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A palavra ficou soando na sala. Todos eles entenderam. E também Starke. Mahdi! ele pensou, disfarçando o seu choque. Hussein está dando a entender que Khomeini é, na realidade, o Mahdi, o legendário décimo-segundo imã que desapareceu há séculos e que os xiitas acreditam que esteja apenas oculto da vista humana — o Imortal, que Deus prometeu que reapareceria algum dia para reinar sobre um mundo perfeito.

Viu todos eles olhando para o mulá. Muitos balançando a cabeça, com as lágrimas rolando pelo rosto, todos enlevados e satisfeitos e nenhum cético no meio deles. Meu Deus, pensou, atônito, se os iranianos cobrirem Khomeini com este manto, o seu poder não terá limites, haverá vinte, trinta milhões de homens, mulheres e crianças desesperados para cumprir as suas ordens, que caminharão alegremente para a morte a um sinal dele — e por que não? Mahdi poderia garantir-lhes um lugar no paraíso, garantir!

— Deus é grande — disse alguém e outros repetiram e começaram a conversar entre si, guiados por Hussein, esquecidos de Starke. Finalmente, se lembraram dele e o deixaram partir, dizendo:

— Procure o imã, olhe e acredite...

Ao caminhar de volta para o acampamento, seus pés estavam estranhamente leves e ele agora recordava que o ar nunca lhe parecera tão perfumado, que nunca se sentira tão cheio da alegria de viver. Talvez seja porque eu estive muito perto da morte, pensou. Eu era um homem morto e de alguma forma recebi de volta o dom da vida. Por quê? E Tom, por que ele escapou de Isfahan, de Dez Dam e até o próprio HBC? Haverá uma razão? Ou foi apenas sorte?

E agora, no lusco-fusco, ele observava Lochart, muito preocupado com ele. Foi terrível o que houve com o HBC, terrível o que houve com o pai de Xarazade, terrível o beco sem saída em que ele e Xarazade se encontram. Em breve eles terão que escolher: irem juntos para o exílio, de onde provavelmente jamais poderão voltar — ou se separarem, provavelmente para sempre.

— Tom, existe algo de muito especial, muito secreto, só entre nós dois. Johnny Hogg trouxe uma carta de Andy Gavallan. — Eles estavam a uma distância segura da base, caminhando pela estrada, ao longo da cerca de arame farpado, e sem perigo de serem ouvidos. Mesmo assim, ele manteve a voz baixa. — Basicamente, Andy está muito pessimista com relação ao nosso futuro aqui e diz que está pensando em retirar tudo para diminuir o prejuízo.

— Não há necessidade disso — Lochart respondeu depressa, com uma certa impaciência. — As coisas vão voltar ao normal. Têm que voltar. Andy tem que fazer força para isso. Nós estamos fazendo, então ele também pode.

— Ele está fazendo uma força danada, Tom. É apenas uma questão de finanças, você sabe disso melhor do que ninguém. Nós não estamos sendo pagos pelo trabalho feito há meses, não temos trabalho suficiente agora para os aparelhos e os pilotos que estão aqui estão sendo pagos com dinheiro de Aberdeen, o Irã está uma bagunça c nós estamos passando maus bocados aqui.

— Você está dizendo isso porque Zagros Três foi desativado e portanto vai dar um enorme prejuízo? Não é culpa minha se...

— Acalme-se, Tom. Andy foi informado de que todas as companhias estrangeiras, associadas ou sejam lá o que forem, especialmente de helicópteros, serão nacionalizadas muito breve.

Lochart encheu-se de esperança. Isso não me daria uma desculpa perfeita para ficar? Se eles roubarem — nacionalizarem — os nossos aparelhos, vão precisar de pilotos treinados, eu sei falar farsi, poderia treinar iranianos, o que deve ser o objetivo deles e — e quanto ao HBC? Sempre de volta ao HBC, pensou desanimado, sempre de volta ao HBC.

— Como é que sabe disso, Duke?

