— Mac já deve estar cuidando de Xarazade, Tom. Ele vai providenciar para que ela fique bem.
Quando Lochart chegou lá, eles conseguiram falar com McIver no HF, com a recepção boa para variar, e tinham pedido a ele para ver se ela estava bem. Dentro de poucos minutos, eles tornariam a fazer a sua única ligação diária para o QG em Teerã.
— As chamadas estão restritas, mas só até a situação se normalizar, então vocês poderão ligar quantas vezes quiserem. Dentro em breve — dissera o comandante da base, major Changiz. E embora eles estivessem monitorizados pela torre principal que ficava na base da Força Aérea, o vínculo mantinha a sanidade deles e dava uma aparência de normalidade.
— Depois que Zagros Três estiver vazio, no domingo, e vocês todos estiverem aqui, por que não levar o 206 logo cedo na segunda-feira? Eu vou arranjar isto com Mac — disse Starke.
— Obrigado, seria ótimo. — Agora que a sua base estava fechada, Lochart estava nominalmente sob o comando de Starke.
— Você já pensou em dar o fora, pilotar o 212 no lugar de Scot? Uma vez fora de Zagros ele deverá ficar em segurança. Ou melhor ainda, vocês dois partirem? Eu vou falar com Mac.
— Não, obrigado, Xarazade não pode deixar a família neste momento.
Eles continuaram a caminhar mais um pouco. A noite estava caindo depressa, fria mas seca, o ar cheirando a gasolina por causa da enorme refinaria que ficava ali perto e que ainda estava quase que totalmente desativada e às escuras, exceto pelas altas chaminés queimando gás de petróleo. Na base, as luzes já estavam acesas na maioria dos bangalôs, hangares e na cozinha — eles tinham os seus próprios geradores para o caso de faltar eletricidade na base. O major Changiz dissera a Starke que não havia mais nenhuma possibilidade do sistema de geradores da base ser prejudicado.
— A revolução já acabou, capitão, o imã está no governo
— E os esquerdistas?
— O imã ordenou que eles fossem eliminados a menos que se adaptassem ao nosso Estado islâmico — respondera o major Changiz, com voz dura e ameaçadora. — Esquerdistas, curdos, baha'is, estrangeiros, qualquer inimigo. O imã sabe o que fazer.
Imã. Foi a mesma coisa durante o interrogatório de Starke diante do komiteh de Hussein. Quasxi como se ele fosse um semideus, pensara Starke. Hussein fizera o papel de juiz e promotor e a sala, no prédio da mesquita, estava lotada de homens hostis de todas as idades, todos Faixas Verdes, cinco juizes — nenhum advogado.
— O que você sabe sobre a fuga dos inimigos do Islã de Isfahan, de helicóptero?
— Nada
Imediatamente, um dos outros quatro Juizes, todos jovens, rudes e quase analfabetos, disse:
— Ele é culpado de crimes contra Deus e de crimes contra o Irã por ser um explorador a serviço dos demônios americanos. Culpado.
— Não — atalhou Hussein. — Isto é um tribunal, um tribunal corânico. Ele está aqui para responder a perguntas, não para ser acusado de crimes, ainda não. Ele não é acusado de crime algum. Capitão, diga-nos tudo o que sabe sobre q crime de Isfahan.
O ar da sala era fétido. Starke não viu nem um rosto simpático e, no entanto, todos sabiam quem ele era, todos sabiam sobre a sua batalha contra os fedayins em Bandar Delam. E seu medo era como uma dor incômoda, por saber que estava sozinho agora, à mercê deles.
Tomou fôlego e escolheu as palavras cuidadosamente.
— Em nome de Deus, o misericordioso, o compassivo — disse, começando do jeito que começam todas as surás do Corão, e uma agitação de surpresa percorreu a sala. — Eu mesmo não sei de nada, não testemunhei nada, nem tive nada a ver com isso. Eu estava em Bandar Delam na ocasião. Pelo que eu saiba, nenhum dos meus homens teve nada a ver com isso. Eu só sei o que Zataki de Abadan me contou quando voltou de Isfahan. Ele disse exatamente o seguinte: "Nós ouvimos dizer que na terça-feira alguns partidários do xá, todos oficiais, fugiram para o sul num helicóptero pilotado por um americano. Que Deus amaldiçoe todos os adoradores de Satã." Foi só isso o que ele disse. Isto é tudo o que sei.
