— Eu... eu não acredito nisso!
Najoud recordou o rosto dele ficando roxo e o terror que ela sentiu.
— Diante de Deus. Eu os ouvi dizendo isso, Alteza, diante de Deus. Então eles disseram que precisavam fazer um plano, nós... — Ela se encolhera quando ele gritou com ela, ordenando-lhe que contasse exatamente o que eles tinham dito.
— Ele disse exatamente, Hakim disse: "Um pouco de veneno no seu halvah, ou numa bebida, podemos subornar um criado, talvez possamos subornar um dos seus guardas para matá-lo ou poderíamos deixar os portões abertos de noite para os assassinos... há centenas de maneiras para que qualquer um dos seus milhares de inimigos faça isso por nós, todo mundo o odeia. Nós precisamos refletir e ter paciência..."
Fora fácil para ela lançar o seu veneno, inventando cada vez mais mentiras, até que em pouco tempo ela própria estava acreditando nelas — mas não inteiramente.
Deus vai me perdoar, disse a si mesma, como costumava dizer sempre. Deus vai me perdoar. Azadeh e Hakim sempre nos odiaram, e a todo o resto da família, sempre quiseram nos ver mortos, banidos, para ficar com a nossa herança, eles e aquela bruxa da mãe deles que lançou um feitiço sobre papai para que ele nos virasse o rosto por tantos anos. Oito anos ele ficou sob o feitiço dela — Azadeh isso, Azadeh aquilo, Hakim isso, Hakim aquilo. Por oito anos ele nos ignorou e a nossa mãe, sua primeira esposa, não tomou nenhum conhecimento de mim, casou-me displicentemente com esse idiota, Mahmud, esse fedorento, impotente, mau, roncador, e arruinou a minha vida. Espero que o meu marido morra, comido pelos vermes, mas não antes de se tornar khan para que o meu filho possa ser khan depois dele.
Papai precisa livrar-se de Hakim antes de morrer. Que Deus o mantenha vivo para fazer isso — ele tem que fazer isso antes de morrer — e Azadeh tem que ser humilhada, expulsa, destruída também — melhor ainda, apanhada em adultério com o Sabotador, oh sim, então a minha vingança estará completa.
SEXTA-FEIRA
23 de fevereiro
PERTO DE TABRIZ UM, NA ALDEIA DE ABU MARD: 6:17H. Ao amanhecer, o rosto de outro Mahmud, o mulá marxista-islâmico, estava contorcido de raiva.
— Você se deitou com este homem? — gritou. — Diante de Deus, você se deitou com ele?
Azadeh estava de joelhos diante dele, apavorada.
— O senhor não tem nenhum direito de invadir...
— Você se deitou com este homem?
— Eu... eu sou fiel ao meu... meu marido — ela gaguejou. Há poucos segundos atrás, ela e Ross estavam sentados nos tapetes da cabana, comendo apressadamente a refeição que ela trouxera, felizes juntos, prontos para partir imediatamente. O chefe aceitara com humildade e gratidão o pishkesh, quatro rúpias de ouro para ele e uma dada em segredo à sua esposa, e dissera a eles para escaparem da aldeia pelo lado da floresta assim que terminassem de comer, abençoando-a. Então a porta fora aberta com violência, estranhos tinham entrado, dominando-os e arrastando-os para fora, atirando-a aos pés de Mahmud e imobilizando Ross.
— Eu sou fiel, eu juro, eu sou fi...
— Fiel? Por que você não está usando o chador! — Ele gritara para ela, com quase toda a aldeia reunida em volta deles, em silêncio e com medo. Uma meia dúzia de homens armados apoiavam-se nas suas armas, dois dominavam Ross, que estava deitado de bruços na neve, inconsciente, com sangue escorrendo da testa.
— Eu estava... eu estava usando o chador mas eu... eu o tirei enquanto estava comendo...
— Você tirou o seu chador numa cabana com a porta fechada enquanto comia com um estranho? O que mais você tinha tirado?
— Nada, nada — disse mais apavorada ainda, apertando o seu casaco em volta do corpo. — Eu só estava comendo e ele não é um estranho, mas um velho amigo... um velho amigo do meu marido — ela se corrigiu apressadamente, mas o mulá havia notado a hesitação. — Abdullah Khan é meu pai e o senhor não tem nenhum direito...
