mais militantes já estavam fazendo discursos e outras gritavam slogans:
— Abaixo o chador obrigatório..
— Unidade, luta, vitória...
— Mulheres unidas, nós nos recusamos a ser obrigadas a usar o purdah ou o chador...
— Eu estive em Doshan Tappeh lutando contra os Imortais. Nós não lutamos e sofremos para nos submeter ao despotismo...
— Morte ao despotismo seja qual for a sua forma...
— Simmmm! Hurra às mulheres — gritou Xarazade — abaixo o chador obrigatório e os véus e lenços! — Como as outras, ela foi tomada pela excitação. Zarah pagou ao homem e deu-lhe uma boa gorjeta, voltou-se alegremente, deu o braço a Xarazade e Jari, e nenhuma delas ouviu o motorista gritar:
— Rameiras, todas vocês — e saiu com o carro.
A multidão estava um tanto dispersa, sem saber o que fazer, a maioria delas esmagada pelo enorme número e variedade de mulheres, roupas e idades — até alguns homens juntando-se a elas cheios de entusiasmo.
— Nós estamos protestando, Zara, estamos mesmo, não estamos?
— Oh, sim, Xarazade! E há tantas de nós...
Gritando no meio do barulho, ouvindo falar uma mulher bem vestida, uma conhecida advogada e ativista de Teerã, campeã de direitos femininos, Namjeh Lengehi. Uns poucos grupos de homens, estudantes e professores, pró e contra, junto com alguns mulás, todos contra, também ouvindo: