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— Teria sido muito bom apanhá-los espionando. Muito bom. Dizem que os filhos da mãe conseguem ver o que se passa a mil quilômetros no interior do nosso território.

— Você teve sorte deles não estarem aqui, vocês poderiam ter se envolvido numa luta que teria criado um incidente internacional.

— Não teria nada a ver conosco, nada — rira Cimtarga. — Teriam sido os curdos novamente, mais um trabalhinho deles, um bando de assassinos, hein? Eles teriam levado a culpa. Malditos yezdvas, hein? Eventualmente, os corpos seriam encontrados, em território curdo. Isso seria prova suficiente para Carter e a sua CIA

Erikki se mexeu nos degraus do helicóptero, com o assento gelado por causa do metal, deprimido e cansado. Na noite anterior, ele tinha tornado a dormir mal, com pesadelos sobre Azadeh. Ele não dormia bem desde o aparecimento de Ross.

Você é um idiota, pensou pela milésima vez. Eu sei, mas isso não adianta. Nada parece adiantar. Talvez o trabalho o esteja deixando esgotado. Você tem pilotado horas demais em condições ruins, muitos vôos durante a noite. E também há a preocupação com Nogger — e Rakoczy e as mortes. E Ross. E principalmente Azadeh. Será que ela está em segurança?

Ele tentara fazer as pazes com ela a respeito do seu Johnny na manhã seguinte.

— Eu admito que fiquei com ciúmes. É estúpido ficar com ciúmes. Eu jurei pelos antigos deuses dos meus antepassados que poderia viver com a lembrança dele. Eu posso e o farei — dissera, mas dizer isso não o apaziguara. — Apenas não pensei que ele fosse tão... tão homem e tão... tão perigoso. Aquele kookri é páreo para a minha faca.

— Nunca, meu querido, nunca. Eu estou muito feliz por você ser você e eu ser eu e por estarmos juntos. Como poderemos sair daqui?

— Nem todos juntos nem ao mesmo tempo — respondera com sinceridade. — É melhor os soldados darem o fora enquanto podem. Com Nogger e eles, e enquanto você está aqui... eu não sei, Azadeh. Eu não sei como poderemos fugir, por enquanto. Vamos ter que esperar. Talvez pudéssemos entrar na Turquia...

Ele agora estava olhando para a Turquia, tão perto e tão longe, com Azadeh ainda em Tabriz — trinta minutos por ar até lá. Mas quando? Se entrássemos na Turquia e o meu helicóptero não fosse apreendido, e se eu pudesse reabastecer e conseguíssemos voar até Al Shargaz, costeando a fronteira. Se se se! Deuses dos meus ancestrais, ajudem-me!

Tomando vodca na noite anterior, Cimtarga estivera tão taciturno como sempre, mas bebera bastante e eles partilharam a garrafa, de copo em copo, até a última gota.

— Tenho outra para amanhã à noite, capitão.

— Ótimo. Quando você terá terminado comigo?

— Vamos levar dois ou três dias para terminar aqui, depois vamos voltar para Tabriz.

— E depois?

— Depois eu vou saber.

Se não fosse pela vodca, Erikki teria praguejado. Ele se levantou e observou os iranianos empilhando o equipamento para ser embarcado. A maioria parecia ser bem comum. E quando ele caminhou pelo terreno incerto, com as botas esmagando a neve, o seu guarda foi junto. Não havia nenhuma chance de escapar; durante todos os cinco dias, ele não tivera nenhuma chance.

— Nós gostamos da sua companhia — dissera Cimtarga, lendo-lhe os pensamentos, com seus olhos orientais brilhando.

Mais acima, ele podia ver alguns homens trabalhando nos mastros de radar, desmontando-os. Perda de tempo, pensou. Até eu sei que não há nada de especial com relação a eles.

— Isso não importa, capitão — dissera Cimtarga. — O meu mestre gosta de quantidade. Ele disse para levar tudo. É melhor demais do que de menos.

Por que você se preocupa? Você é pago por hora. — Mais uma vez ele rira, sem provocação.

Sentindo os músculos do pescoço endurecidos, Erikki esticou os braços e tocou a ponta dos pés e, nesta posição, deixou os braços e a cabeça ficarem pendurados, depois girou a cabeça o mais que pôde, deixando o peso da cabeça esticar os tendões e ligamentos e músculos e estender as juntas, sem forçar nada, usando apenas o peso.