— Velho amigo? Se você não é culpada, não tem nada a temer! Diante de Deus, você se deitou com ele? Jure!
— Calênder, mande chamar o meu pai, mande chamá-lo! — O calênder não se moveu. Todos os olhos estavam presos nela. Sem poder fazer nada, ela viu o sangue na neve, o seu Johnny gemendo, voltando a si. — Eu juro por Deus que sou fiel ao meu marido! — Ela gritou. O grito atingiu a todos eles e entrou na consciência de Ross e o fez acordar.
— Responda à pergunta, mulher! É sim ou não? Em nome de Deus, você se deitou com ele? — O mulá estava em pé, debruçado sobre ela como um corvo agourento, os aldeões esperando, todo mundo esperando, as árvores e o vento esperando... até mesmo Deus.
— Insha'Allah!
O medo a abandonou. Em seu lugar ficou o ódio. Ela encarou Mahmud enquanto se levantava. — Em nome de Deus, eu sou e sempre fui fiel ao meu marido — ela declarou. — Em nome de Deus, sim, eu amei este homem, há muitos anos atrás.
Suas palavras fizeram estremecer muitos dos que estavam lá e Ross ficou perplexo por ela ter admitido isso.
— Meretriz! Mulher perdida! Você admite abertamente a sua culpa. Você será punida de acordo com...
— Não — Ross gritou para ele. Ele se ajoelhou e embora os dois mujhadins tivessem armas apontadas para a sua cabeça, ele os ignorou. — Não foi culpa de Sua Alteza. O culpado sou eu, só eu, só eu!
— Você será punido, infiel, não se preocupe — disse Mahmud, depois voltou-se para os aldeões. — Todos vocês ouviram a meretriz admitir fornicação, todos vocês ouviram o infiel admitir fornicação. Para ela só existe um castigo. Para o infiel... o que deve acontecer com o infiel?
Os aldeões esperaram. O mulá não era o mulá deles, nem da aldeia, nem era um mulá verdadeiro, mas um marxista-islâmico. Ele viera sem ser convidado. Ninguém sabia por que ele viera, só que ele aparecera subitamente como a fúria de Deus, junto com os esquerdistas, que também não eram da aldeia.
Não eram xiitas verdadeiros, apenas loucos. O imã não dissera cinqüenta vezes que todos esses homens eram loucos, que só fingiam servir a Deus, secretamente adorando o Satã Marx-Lenin?
— Bem? Ele deve partilhar do castigo dela?
Ninguém respondeu. O mulá e seus homens estavam armados.
Azadeh sentiu todos os olhos cravados nela, mas não conseguiu mais se mover nem falar. Ela ficou lá em pé, com os joelhos tremendo, as vozes distantes, até mesmo a de Ross gritando:
— Vocês não têm nenhum direito de julgar a ela nem a mim. Vocês estão desafiando a Deus... — um dos homens lhe deu um empurrão brutal que o fez cair no chão e depois pôs a bota no pescoço dele, imobilizando-o.
— Vamos castrá-lo e terminar com isso — disse o homem e outro retrucou:
— Não, foi a mulher que o tentou. Eu a vi levantar o chador para ele na cabana na noite passada. Olhe para ela agora, tentando-nos a todos. O castigo para ele não são cem chibatadas?
— Ele pôs as mãos nela, cortem as mãos dele — disse um outro.
— Ótimo — concordou Mahmud. — Primeiro as mãos, depois o chicote. Amarrem-no!
Azadeh tentou gritar contra esta maldade, mas nenhum som saiu da sua garganta, o sangue batia nos seus ouvidos, seu estômago estava revirado, sua mente confusa, enquanto eles arrastavam o seu Johnny, lutando e esperneando, para amarrá-lo com os braços e as pernas abertas entre duas estacas — lembrando-se de quando ela e Hakim eram crianças e ele, cheio de audácia, apanhara uma pedra e atirara no gato, e o gato tinha berrado enquanto rolava no chão, ferido, e tentava fugir, berrando o tempo todo até que um guarda atirara nele, mas agora... agora ela sabia que ninguém iria atirar nela. Ela se jogou em cima de Mahmud, com as unhas de fora, mas perdeu as forças e desmaiou.