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— Alguns mulás dizem que nós mulheres não podemos julgar, não devemos receber educação e temos que usar o chador. Por três gerações nós permanecemos sem o véu, por três gerações nós temos tido direito a educação e há uma geração que temos o direito de votar. Deus é grande...

— Deus é grande — mil vozes ecoaram.

— Algumas de nós têm mais sorte que outras, algumas são mais educadas do que outras, algumas até possuem uma educação melhor do que a dos homens. Algumas dessas conhecem melhor as leis modernas, até mesmo a lei corânica, melhor do que muitos homens, por que essas mulheres não podem julgar? Por quê?

— Não há nenhum motivo! Queremos que essas mulheres sejam juízes!

— Zarah gritou junto com cem outras, abafando a voz dos mulás e seus partidários que gritavam:

— Sacrilégio!

Quando conseguiu se fazer ouvir novamente, Namjeh Lengehi continuou:

— Nós apoiamos o aiatolá de todo o coração... — Mais aplausos a interromperam, numa grande demonstração de afeição. — Nós o abençoamos pelo que ele fez e lutamos o melhor que pudemos, lado a lado com os homens, partilhamos o sofrimento deles e as celas de prisão e ajudamos a ganhar a revolução e a expulsar o déspota e agora estamos livres, o Irã está livre do seu jugo e do jugo estrangeiro. Mas isto não dá a ninguém, aos mulás, nem mesmo ao aiatolá, o direito de atrasar o ponteiros do relógio...

Ouviram-se gritos de:

— Não, não, não! Nada de despotismo! Voto para as mulheres! Não ao despotismo sob qualquer forma! Lengehi para o Majilis! Lengehi para ministro da educação!

— Oh, Zarah, isso não é maravilhoso? — disse Xarazade. — Você já votou alguma vez?

— Não, querida, é claro que não. Mas isso não quer dizer que eu não quero ter o direito de poder votar caso queira. Eu já disse a Meshang uma centena de vezes que é claro que eu perguntaria a ele em quem votar, mas assim mesmo eu gostaria de entrar na cabine, sozinha, caso tivesse vontade!

— Você tem razão! — Xarazade virou-se e gritou: — Viva a revolução! Deus é grande! Deus é grande! Lengehi para a Suprema Corte! Mulheres para juízes! Nós insistimos nos nossos direitos...

Teymour, o iraniano treinado na OLP que tinha tomado o apartamento de Xarazade e que fora mandado para supervisionar a marcha e identificar os militantes, reconheceu-a das fotografias que tinha visto lá. A sua raiva aumentou.

— As mulheres devem obedecer às leis de Deus — ele gritou. — Nada de mulheres juizes! As mulheres devem fazer o trabalho de Deus! — Mas a voz dele foi abafada pelas outras milhares de vozes e ninguém prestou atenção nele.

Ninguém soube como a marcha começou. Elas simplesmente pareceram sair andando e em pouco tempo enchiam as avenidas, de parede a parede, interrompendo todo o tráfego, avançando alegremente, com uma força irresistível. Os que estavam em barracas, janelas e balcões de casas vizinhas olhavam de boca aberta para as manifestantes.

A maioria dos homens estava chocada.

— Olhe aquela ali, a jovem rameira com o casaco verde que abre na frente e mostra a abertura entre as pernas, olha, olha lá! Que Deus a amaldiçoe por tentar-me...

— Olha aquela ali com as calças apertadas.

— Onde? Ah, estou vendo, a de calças azuis! Que Deus nos proteja! Pode-se ver cada ondulação da sua zinaatl Ela está pedindo! Como aquela que está de braço dado com ela, a de casaco verde! Meretriz! Ei, sua meretriz, o que você quer é um pau, é só isso que você quer...

Os homens olhavam e se inflamavam. O desejo seguia a marcha.

As mulheres olhavam e meditavam. Mais e mais mulheres esqueceram-se das compras ou das suas barracas e se juntaram às suas irmãs, tias, mães, avós, tirando destemidamente das cabeças os lenços e véus e o chador — aquela não era a capital, elas não eram todas teeranis, a elite do Irã, e não mais aldeãs? Era diferente aqui, não como lá na aldeia onde elas nunca teriam ousado gritar slogans e tirar os lenços, véus e o chador.

