A base estava paralisada, mas havia homens correndo em direção a ela, vindos da barreira. Perto do helicóptero, Lane e o mecânico ainda estavam imóveis na neve. Correu para eles, procurando proteger-se.
Nogger Lane e o mecânico Arberry o viram chegando e ficaram apavorados — o maníaco nativo, fedayim ou mujhadin, de barba pontuda, cabelos desgrenhados e olhos selvagens, que falava um inglês perfeito, cujas mãos estavam manchadas de sangue da cabeça que há poucos instantes eles o viram arrancar de um único golpe e com um urro alucinado, a faca manchada de sangue ainda nas mãos, outra na bainha, a carabina na outra mão. Eles ficaram de joelhos, com as mãos para cima.
— Não nos mate. Nós somos amigos, civis, não nos ma...
— Calem a boca! Preparem-se para decolar. Rápido! — Nogger Lane ficou estarrecido.
— O quê?
— Pelo amor de Deus, ande logo! — Ross disse zangado, furioso peio pavor do rosto deles, completamente esquecido da sua própria aparência. — Você — ele apontou para o mecânico com a faca de Gueng. — Você está vendo aquela elevação ali?
— Sim... sim, senhor — Arberry respondeu.
— Vá até lá o mais depressa que puder, há uma moça lá, traga-a até aqui... — Ele parou ao ver Azadeh sair da beirada da floresta e começar a correr pela colina em direção a eles. — Esqueça, vá buscar o outro mecânico, depressa pelo amor de Deus, os filhos da mãe da barreira estarão aqui a qualquer momento
— Vá, ande! — Arberry saiu correndo, apavorado, mas mais apavorado ainda com os outros homens que podia ver vindo pela estrada. Ross virou-se para Nogger Lane: — Eu lhe disse para ligar o motor.
— Sim... sim senhor... aquela... aquela mulher... não é Azadeh, a Azadeh de Erikki, é?
— Sim. Eu lhe disse para ligar os motores.
Nogger Lane nunca decolou com um 206 tão depressa, nem os mecânicos nunca correram tanto. Azadeh ainda tinha que atravessar uns cem metros e os inimigos já estavam muito perto. Então Ross se abaixou sob as hélices e se pôs entre ela e eles, esvaziando a arma na direção deles. Eles abaixaram as cabeças e se espalharam, e ele atravessou o espaço vazio na direção deles com um berro. Algumas cabeças se levantaram. Mais uma rajada de balas e mais outra, economizando munição, fez com que eles conservassem as cabeças baixas, Azadeh se aproximando agora, mas mais devagar. Ela conseguiu fazer um último esforço e passou por ele, cambaleando em direção à cabine, sendo puxada para dentro pelos mecânicos. Ross tornou a atirar, recuando, pulou para o assento da frente e eles subiram.
BASE AÉREA DE KOWISS: 17:20H. Starke pegou a carta que tinha recebido e olhou para ela. O ás de espadas. Ele resmungou, supersticioso como a maioria dos pilotos, mas colocou-a na mão junto com as outras cartas. Os cinco estavam no seu bangalô, jogando pôquer: Freddy Ayre, Doe Nutt, Pop Kelly e Tom Lochart, que chegara de Zagros Três na véspera com mais um carregamento de peças, prosseguindo com a evacuação, mas tarde demais para a volta. Por causa da ordem proibindo vôos hoje, dia santo, ele estava retido lá até a madrugada do dia seguinte. Havia fogo na lareira, a tarde estava fria. Em frente a eles havia uma pilha de dinheiro, a maior era de Kelly, a menor de Doe Nutt.
— Quantas cartas, Pop? — perguntou Ayre.
— Uma — Kelly disse sem hesitação, descartou e colocou as quatro que conservara na mesa, viradas para baixo. Ele era um homem alto, magro, com o rosto enrugado, cabelos louros e ralos, ex-RAF e com cerca de quarenta anos. Seu apelido era 'Pop' porque ele tinha sete filhos e mais um a caminho.
Ayre entregou-lhe a carta fazendo um floreio. Kelly simplesmente olhou-a por um momento, depois, sem virá-la, misturou-a vagarosamente com as outras e, com muito cuidado e bem devagar, levantou as cartas, deu uma olhadinha no canto direito de cada carta e suspirou alegremente.
