— Obrigada. Agora eu me sinto melhor. Mais segura. — Involuntariamente, ela o tocou e desejou que não o tivesse feito, pois sentiu o seu fogo. — É... é melhor eu ir. Vou trazer-lhe comida assim que clarear. Depois partiremos.
Ele se levantou e abriu a porta. Lá fora estava escuro. Nenhum dos dois viu a figura se afastando da janela, mas os dois sentiram olhos observando-os de toda a parte.
— E quanto a Gueng, Johnny? Você acha que ele vai nos encontrar?
— Ele estará vigiando, esteja onde estiver. — Ele sentiu um novo espasmo começando. — Boa noite, durma bem.
— Durma bem.
Eles sempre diziam isso um para o outro nos velhos tempos. Seus olhos se trocaram bem como os seus corações e os dois se sentiram aquecidos e ao mesmo tempo cheios de pressentimentos. Então ela se virou, ficando imediatamente invisível por causa do chador escuro. Ele viu a porta da cabana do chefe se abrir, ela entrou e fechou a porta. Ele ouviu um caminhão subindo a estrada não muito longe, depois um carro buzinando, que passou e logo se afastou. O espasmo veio e foi muito forte e ele vomitou. A dor foi muito intensa, mas foi pouco o que ele pôs para fora e se sentiu agradecido por Azadeh já ter ido embora. Ele agarrou um pouco de neve com a mão esquerda e se limpou. Ainda havia olhos observando-o, de todos os lados. Filhos da mãe, pensou, depois tornou a entrar na cabana e se sentou no grosseiro colchão de palha.
Na escuridão, ele lubrificou o kookri. Não havia necessidade de afiá-lo. Já tinha feito isso mais cedo. Luzes refletiam-se na lâmina. Dormiu com ele fora da bainha
NO PALÁCIO DO KHAN: 23:19H. O médico segurava o pulso do khan e tornou a checá-lo.
— O senhor precisa descansar bastante, Alteza — disse, preocupado — e tomar uma pílula destas de três em três horas.
— De três em três horas... está bem. — disse Abdullah Khan, com a voz fraca e respirando com dificuldade. Ele estava apoiado em almofadas na cama que fora feita sobre espessos tapetes. Ao lado da cama estava Najoud, sua filha mais velha, de 35 anos, e Aysha, sua terceira esposa, de 17. As duas mulheres estavam pálidas. Havia dois guardas na porta e Ahmed estava ajoelhado ao lado do médico. — Agora... deixe-me.
— Eu voltarei ao amanhecer com uma ambulância e...
— Nada de ambulância! Eu vou ficar aqui! — O rosto do khan ficou vermelho, e a dor atravessou-lhe o peito. Eles o observaram, mal respirando. Quando conseguiu falar, ele disse com voz rouca: — Eu vou ficar... aqui.
— Mas Alteza, o senhor já teve um ataque cardíaco, graças a Deus um ataque leve — o médico disse com a voz fraquejando. — Não se sabe quando o senhor poderia ter... eu não tenho nenhum equipamento aqui; o senhor precisa de tratamento urgente e de observação.
— Qualquer... qualquer coisa que o senhor precisa, traga para cá. Ahmed, providencie isto.
— Sim, Alteza. — Ahmed olhou para o médico.
O médico guardou o estetoscópio e o aparelho de pressão na sua maleta antiquada. Na porta, ele tornou a calçar os sapatos e saiu. Najoud e Ahmed o seguiram. Aysha hesitou. Ela era pequenina, estava casada há dois anos e tinha um filho e uma filha. O rosto do khan tinha uma palidez doentia e sua respiração era difícil. Ela se ajoelhou perto dele e pegou-lhe a mão, mas ele a empurrou com raiva, esfregando o peito, xingando-a. O medo dela aumentou.
Lá fora no hall, o médico parou. Seu rosto era velho e enrugado, mais velho do que sua idade, seu cabelo era branco.
— Alteza — disse para Najoud —, era melhor ele estar num hospital. Tabriz não serve. Teerã seria muito melhor. Ele deveria ir para Teerã, embora a viagem até lá possa... Teerã é melhor do que aqui. A pressão dele está muito alta, tem estado alta há anos mas, bem, seja como Deus quiser.
— Qualquer coisa que o senhor precise, nós podemos trazer — disse Ahmed.
O médico retrucou, zangado.
— Idiota, eu não posso trazer uma sala de operação, mais um dispensário e um ambiente esterilizado para cá.
— Ele vai morrer? — perguntou Najoud, com os olhos arregalados.
— Quando Deus quiser, só quando Deus quiser. A pressão dele está alta demais... eu não sou mágico e nós temos poucos recursos. Você tem idéia do que causou o ataque? Houve alguma discussão ou algo assim?
