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Há duas noites ele tentara ir até a torre de Doshan Tappeh para procurar o livro de autorizações, mas fora obrigado a voltar. Esta noite ele ia tentar de novo — tinha jurado a si mesmo que não falharia. Eu não posso falhar, pensou, Xarazade confia em mim... oh, Xarazade, é você que dá sentido à minha vida embora esteja proibida para mim.

Ansiosamente, ele a procurou no meio dos manifestantes, sabendo que ela estava lá, em algum lugar. Na noite anterior ele e um grupo de amigos tinham ouvido uma transmissão incendiaria feita por um aiatolá fundamenta-lista, opondo-se ao Protesto das Mulheres e exigindo que se fizessem protestos contrários por 'fiéis'. Ele ficara seriamente preocupado por causa de Xarazade, suas irmãs e parentes que ele sabia que também estariam na marcha. Seus amigos estavam igualmente preocupados com suas famílias. Então, esta manhã, eles tinham apanhado o caminhão e se juntaram ao protesto. Com armas.

— Igualdade para as mulheres — ele gritou. — Democracia para sempre! Islã para sempre! Democracia, lei e Islã para sem... — As palavras morreram.

Na frente da marcha, os homens tinham formado uma grossa barreira na rua, impedindo o avanço. As mulheres que iam na frente viram o ódio deles e os punhos levantados. Instintivamente, as mulheres nas primeiras filas tentaram diminuir a marcha, mas não conseguiram. O impulso de milhares as empurrou inexoravelmente para a frente.

— Por que esses homens estão tão zangados? — perguntou Xarazade, sua alegria desaparecendo e os empurrões aumentando.

— Eles são apenas mal conduzidos, aldeões em sua maioria — disse corajosamente Namjeh Lengehi. — Eles querem que sejamos escravas, escravas, não tenham medo! Deus é Grande...

— Dêem os braços — gritou Zarah —, eles não podem nos fazer parar! Allahhh-u Akbarrr...

Entre os homens que bloqueavam a rua estava o homem que, na prisão Evin, levara Jared Bakravan para a morte. Ele reconhecera Xarazade na frente.

— Deus é Grande — ele murmurou em êxtase, com suas palavras abafadas pelos gritos —, Deus me fez o instrumento que mandou para o inferno o maldito lojista e agora Deus colocou nas minhas mãos a meretriz, sua filha. — Seus olhos a contemplaram com desejo, vendo-a nua nas almofadas, deitada, com os seios erguidos, os olhos cheios de paixão, a boca úmida, os lábios úmidos, ouvindo-a suplicar-lhe: "Possua-me, depressa, por você eu o faço de graça, penetre-me, depressa, por você eu faço qualquer coisa... oh, Satã, ajude-me a extrair Deus do seu membro..."

Ele empunhou a faca, com os testículos vibrando, sua macheza orgulhosa, e atirou-se em direção a ela.

— Deus é Grandeeee... — Sua corrida foi súbita e ele atravessou o espaço que os separava, derrubou uma dúzia, tentando alcançá-la, mas escorregou e, em sua excitação, caiu, com a faca atingindo algumas pessoas. Os que ele feriu gritavam e ele conseguiu se levantar e atirou-se para ela, vendo apenas a ela, com os olhos arregalados de terror, com a faca na mão pronta para matá-la, a três passos de distância, dois passos, um... sentindo-se inundado pelo seu perfume, o cheiro do demônio encarnado. Ele começou o golpe mortal, mas não chegou a tocá-la e soube que Satã tinha enviado um djinn diabólico para impedi-lo — sentiu um fogo no peito, seus olhos ficaram cegos e ele morreu com o nome de Deus nos lábios.

Xarazade olhou para a figura caída, com Ibrahim ao seu lado agora, uma arma na mão, gritos e berros e um urro de raiva de mil mulheres fazendo pressão atrás deles.

Outro tiro e um homem caiu gritando.

— Avançar em nome de Deus — gritou Lengehi, vencendo o próprio medo, e seu grito foi acompanhado por Ibrahim, que sacudiu Xarazade:

— Não tenha medo, avante as mulheres...