— O que está fazendo? — perguntou Cimtarga, aproximando-se dele

— Isso é ótimo para dor no pescoço. — Ele tornou a colocar os óculos escuros. Sem eles a luz refletida pela neve era desconfortável. — Se você fizer isso duas vezes por dia, jamais terá dor no pescoço.

— Ah, você também tem dores no pescoço? Eu estou sempre atacado. Tenho que ir a um quiroprático pelo menos três vezes por ano. Isso ajuda?

— É garantido. Uma garçonete me ensinou. Carregar bandejas o dia inteiro dá muita dor no pescoço e nas costas, como os pilotos; é uma maneira de viver. Experimente só. — Cimtarga curvou-se como Erikki tinha feito e moveu a cabeça. — Não, você está fazendo errado. Deixe solta a cabeça, os braços e os ombros, você está duro demais.

Cimtarga obedeceu e sentiu o pescoço estalar e as juntas se soltarem e quando tornou a se levantar, disse:

— Isso é maravilhoso, capitão, estou-lhe devendo um favor.

— Foi em troca da vodca.

— Vale mais do que uma garrafa de vod...

Erikki ficou olhando para ele, espantado, enquanto o sangue jorrava do peito de Cimtarga, causado pela bala que o apanhara pelas costas. Então ouviu-se um urro acompanhado de outros enquanto nativos saíam dos esconderijos no meio das rochas e das árvores soltando gritos de combate e "Allah-u Ak-barrr" — atirando enquanto avançavam. O ataque foi breve e violento e Erikki viu os homens de Cimtarga caindo por todo o platô, rapidamente derrotados. O seu próprio guarda, um dos poucos que estava carregando uma arma, começara a atirar, mas foi imediatamente atingido, e agora um nativo barbado estava em pé sobre ele, terminando de matá-lo com a coronha do rifle. Outros entraram nas cavernas. Houve mais tiroteio, depois silêncio outra vez.

Dois homens correram em sua direção e ele levantou as mãos, sentindo-se nu e idiota, com o coração disparado. Um desses virou Cimtarga de frente e tornou a atirar nele. O outro passou por Erikki e entrou na cabine do 212 para certificar-se de que não havia ninguém escondido lá. Agora o homem que tinha atirado em Cimtarga estava parado diante de Erikki, respirando com dificuldade. Ele era pequeno, de barba, com a pele cor de azeitona, olhos e cabelos escuros, usava roupas rasgadas e fedia.

— Abaixe as mãos — disse num inglês carregado. — Eu sou o xeque Bayazid, o chefe daqui. Nós precisamos de você e do seu helicóptero.

— O que vocês querem de mim?

Em volta deles, os nativos matavam os feridos e tiravam tudo o que os mortos possuíam de valor.

— Emergência. — Bayazid sorriu de leve ao ver o ar de espanto de Erikki. — Muitos de nós trabalham nas plataformas. Quem é este cão? — Ele fez um gesto na direção de Cimtarga, caído a seus pés.

— Ele dizia chamar-se Cimtarga. Era um soviético. Acho que era da KGB

— É claro que era soviético — disse o homem, grosseiramente. — É claro que era da KGB. Todos os soviéticos no Irã são da KGB. Papéis, por favor. — Erikki entregou-lhe sua identidade. O nativo leu-a e balançou a cabeça. E para surpresa de Erikki, devolveu-a. — Por que você está pilotando para o cão soviético? — E ouviu silenciosamente, com a fisionomia ficando mais fechada à medida que Erikki contava como Abdullah Khan armara-lhe uma cilada. — Abdullah Khan não é homem para a gente se meter. O braço de Abdullah, o Cruel, atinge muito longe, mesmo nas terras dos curdos.

— Vocês são curdos?

— Curdos — disse Bayazid, pois a mentira era conveniente. Ele se ajoelhou e revistou Cimtarga. Não havia nenhum documento, só um pouco de dinheiro, que ele guardou. Além da automática e da munição, que também tomou. — Você está com o tanque cheio?

— Três quartos.

— Eu quero ir trinta quilômetros ao sul. Eu mostro o lugar. Apanhar uma emergência e depois ir para Rezaieh, para o hospital de lá.

— Por que não Tabriz? É muito mais perto.