— Vamos para a aldeia — disse.
E eles foram, no dia anterior, e Mustafá, o calênder, escutara a história dela e evitara olhar para Ross. A notícia da chegada deles tinha corrido de boca em boca e em poucos minutos toda a aldeia sabia, e essas notícias foram somadas a outras, sobre a recompensa oferecida pelo Sabotador e raptor da filha do khan. O calênder tinha dado à Ross uma cabana de um só cômodo com chão de terra e velhos tapetes. A cabana ficava bem afastada da estrada, do outro lado da aldeia, e ele notou os olhos de aço, os cabelos emaranhados e a barba pontuda, e também sua carabina, o kookri e a mochila cheia de munição. Ele convidou Azadeh para ficar na sua casa. Era uma cabana de dois cômodos. Não tinha eletricidade nem água corrente. A vala era o banheiro.
Ao anoitecer, uma velha levara comida quente e uma garrafa de água para Ross.
— Obrigado — ele agradeceu, com a cabeça doendo e já com febre. — Onde está Sua Alteza? — A mulher deu de ombros. Ela era corpulenta, com a cara marcada de varíola e cacos marrons de dentes. — Por favor, peça-lhe para me receber.
Mais tarde, mandaram chamá-lo. Na casa do chefe, vigiado pelo chefe, sua esposa, alguns dos seus filhos e uns poucos anciãos, ele cumprimentou Azadeh cautelosamente — como um estranho cumprimentaria um nobre. Ela estava usando o chador evidentemente, e estava ajoelhada sobre tapetes virados para a porta. Seu rosto tinha uma palidez amarelada, doentia, mas ele achou que poderia ser da luz da lamparina.
— Salaam, Alteza, a senhora está bem de saúde?
— Salaam, aga, sim, obrigada, e o senhor?
— Estou com um pouco de febre, eu acho.
Ela viu os seus olhos se levantarem do tapete por um instante.
— Eu tenho remédio. O senhor está precisando?
— Não. Não, obrigado.
Com tantos olhos e ouvidos atentos, o que ele queria dizer era impossível.
— Talvez eu possa cumprimentá-la amanhã — disse. — Que a paz esteja com a senhora, Alteza.
— E com o senhor também.
Ele levara algum tempo para dormir. E ela também. A aldeia despertou ao amanhecer, as fornalhas foram atiçadas, as cabras ordenhadas, o horisht de legumes foi posto para cozinhar — com pouca coisa para torná-lo mais nutritivo, exceto um pedaço de galinha, em algumas cabanas um pedaço de cabrito ou carneiro, a carne velha, dura, rançosa. Tigelas de arroz, mas nunca em número suficiente. Comiam duas vezes por dia nas épocas melhores, de manhã e antes do anoitecer. Azadeh tinha dinheiro e pagou pela sua comida. Isso não passou despercebido. Ela pediu que fosse colocada uma galinha inteira no horisht da noite para ser partilhada por todos da casa e pagou por isso. O que também não passou despercebido.
Antes do anoitecer, ela disse:
— Agora eu vou levar comida para ele.
— Mas, Alteza, não está certo a senhora servi-lo — disse a esposa do calênder. — Eu carrego as tigelas. Podemos ir juntas se a senhora quiser.
— Não, é melhor que eu vá sozinha porq...
— Deus nos proteja, Alteza. Sozinha? Ver um homem que não é seu marido? Oh, não, isto seria escandaloso, isto seria muito escandaloso. Venha. Eu carrego.
— Ótimo. Obrigada. Seja como Deus quiser. Na noite passada ele disse que estava com febre. Pode ser a peste. Eu sei que os infiéis carregam doenças ruins a que não estamos acostumados. Eu só queria poupá-la de uma provável agonia. Obrigada por me poupar.
Na noite anterior todo mundo vira o filete de suor no rosto do infiel. Todo mundo sabia como os infiéis eram maus, a maioria deles adoradores de Satã e feiticeiros. Quase todo mundo acreditava secretamente que Azadeh tinha sido enfeitiçada, primeiro pelo Gigante da Faca, e agora outra vez pelo Sabotador.
Silenciosamente, a mulher do chefe entregara as tigelas a Azadeh e ela caminhou através da neve.
Agora ela o olhava na semi-escuridão do quarto, que tinha como janela um buraco na parede de barro, sem vidro, coberto apenas por um saco. O ar estava pesado com o cheiro de urina e lixo da vala lá fora.