— Merda! — disse Ayre e todos riram. Exceto Lochart, que olhava sombriamente para as suas cartas. Starke franziu a testa, preocupado com ele mas muito contente de que estivesse lá. Havia a mensagem secreta de Gavallan, que Jonh Hogg trouxera no 125, para ser discutida.
— Eu abro com mil riais — disse Doe Nutt e todo mundo o olhou. Normalmente, ele apostava no máximo cem riais.
Distraidamente, Lochart estudou as suas cartas, sem muito interesse no jogo, com a mente em Zagros e em Xarazade. Na noite anterior, a BBC tinha relatado grandes agitações durante as marchas de protesto das mulheres em Teerã, Isfahan e Meshed, com novas marchas marcadas para hoje e amanhã.
— É muito para mim — ele disse, e jogou as cartas na mesa.
— Eu vou, Doe, e aumento para dois mil — disse Starke e a confiança de Doe Nutt desapareceu. Nutt tinha pedido duas cartas, Starke uma e Ayre três.
Kelly olhou para a sua seqüência, de quatro a oito.
— Os seus dois mil, Duke, e aumento para três mil.
— Desisto — disse Ayre, na mesma hora, atirando na mesa dois pares, de reis e dez.
— Desisto — disse Doe Nutt, com um suspiro de alívio, chocado consigo mesmo por ter sido tão ousado e atirou na mesa as três damas que recebera, certo de que Starke tinha uma seqüência, um flush ou um full.
— Os seus três mil, Pop e aumento para trinta... mil — disse Starke, suavemente, sentindo-se bem por dentro. Ele desistira de um par de seis para manter quatro copas, tentando um flush. Com o ás de espadas tinha apenas um flush incompleto, mas que se tornaria uma mão vitoriosa caso pudesse blefar e fazer Kelly recuar.
Todos os olhos estavam em Kelly. O aposento estava silencioso. Até Lochart ficou interessado.
Starke esperou pacientemente, controlando o rosto e as mãos, inquieto com o ar de confiança que cercava Kelly e imaginando o que faria se Kelly tornasse a aumentar a aposta, sabendo o que Manuela diria se descobrisse que ele estava disposto a colocar uma semana de salário num flush incompleto.
Ela ia ter um ataque, ele pensou e sorriu.
Kelly estava suando. Ele tinha visto o ligeiro sorriso de Starke. Já o apanhara blefando uma vez, mas isso fora há muitas semanas atrás e não por trinta mil, só por quatro. Não posso me arriscar a perder o salário de uma semana, mas esse sem-vergonha pode estar blefando. Alguma coisa me diz que o velho Duke está blefando e eu bem que estou precisando de um salário extra. Kelly tornou a verificar as cartas para ter certeza de que a sua seqüência era uma seqüência — é claro que é uma maldita seqüência, pelo amor de Deus, e Duke está blefando. E começou a dizer:
— Eu aceito os seus trinta mil — mas parou e disse: — Pode levar, Duke. — Jogou as cartas na mesa e todo mundo riu. Exceto Starke. Ele pegou o baralho e enfiou as cartas lá dentro e embaralhou para ter certeza de que não seriam vistas.
— Eu aposto como você estava blefando, Duke — disse Lochart e riu.
— Eu? Com um straight flush? — disse Starke, inocentemente, dando uma risadinha. Ele olhou as horas. — Eu tenho que fazer a ronda. Vamos parar e continuar depois do jantar, certo? Tom, você quer vir comigo?
— Claro. — Lochart vestiu o casaco e saiu com Starke.
Esta era a melhor hora do dia para eles em épocas normais — pouco antes de escurecer, todos os vôos terminados, todos os helicópteros lavados e reabastecidos, prontos para o dia seguinte, a expectativa de um drinque, tempo para ler um pouco, escrever algumas cartas, ouvir música, comer, ligar para casa e depois dormir.
A base estava em ordem.
— Vamos dar uma volta, Tom — disse Starke. Quando é que você vai voltar para Teerã?
— Que tal hoje à noite?
— Está mal, hein?
— Pior. Eu sei que Xarazade esteve na Marcha das Mulheres, embora eu tivesse dito a ela para não ir, além de tudo mais.
Na noite passada, Lochart contara a ele a respeito do pai dela, e tudo sobre a perda do HBC. Starke ficara estarrecido, ainda estava, e mais uma vez deu graças a Deus por não saber de nada quando foi levado para interrogatório por Hussein e seus Faixas Verdes.