— Rezaieh é no Curdistão. Os curdos estão seguros lá, em geral. Tabriz pertence aos nossos inimigos: iranianos, o xá ou Khomeini, não faz nenhuma diferença. Vá para Rezaieh.
— Está bem. O Hospital Overseas seria melhor. Eu já estive lá antes e eles têm uma pista para helicópteros. Eles estão acostumados com emergências. Nós podemos reabastecer o aparelho lá. Eles têm combustível para helicóptero, pelo menos tinham nos... nos velhos tempos.
Bayazid hesitou.
— Bom. Sim. Vamos imediatamente.
— E depois de Rezaieh?
— E depois, se nos ajudar, talvez você seja solto para tirar a sua mulher do Gorgon Khan — o xeque Bayazid virou-se e gritou para os seus homens se apressarem e entrarem no helicóptero. — Ligue os motores, por favor.
— E quanto a ele? — Erikki apontou para Cimtarga. — E os outros?
— Os animais e os pássaros vão limpar isto logo.
Eles levaram algum tempo para embarcar e partir, com Erikki agora cheio de esperança. Não houve problema para encontrar o lugar na pequena aldeia. A emergência era uma mulher idosa.
— Ela é o chefe do nosso clã — disse Bayazid.
— Eu não sabia que as mulheres podiam ser chefes.
— Por que não, desde que sejam bastante sábias, bastante fortes, bastante espertas e venham de famílias certas? Nós somos muçulmanos ortodoxos não esquerdistas ou xiitas hereges que põem os mulás entre o homem e Deus. Deus é Deus. Vamos partir imediatamente.
— Ela fala inglês?
— Não.
— Ela parece estar muito doente. Talvez não agüente a viagem.
— Seja como Deus quiser.
Mas ela agüentou a viagem de uma hora e Erikki pousou na pista do hospital. O Hospital Overseas fora construído, equipado e era sustentado pelas companhias de petróleo. Ele voara baixo o tempo todo, evitando Tabriz e os campos de aviação militares. Bayazid fora na frente com ele, e seis guardas armados tinham ido atrás com a chefe. Ela estava deitada na maca, acordada mas imóvel. Sentindo muitas dores, mas sem se queixar.
Segundos depois de pousarem, já havia um médico e alguns ajudantes perto do helicóptero. O médico usava um casaco branco com uma grande cruz vermelha na manga, por cima de pesados suéteres, aparentava cerca de trinta anos, era americano, e tinha círculos negros em volta dos olhos injetados de sangue. Ele se ajoelhou ao lado da maca enquanto os outros esperavam em silêncio. Ela gemeu um pouco quando ele tocou no seu abdômen, embora as suas mãos fossem experientes. Um instante depois, ele falou com ela num turco hesitante. Ela deu um pequeno sorriso e balançou a cabeça, agradecendo. Ele fez um sinal para os ajudantes e eles levantaram a maca e a levaram embora. Obedecendo a uma ordem de Bayazid, dois dos seus homens foram junto com ela.
O médico disse para Bayazid num dialeto hesitante:
— Excelência, eu preciso de nome e idade e... — ele procurou a palavra certa. — História. História médica.
— Fale em inglês.
— Ótimo. Obrigado, aga. Eu sou o dr. Newbegg. Temo que ela esteja no fim, aga, o pulso dela é quase zero. É velha e eu diria que está tendo uma hemorragia, sangrando, por dentro. Ela levou alguma queda recentemente?
— Fale mais devagar, por favor. Queda? Sim, sim, há dois dias atrás. — Bayazid parou por causa do barulho de tiros ali perto, depois continuou: — Sim, há dois dias atrás. Ela escorregou na neve e caiu em cima de uma pedra, bateu com o lado numa pedra.
— Acho que ela está sangrando por dentro. Vou fazer o possível, mas... sinto muito, não posso prometer boas notícias.
— Insha'Allah.
— Vocês são curdos?
— Curdos. — Novo tiroteio, ainda mais perto desta vez. Todos eles olharam na direção de onde veio o barulho. — Quem são?
— Não sei, são os mesmos, eu acho — falou o médico, inquieto. — Faixas Verdes contra esquerdistas, esquerdistas contra Faixas Verdes, contra curdos, muitas facções, e todos estão armados. — Ele esfregou os olhos. — Eu farei o que puder pela senhora. Talvez seja melhor o senhor vir comigo, aga, o senhor pode ir me dando os detalhes enquanto andamos. — E saiu andando depressa.