— Coma, coma enquanto está quente. Eu não posso ficar muito tempo.
— Você está bem? — Ele estivera deitado sob o único cobertor, inteiramente vestido, cochilando, mas agora sentava-se com as pernas cruzadas e alerta. A febre diminuíra um pouco com a ajuda de remédios que ele trazia no estojo de primeiros socorros, mas seu estômago estava embrulhado. — Você não parece muito bem.
— Nem você. — ela sorriu. — Eu estou bem. Coma.
Ele estava com muita fome. A sopa era rala, mas ele sabia que isso era melhor para o seu estômago. Sentiu outro espasmo começando mas controlou-o e passou.
— Você acha que poderíamos fugir? — disse, entre uma colherada e outra, tentando comer devagar.
— Você poderia, eu não.
Enquanto cochilava durante o dia, tentando recuperar as forças, ele tinha tentado fazer um plano. Uma vez tentara sair da aldeia caminhando. Apareceram cem olhos em cima dele, todo mundo vigiando. Ele foi até o final da aldeia e depois voltou. Mas tinha visto o velho caminhão.
— E quanto ao caminhão?
— Eu perguntei ao chefe. Ele disse que estava enguiçado. Não sei se estava mentindo ou não.
— Não podemos ficar aqui por muito mais tempo. Uma patrulha vai acabar aparecendo. Ou o seu pai vai ouvir falar sobre nós ou então alguém vai contar a ele. A nossa única esperança é fugir.
— Ou seqüestrar o 206 junto com Nogger.
— Com todos aqueles homens lá?
— Uma das crianças me contou que eles voltaram para Tabriz hoje.
— Você tem certeza?
— Não tenho certeza, Johnny. — Uma onda de ansiedade invadiu-a. — Mas não há nenhum motivo para a criança mentir. Eu... eu costumava ensinar aqui antes de me casar. Eu fui a única professora que eles jamais tiveram e sei que eles gostavam de mim. A criança disse que só ficaram um ou dois lá. — Ela sentiu mais um arrepio de frio que a enfraqueceu. Tantas mentiras, tantos problemas nas últimas semanas, pensou. Foram apenas semanas? Tanto terror desde que Rakoczy e o mulá irromperam na nossa sauna. Está tudo tão difícil agora. Erikki, onde está você? Ela teve vontade de gritar, onde está você?
Ele terminou a sopa e o arroz e catou o último grão, pesando os prós e os contras, tentando planejar. Ela estava ajoelhada em frente e ele viu o seu cabelo emaranhado, a sua sujeira, a sua exaustão e a sua gravidade.
— Pobre Johnny — ela murmurou e tocou-o. — Eu não lhe trouxe muita sorte, trouxe?
— Não seja boba. Nada disso é culpa sua. — Ele sacudiu a cabeça. — Nada disso. Ouça, nós vamos fazer o seguinte: vamos ficar aqui esta noite. Amanhã, assim que clarear, vamos sair daqui. Vamos tentar a base; se isto não funcionar, então pegamos uma carona. Você tenta fazer o chefe nos ajudar mantendo a boca fechada, a mulher dele também. Os resto dos aldeões deve se comportar se ele mandar, pelo menos para nos dar uma chance. Prometa-lhes uma grande recompensa quando as coisas estiverem normais de novo, e olhe aqui... — Ele enfiou a mão no esconderijo da sua mochila, encontrou as rúpias de ouro, dez delas. — Dê-lhe cinco e guarde as outras cinco para uma emergência.
— Mas... mas e quanto a você? — perguntou, com os olhos arregalados e mais esperançosa com tanto pishkesh potencial.
— Eu tenho mais dez — disse, mentindo com facilidade. — Fundos de emergência, cortesia do governo de Sua Majestade.
— Oh, Johnny, eu acho que agora temos uma chance. Isso é muito dinheiro para eles.
Os dois olharam pela janela quando começou a ventar, levantando o saco que cobria a janela. Ela se levantou e ajustou o saco o melhor que pôde. Mas não conseguiu cobrir toda a abertura.
— Não tem importância — ele disse. — Venha cá e sente-se. — Ela obedeceu, sentando-se mais perto dele. — Tome. Por via das dúvidas. — Ele lhe entregou a granada. — Abaixe a alavanca, tire o pino, conte até três e atire. Três, não quatro.
Ela balançou a cabeça, levantou o chador e guardou a granada num dos bolsos da sua jaqueta de esqui. Suas calças de esqui estavam enfiadas nas botas.