— Insha'Allah — disse um dos nativos, depois empunhou o rifle e se pôs em guarda. Um pequeno caminhão de gasolina se aproximava, vindo de trás do hospital, dirigido por um jovem iraniano com um largo sorriso. Erikki foi ao encontro dele.
— Oi, capitão — disse alegremente o motorista, com um sotaque carregado de Nova York. — Eu vou abastecer o seu aparelho. O seu destemido líder, xeque Bayazid, arranjou isto. — Ele cumprimentou os nativos num dialeto turco. Imediatamente eles relaxaram e o cumprimentaram de volta. — Capitão, vamos encher até a boca. O senhor tem algum tanque de reserva?
— Não. Só o normal. Eu sou Erikki Yokkonen.
— Claro. O Ruivo da Faca. — O rapaz sorriu. — O senhor é uma espécie de lenda por aqui. Eu abasteci o seu aparelho uma vez, há mais ou menos um ano. — Ele estendeu a mão. — Eu sou Ali 'Gasolina'... isto é, Ali Reza.
Eles trocaram um aperto de mão e, enquanto conversavam, o rapaz começou a encher o tanque.
—Você freqüentou uma escola americana? — Erikki perguntou.
— Não. Eu fui adotado, por assim dizer, pelo hospital, há anos, muito antes deste aqui ter sido construído, quando eu era um garoto. Nos velhos tempos, o hospital atendia a um dos Guetos Dourados da parte leste da cidade. O senhor sabe, capitão, Apenas Pessoal Americano, um depósito da ExTex. — O rapaz sorriu, tampou cuidadosamente o tanque e começou a encher o outro. — O primeiro médico que me adotou foi Abe Weiss. Grande sujeito, grande. Ele me colocou na folha de pagamento, me ensinou a respeito de sabão, meias, Colheres e banheiros... diabo, todo o tipo de utensílios não-iranianos para ratos de rua como eu, sem família, sem casa, sem nome, sem nada. Ele costumava dizer que eu era o seu hobby. Ele me deu até o nome. Então, um dia, ele partiu.
Erikki viu a tristeza nos olhos do rapaz, rapidamente disfarçada.
— Ele me passou para o doutor Templeton e este fez o mesmo. Às vezes é meio difícil saber quem eu sou. Sou curdo mas não sou. Sou ianque mas não sou, sou judeu mas não sou, sou muçulmano mas não sou. — Ele deu de ombros. — É um pouco confuso, capitão. O mundo e tudo o mais, hein?
— Sim. — Erikki deu uma olhada na direção do hospital. Bayazid estava descendo as escadas com seus dois soldados, ao lado dos ajudantes que carregavam uma maca. A velha estava coberta agora, dos pés à cabeça.
— Vamos partir assim que estivermos abastecidos — disse Bayazid, secamente.
— Sinto muito — disse Erikki.
— Insha'Allah. — Eles ficaram olhando os ajudantes colocarem a maca na cabine. Bayazid agradeceu-lhes e eles foram embora. Em pouco tempo o aparelho estava abastecido.
— Obrigado, sr. Reza — Erikki estendeu a mão — Obrigado.
O rapaz olhou fixamente para ele.
— Ninguém nunca me chamou de senhor antes, capitão, nunca. — Ele apertou a mão de Erikki. — Obrigado. A qualquer hora que o senhor precisar de gasolina, eu estou às ordens.
Bayazid subiu na cabine ao lado de Erikki, amarrou o cinto e colocou os fones no ouvido, com o motor esquentando.
— Agora vamos voltar para a aldeia de onde saímos.
— E depois? — perguntou Erikki.
— Vou consultar o novo chefe — disse Bayazid, mas ele estava pensando, este homem e o helicóptero devem valer um bom resgate, talvez para o khan, talvez para os soviéticos ou talvez para o seu próprio povo. O meu povo precisa de cada tostão que puder conseguir
PERTO DE TABRIZ UM — NA ALDEIA DE ABU MARD: 18:16H. Azadeh apanhou a tigela de arroz e a tigela de horisht, agradeceu à mulher do senhorio e atravessou a neve suja, coberta de lixo, até a cabana que ficava um pouco afastada. Seu rosto estava magro, sua tosse não era nada boa. Ela bateu na porta e depois entrou.