— Você é um adorador de Satã — interrompeu um dos outros juizes triunfantemente —, você é americano. Você é culpado.
— Eu sou um seguidor do Livro e já provei que não sou nenhum adorador de Satã. Se não fosse por mim muitos aqui nesta sala estariam mortos.
— Se nós tivéssemos morrido na base estaríamos agora no paraíso — gritou um Faixa Verde, zangado, lá do fundo da sala. — Nós estávamos fazendo o trabalho de Deus. Não tinha nada a ver com você, infiel — gritos de apoio. Subitamente, Starke soltou um urro de raiva.
— Por Deus e pelo Profeta de Deus — gritou — eu sou um seguidor do Livro e o Profeta nos concedeu privilégios e proteções especiais! — Ele estava tremendo de raiva, seu medo desaparecera, ele estava com ódio deste tribunal ilegal e da sua cegueira, estupidez, ignorância e intolerância. — O Corão diz; "Oh, Povo do Livro, não saia dos caminhos da verdade da sua religião; nem siga os desejos daqueles que já se perderam e que fizeram com que muitos outros se perdessem". Eu não o fiz — ele terminou com a voz áspera, erguendo o punho — e que Deus amaldiçoe aquele que disser o contrário.
Estarrecidos, todos ficaram olhando para ele, até Hussein.
Um dos juizes quebrou o silêncio.
— Você... você citou o Corão? Você lê árabe tão bem quanto fala farsi?
— Não, não, mas...
— Então você teve um professor, um mulá?
— Não, não, eu li...
— Então você é um feiticeiro! — Um outro gritou. — Como você pode conhecer o Corão se não teve professor nem sabe ler árabe, a língua sagrada do Corão?
— Eu o li em inglês, na minha própria língua.
O espanto e o descrédito foram maiores ainda, até que Hussein falou:
— O que ele diz é verdade. O Corão está traduzido em muitas línguas estrangeiras.
Espanto ainda maior. Um jovem olhou para ele com os olhos míopes por trás de lentes grossas e rachadas, com o rosto marcado de varíola.
— Se está traduzido em outras línguas, Excelência, por que não foi traduzido para o farsi para que pudéssemos ler — caso soubéssemos ler?
— A língua do Sagrado Corão é o árabe — disse Hussein. — Para conhecer direito o Sagrado Corão o crente tem que ler o árabe. Os mulás de todos os países aprendem árabe por este motivo. O Profeta, cujo nome seja louvado, era árabe, Deus falou com ele nesta língua para outros escreverem. Para conhecer verdadeiramente o Sagrado Corão, ele precisa ser lido da forma como foi escrito. — Hussein virou seus olhos negros para Starke. — Uma tradução fica sempre a dever ao original, não é verdade?
Starke notou a expressão estranha do mulá.
— Sim — disse, com a sua intuição dizendo-lhe para concordar. — Sim, sim, é verdade. Eu gostaria de poder lê-lo no original.
Houve outro silêncio. O jovem de óculos disse:
— Se você conhece tão bem o Corão que é capaz de citá-lo como se fosse um mulá, por que você não é muçulmano, por que não é um crente?
Uma agitação percorreu a sala. Starke hesitou, quase em pânico, sem saber como responder mas certo de que uma resposta errada o mandaria para a forca! O silêncio aumentou, então ele ouviu a própria voz dizendo:
— Porque Deus ainda não retirou a pele que cobre os meus ouvidos, nem abriu ainda o meu espírito — depois acrescentou involuntariamente: — Eu não resisto e espero. Espero pacientemente.
A atmosfera da sala mudou. Agora o silêncio era gentil. Compassivo. Hussein falou baixinho:
— Vá até o imã e sua espera estará terminada. O imã abriria o seu espírito para a glória de Deus. O imã abriria o seu espírito. Eu sei. Eu já me sentei aos pés do imã. Eu ouvi o imã pregando a Palavra, ensinando a Lei, espalhando a Calma de Deus. — Um suspiro percorreu a sala e agora todos estavam concentrados no mulá, observavam seus olhos e a luz que havia neles, percebiam a modificação da sua voz e o êxtase que havia nela. Até Starke se sentia abatido e ao mesmo tempo exaltado. — O imã não veio para abrir o espírito do mundo? O imã não apareceu no meio de nós para limpar o Islã da maldade e para espalhar o Islã pelo mundo, para carregar a mensagem de Deus... como foi prometido? O imã é.