— Não, não houve nenhuma discussão, mas foi Azadeh com certeza. Foi ela de novo, aquela minha meia-irmã. — Najoud começou a torcer as mãos.
— Foi ela, fugindo com o Sabotador ontem de manhã, foi..
— Que Sabotador? — O médico perguntou estarrecido.
— O Sabotador que todo mundo está procurando, o inimigo do Irã. Mas eu tenho certeza que ele não a raptou, eu tenho certeza que ela fugiu com ele. Como ele poderia raptá-la de dentro do palácio? Foi ela que causou toda a raiva de Sua Alteza. Nós estamos todos aterrorizados desde ontem de manhã.
Bruxa idiota! pensou Ahmed. A explosão de ódio foi por causa dos homens de Teerã, Hashemi Fazir e o infiel que falava farsi, e o que eles pediram para o meu mestre fazer e ele concordou. Uma coisa tão insignificante, entregar-lhes um soviético, um pretenso amigo que era um inimigo, isso certamente não é motivo para explodir. Foi esperteza do meu mestre dar início às coisas: depois de amanhã o desgraçado vem para o lado de cá da fronteira e vai cair na teia e os dois inimigos de Teerã vão voltar e também vão cair na teia. O meu mestre vai decidir logo e então eu vou agir. Enquanto isso, Azadeh e o Sabotador estão seguros na aldeia, conforme meu mestre deseja — o chefe mandou-lhe um recado assim que eles chegaram lá. Poucos homens na terra são tão espertos quanto Abdullah Khan e só Deus vai decidir quando ele deve morrer, não este cão deste médico.
— Vamos indo — ele disse. — Por favor, perdoe-me, Alteza, mas nós temos que apanhar uma enfermeira e remédios e alguns equipamentos. Doutor, temos que nos apressar.
A porta no final do corredor se abriu. Aysha estava ainda mais pálida.
— Ahmed, Sua Alteza quer falar um instante com você.
Quando estavam a sós, Najoud segurou o médico pela manga e murmurou:
— Qual é a gravidade do estado de Sua Alteza? O senhor precisa dizer-me a verdade. Eu tenho que saber.
O médico levantou as mãos, impotente.
— Eu não sei, não sei. Eu venho esperando pelo pior há mais de um ano. O ataque foi leve. O próximo pode ser definitivo ou não, dentro de uma hora ou de um ano, eu não sei.
Najoud estivera em pânico desde que o khan desmaiara há duas horas atrás. Se o khan morresse, então Hakim, irmão de Azadeh, seria o seu herdeiro legítimo — os dois irmãos de Najoud tinham morrido na infância. O filho de Aysha ainda não tinha um ano. O khan não tinha nenhum irmão vivo, então o seu herdeiro seria Hakim. Mas Hakim caíra em desgraça e fora deserdado, logo teria que haver um regente. O seu marido, Mahmud, era o mais velho dos genros. Ele seria o regente, a menos que o khan determinasse outra coisa.
Por que ele determinaria outra coisa? pensou, sentindo mais uma vez um buraco no estômago. O khan sabe que eu dirijo o meu marido e fortaleço a todos nós. O filho de Aysha — ora, uma criança doentia, tão doentia quanto a mãe. Seja como Deus quiser, mas os bebês costumam morrer. Ele não é uma ameaça, mas Hakim — Hakim é.
Ela se lembrou de ter ido procurar o khan quando Azadeh voltou da escola na Suíça:
— Pai, eu lhe trago más notícias, mas o senhor precisa saber a verdade. Eu ouvi Hakim e Azadeh conversando. Alteza, ela contou a ele que ficou grávida, mas tirou o filho com a ajuda de um médico.
— O quê?
— Sim... eu a ouvi dizer isso.
— Azadeh não seria capaz... Azadeh não poderia ter feito uma coisa dessas!
— Pergunte a ela. Por favor, não diga quem lhe contou, mas pergunte a ela diante de Deus, pergunte a ela, faça com que um médico a examine, mas espere, isso não é tudo. Contra a sua vontade, Hakim está resolvido a tornar-se pianista e disse a ela que vai fugir e pediu a Azadeh para ir com ele para Paris. "Então você poderá casar-se com o seu amante", ele disse, mas ela disse, Azadeh disse: "Papai vai trazê-lo de volta, ele vai nos obrigar a voltar. Ele nunca nos deixará partir sem a sua permissão, nunca." Então Hakim disse: "Eu irei. Não vou ficar aqui e desperdiçar a minha vida. Eu irei!" E ela disse novamente: "Papai nunca permitirá isso, nunca." "Então é melhor que ele morra", disse Hakim e ela disse: "Eu concordo”.