Ela viu a confiança dele e por um momento confundiu-o com seu primo

Karim, tão parecido em altura, corpo e rosto, depois seu terror e seu ódio pelo que acontecera explodiram e ela gritou:

— Avante pelo meu pai... Abaixo os fanáticos e os Faixas Verdes... abaixo os assassinos! — Ela agarrou Zarah. — Vamos! Para a frente! — E deu o braço a ela e a Ibrahim, o seu salvador, tão parecido com Karim que poderiam ser irmãos, e continuaram a marchar. Mais homens corriam para a frente para ajudar, o caminhão com os pilotos entre eles.

Outro atacante de faca veio correndo para cima deles.

— Deus é Grande... — gritou Xarazade, a multidão junto com ela, mas antes de ser dominado o rapaz golpeou o braço de Namjeh Lengehi. Inexoravelmente, as filas de trás fizeram pressão para a frente, com os dois lados gritando "Deus é Grande", com os dois lados absolutamente certos de que estavam com a razão. Então a oposição cedeu.

— Deixem-nas marchar — gritou um homem. — As nossas mulheres também estão lá, algumas estão, há muitas mulheres... demais... — Os homens que estavam no caminho recuaram, outros se afastaram e então o caminho ficou livre. Um urro de triunfo elevou-se dos manifestantes:

— Allahhh-u Akbarrr... Deus está conosco, irmãs!

— Para a frente — tornou a gritar Xarazade e a marcha prosseguiu. Os que estavam feridos foram carregados ou ajudados a saírem do caminho, os outros continuaram andando. Agora o protesto ficou outra vez disciplinado. Ninguém mais barrou-lhes o caminho, embora muitos homens observassem sombriamente das laterais, com Teymour e outros fotografando os militantes.

— É um sucesso — disse Namjeh Lengehi, com voz fraca, ainda andando na primeira fila, com um lenço estancando o sangue que jorrava do seu braço. — Nós somos um sucesso. Até mesmo o aiatolá vai saber da nossa determinação. Agora nós podemos voltar para os nossos maridos e as nossas famílias. Nós fizemos o que precisávamos fazer e agora podemos voltar para casa.

— Não — disse Xarazade, com o rosto pálido e sujo de terra, ainda não recuperada do choque. — Nós precisamos marchar amanhã e amanhã e amanhã, até que o imã concorde publicamente com os nossos direitos e não nos obrigue a usar o chador.

— Sim — disse Ibrahim —, se vocês pararem agora os mulás vão esmagá-las.

— Você tem razão, aga, oh, como posso agradecer-lhe por ter-nos salvo?

— Sim — concordou Zarah, ainda abalada. — Nós vamos marchar amanhã, senão esses... esses loucos vão nos destruir.

A marcha prosseguiu sem maiores problemas e o mesmo aconteceu nas outras cidades: confusão no início e depois o protesto continuando pacificamente.

Mas nas aldeias e pequenas cidades, a marcha foi interrompida antes de começar e mais ao sui, em Kowiss, houve silêncio na praça da cidade, exceto pelo barulho do chicote e dos gritos. Hussein estava lá quando a marcha se formou.

— Este protesto está proibido. Todas as mulheres que não estiverem vestidas de acordo com o hijab estão sujeitas a serem condenadas por nudez pública contra as ordens do Corão. — Só meia dúzia de mulheres, entre duzentas, estavam vestidas com roupas ocidentais.

— Onde está escrito no Corão que estaremos desobedecendo a Deus se não usarmos o chador! — gritou uma das mulheres. Ela era esposa do gerente do banco e freqüentara a Universidade de Teerã. Sua aparência era modesta, ela usava um casacão e uma saia, mas seus cabelos estavam soltos.

— Oh, Profeta, diga a suas esposas e filhas e mulheres crentes que usem os véus bem cerrados... O Irã é um Estado islâmico... o primeiro da história. O imã decretou o hijab. Então será o hijab. Vão para casa e vistam-se direito imediatamente!

— Mas as fiéis de outras terras não são obrigadas a usar o chador, e os seus líderes e os seus maridos não as obrigam a isso.

— Os homens são responsáveis pelo que diz respeito às mulheres, por isso Deus favoreceu a um deles... as mulheres direitas são, portanto, obedientes.. Aquelas que você achar que podem ser rebeldes, castigue-as; mande-as para a cama e bata nelas. Se então elas lhe obedecerem, não faça nada contra elas. Vão e cubram suas cabeças.