— Alô, Johnny, Como você se sente? Melhorou um pouco?
— Estou bem — ele disse. Mas não estava.
A primeira noite eles tinham passado numa caverna não muito longe dali, encolhidos, tremendo de frio.
— Não podemos ficar aqui, Azadeh — ele dissera ao amanhecer. — Vamos morrer congelados. Vamos ter que tentar a base.
Eles tinham caminhado através da neve e observado às escondidas. Viram os dois mecânicos e até Nogger Lane de vez em quando — e o 206 — mas havia homens armados por toda a base. Dayati, o gerente da base, tinha se mudado para a cabana de Azadeh e Erikki — ele, sua mulher e seus filhos.
— Filhos e filhas de um cão — Azadeh sibilou, vendo a mulher usando um par de botas suas. — Talvez pudéssemos nos esgueirar para as cabanas dos mecânicos. Eles nos protegerão.
— Eles só andam escoltados; eu aposto que eles são vigiados até de noite. Mas quem são os guardas, são Faixas Verdes, são os homens do khan, quem são?
— Eu não conheço nenhum deles, Johnny.
— Eles estão atrás de nós — disse, sentindo-se muito deprimido, sofrendo muito com a morte de Gueng. Tanto Gueng quanto Tenzing estavam com ele desde o começo. E tinha havido Rosemont. E agora Azadeh. — Mais uma noite desabrigados e estamos fritos.
— A nossa aldeia, Johnny. Abu Mard. Ela pertence à nossa família há mais de um século. Eles são leais, eu sei que são. Nós estaríamos seguros lá por um dia ou dois.
— Com a minha cabeça a prêmio? E a sua também? Eles mandariam avisar ao seu pai.
— Eu pediria a eles para não fazerem isso. Eu diria que os soviéticos estavam tentando raptar-me e que você estava me ajudando. Isso é verdade. Eu diria que precisamos nos esconder até o meu marido voltar. Ele sempre foi muito popular, Johnny, os seus vôos de emergência salvaram muitas vidas ao longo dos anos.
Ele a olhou, pensando numa dúzia de contras.
— A aldeia fica na estrada, quase na beira da estrada e...
— Sim, é claro que você tem toda a razão e faremos o que você achar melhor, mas a aldeia se estende para dentro da floresta. Nós poderíamos nos esconder lá. Ninguém esperaria isso.
Ele percebeu-lhe o cansaço.
— Como você se sente? Você se sente forte?
— Não me sinto forte, mas estou bem.
— Nós poderíamos pegar uma carona, seguir adiante mais algumas milhas. Teríamos que evitar as barreiras, é muito menos perigoso do que a aldeia, o que acha?
— Eu... eu preferia não ir. Eu poderia tentar. — Ela hesitou e depois disse: — Eu preferia não ir, hoje não. Você vai. Eu fico esperando. Erikki pode voltar hoje.
— E se ele não voltar?
— Eu não sei. Vai você.
Ele tornou a olhar para a base. Um ninho de víboras. Era suicídio ir para lá. De onde eles estavam, numa elevação, ele podia divisar a estrada principal. Ainda havia homens vigiando a barreira — ele supunha que fossem Faixas Verdes e a polícia — uma fila de automóveis estava parada, esperando para deixar a área. Ninguém vai nos dar uma carona agora, pensou, a não ser que seja para receber a recompensa.
— Você vai para a aldeia. Eu vou esperar na floresta.
— Sem você, eles simplesmente me devolverão a meu pai. Eu os conheço, Johnny.
— Talvez eles traiam você de qualquer jeito.
— Seja como Deus quiser. Mas nós poderíamos conseguir um pouco de comida e de calor, talvez até uma noite de descanso. Ao amanhecer, nós poderíamos fugir. Talvez possamos conseguir um carro ou um caminhão com eles. O calênder tem um velho Ford. — Ela abafou um bocejo. Os homens armados não estavam muito longe. Era mais do que provável que houvesse patrulhas na floresta. Ao ir para lá eles tiveram que fazer um desvio para evitar uma. A aldeia é uma loucura, pensou. Rodear a barreira vai levar horas à luz do dia, e de noite... mas nós não podemos passar outra noite ao relento.