— Mulheres, unam-se! Deus é Grande! Deus é Grande! Vitória, unidade, luta. Igualdade para as mulheres! Voto! Não ao despotismo, qualquer despotismo...

Na frente das manifestações, atrás delas, em volta delas, nas avenidas e nas ruas laterais, grupos de homens começaram a se formar. Os que eram contra e os que eram a favor. As discussões tornaram-se cada vez mais violentas — a lei coranica exigia que todos os muçulmanos resistissem a qualquer tentativa contra o Islã. Algumas brigas começaram. Um homem puxou uma faca e morreu, com a faca de outro homem nas costas. Alguns tiros e ferimentos. Muitas brigas. Alguns tumultos entre liberais e fundamentalistas, entre esquerdistas e Faixas Verdes. Umas cabeças quebradas, mais um homem morto e, aqui e ali, crianças atingidas pelo fogo cruzado, algumas mortas, outras agachadas atrás de carros estacionados.

Ibrahim Kyabi, o líder estudantil do Tudeh que tinha escapado da emboscada na noite em que Rakoczy fora apanhado, correu para a rua e pegou uma das crianças apavoradas enquanto seus amigos lhe davam proteção. Ele chegou em segurança na outra esquina. Assim que se certificou de que a menina estava bem, ele gritou para os amigos:

— Sigam-me — sabendo que eles estavam em minoria ali, e saiu correndo. Eles eram seis e correram para dentro dos becos e ruas laterais. Logo estavam a salvo, correndo em direção à avenida Roosevelt. Os partidários do

Tudeh receberam ordens de evitar confrontos com os Faixas Verdes, de marchar junto com as mulheres, de se infiltrar nas fileiras e de conquistar adeptos. Ele estava contente de voltar à ativa depois de ficar escondido.

Meia hora depois de Rakoczy ter sido capturado, ele relatara a traição ao seu supervisor no QG do Tudeh. O homem lhe dissera para não ir para casa, para tirar a barba e se manter fora de circulação num esconderijo perto da universidade:

— Não faça nada até a hora da marcha de protesto das mulheres, na terça-feira. Junte-se à marcha com a sua célula conforme o planejado, depois vá para Kowiss no dia seguinte. Isso deve mantê-lo em segurança por algum tempo.

— E quanto a Dimitri Yazernov? — Ele só conhecia Rakoczy por este nome.

— Não se preocupe. Nós os tiraremos das mãos daqueles bandidos. Torne a dizer-me como eles eram.

Ibrahim contara a ele o pouco que se lembrava sobre os Faixas Verdes e a emboscada. E então ele perguntara:

— Quantos homens irão para Kowiss comigo?

— Você e mais dois devem ser suficientes para um maldito mulá. Sim, ele tornou a pensar, mas eu não preciso de ninguém. Logo o meu pai estará vingado. Suas mãos apertaram o M16 que fora roubado uma semana antes do arsenal de Doshan Tappeh.

— Liberdade! — gritou e correu pela avenida Roosevelt para se juntar às primeiras fileiras do protesto, espalhando-se com seus amigos.

Uns cem metros atrás, um caminhão aberto, cheio de jovens, se arrastava lentamente, cercado pelos milhares de manifestantes, acenando e gritando palavras de encorajamento. Eram pilotos sem uniforme. Entre eles estava Karim Peshadi. Durante horas ele procurara Xarazade no meio dos manifestantes mas não a tinha visto. Ele e os outros estavam estacionados em Doshan Tappeh, onde a ordem e a disciplina eram praticamente inexistentes, com os komitehs detendo o controle, expedindo ordens e contra-ordens, outras ordens vindo do Alto Comando subserviente ao primeiro-ministro Bazargan, outras do Komiteh Revolucionário — e outras do rádio onde, de vez em quando, o aiatolá Khomeini falava e determinava as normas.

Como todos os outros pilotos e oficiais por todo o país, Karim fora colocado diante de um komiteh para ser interrogado a respeito da sua ficha, das suas crenças políticas e das suas ligações pré-revolucionárias. Sua ficha era boa e ele pôde jurar sinceramente que apoiava o Islã, Khomeini e a revolução. Mas o fantasma do seu pai pairava sobre ele, e Karim enterrara cuidadosamente o desejo de vingança no fundo do coração. Até agora ele não fora afetado.