— Doutor, o senhor ainda tem combustível aqui? — perguntou Erikki. O médico parou e olhou para ele sem entender.
— Combustível? Oh, combustível para helicóptero? Eu não sei. Os tanques de gasolina ficam nos fundos. — Ele subiu as escadas até a entrada principal, com as abas do casaco batendo.
— Capitão — disse Bayazid —, o senhor vai esperar aqui até eu voltar.
— Mas e o combustível? Eu...
— Espere aqui. Aqui. — Bayazid foi rapidamente atrás do médico. Doi"s dos seus homens foram com ele. Dois ficaram com Erikki.
Enquanto Erikki esperava, checou tudo. Os tanques estavam quase vazios. De vez em quando, carros e caminhões chegavam com feridos para serem recebidos por médicos e estudantes. Muitos olhavam com curiosidade para o helicóptero, mas nenhum se aproximou. Os guardas cuidaram disso. Durante a viagem até ali, Bayazid tinha dito:
— Durante séculos, nós, os curdos, temos tentado ser independentes. Nós, um povo diferente, com uma língua diferente e costumes diferentes. Agora existem talvez seis milhões de curdos no Azerbeijão, no Curdistão, na fronteira soviética, deste lado do Iraque e na Turquia. — Ele tinha quase cuspido esta palavra. — Durante séculos nós temos lutado contra eles, juntos ou sozinhos. Nós dominamos as montanhas. Nós somos bons lutadores. Salah-al-din, ele era curdo. Você o conhece? Salah-al-din... Saladino foi o cavaleiro muçulmano, oponente de Ricardo Coração de Leão durante as Cruzadas no século XII, que se fez sultão do Egito e da Síria e capturou o Reino de Jerusalém em 1187, depois de esmagar as forças aliadas dos cruzados.
— Sim, eu o conheço.
— Hoje há outros Salah-al-dins entre nós. Um dia nós tornaremos a conquistar os lugares santos. Depois que Khomeini, o traidor do Islã, for atirado na sarjeta.
— Vocês armaram uma cilada para Cimtarga e para os outros e os mataram só por causa da emergência? — perguntara Erikki.
— É claro. Eles eram inimigos. Seus e nossos. — Bayazid sorrira o seu sorriso torto. — Nada acontece nas nossas montanhas sem que saibamos. A nossa chefe estava doente e vocês por perto. Nós vimos os americanos partirem, vimos os carniceiros chegarem, e você foi reconhecido.
— Oh? Como?
— O Ruivo da Faca? O infiel que mata assassinos como piolhos e depois ganha uma filhote de Gorgon como recompensa! Piloto de emergências? — Os olhos escuros, quase pretos, estavam achando graça. — Oh, sim, capitão, nós o conhecemos bem. Muitos de nós trabalham com madeira e também com petróleo... um homem tem que trabalhar. Mesmo assim, é bom que o senhor não seja nem soviético nem iraniano.
— Depois da emergência, você e seus homens me ajudarão contra o Gorgon Khan?
— Essa maldita desavença é sua, não nossa — rira Bayazid. — Abdullah está conosco, por enquanto. Nós não somos contra ele. O que você fizer é lá com Deus.
Estava frio no pátio do hospital, um vento leve ainda aumentava mais o frio. Erikki andava para cima e para baixo para manter o sangue circulando. Eu tenho que voltar para Tabriz. Tenho que voltar e arranjar um jeito de apanhar Azadeh e partir com ela para sempre.
Um tiroteio ali perto o assustou e também aos guardas. Fora dos portões do hospital o tráfego ficou mais lento, com as buzinas tocando com irritação, depois engarrafou rapidamente. As pessoas começaram a passar correndo. Houve novo tiroteio e os que foram apanhados nos seus veículos saltaram para se proteger ou fugir. Do lado de dentro dos portões, havia uma área grande, o 212 estava parado de um dos lados. O tiroteio estava pior agora e muito mais perto. Algumas janelas de vidro no último andar do hospital se estilhaçaram. Os dois guardas deitaram na neve atrás do helicóptero, Erikki estava uma fera pelo fato do seu aparelho estar tão exposto e não sabia para onde correr nem o que fazer, sem tempo para decolar e sem combustível suficiente para ir a lugar nenhum. Algumas balas ricochetearam e ele se abaixou enquanto a batalha prosseguia do lado de fora dos portões. Então ela terminou tão rapidamente como tinha começado. As pessoas começaram a sair de onde estavam, as buzinas começaram a tocar e logo o tráfego estava tão normal e horrível como sempre.