— Andy disse que foi informado de fonte 'seguríssima'. O que ele está nos pedindo... a você, Scrag, Rudi e eu, é que se ele e Mac conseguirem arquitetar um plano viável, nós e quantos pilotos mais forem necessários saiamos daqui com os nossos aparelhos através do golfo.

Lochart olhou para ele de boca aberta.

— Jesus, você quer dizer simplesmente decolar, sem autorização nem nada?

— Claro... mas fale baixo.

— Ele está louco! Como conseguiríamos coordenar Lengeh, Bandar Delam, Kowiss e Teerã? Todo mundo teria que partir ao mesmo tempo e as distâncias são diferentes.

— De alguma forma isso terá que ser feito, Tom. Andy disse que é isso ou fechar.

— Eu não acredito! A companhia está operando no mundo inteiro.

— Ele diz que se perdermos o Irã estaremos acabados.

— É fácil para ele — Lochart disse com amargura. — É só dinheiro. É fácil forçar a nossa barra quando ele está bem e em segurança e só o que tem a arriscar é dinheiro. Ele está dizendo que se retirar só o pessoal e deixar o resto aqui a S-G vai estourar?

— Sim, é isso o que ele está dizendo.

— Eu não acredito nisso.

Starke deu de ombros. Seus ouvidos perceberam o suave lamento do banshee e eles se viraram para olhar para o outro lado da base, lá no fundo do campo. No lusco-fusco, eles puderam ver Freddy Ayre com suas gaitas de fole onde, com o consentimento de todos, ele tinha permissão para praticar.

— Maldição — Starke disse azedo —, esse barulho me deixa maluco. Lochart ignorou-o.

— Não é possível que você vá concordar com um maldito seqüestro, porque é isso que vai ser! Eu não concordo com isso de jeito nenhum. — Ele viu Starke dar de ombros. — O que dizem os outros?

— Eles ainda não sabem e não serão consultados por enquanto. Como eu disse, isto fica só entre nós, no momento. — Starke consultou o relógio. — Está quase na hora de ligar para o Mac. — Ele viu Lochart estremecer. O lamento das gaitas de fole era levado pelo vento. — Não sei como alguém pode dizer que isso é música — disse. — A idéia de Andy merece ser levada em consideração, Tom. Como um plano extremo.

Lochart não respondeu, sentindo-se mal, achando tudo ruim. Até o ar cheirava mal, poluído pela refinaria ao lado e ele desejou estar de volta a Zagros, lá perto das estrelas, onde o ar e a terra não eram poluídos, mas desejando também, desesperadamente, estar em Teerã que era ainda mais poluída — mas onde ela estava.

— Não conte comigo — disse.

— Pense nisso, Tom.

— Já pensei e estou fora, é loucura, a idéia toda. Assim que você pensar melhor, vai ver que é um plano maluco.

— Claro, meu velho. — Starke imaginou quando o seu amigo iria perceber que ele, Lochart, dentre todos eles, era o que teria mais necessidade de participar, de uma forma ou de outra.

45

NO HOTEL INTERNACIONAL, AL SHARGAZ: 18:42H. —Você poderia fazer isso, Scrag? — perguntou Gavallan, quase ao pôr-do-sol.

— Para mim seria fácil retirar secretamente os meus homens e os meus cinco aparelhos de Lengeh, Andy — respondeu Scragger. — Teria que ser no dia certo e nós teríamos que nos esgueirar por baixo do radar de Kish, mas poderíamos fazê-lo, se os rapazes quisessem tomar parte na brincadeira. Mas levando também todas as peças sobressalentes? Não há jeito, é impossível.

— Você o faria se fosse possível? — perguntou Gavallan. Ele tinha chegado hoje de Londres e todas as notícias de negócios que recebera de Aberdeen eram horríveis. A Imperial Air estava aumentando a pressão, boicotando-o no mar do Norte, as companhias de petróleo o estavam espremendo e Linbar pedia uma reunião especial de diretoria para investigar o 'possível' desmando da S-G. — Você o faria, Scrag?