— Oh, sim, se fôssemos apenas nós em Lengeh. Ainda assim teríamos que planejar cuidadosamente, o radar de Kish está mais sensível do que nunca, mas poderíamos esgueirar-nos por baixo dele no dia certo. O grande problema é que o nosso pessoal iraniano, bem como o nosso atualmente simpático mas zeloso komiteh e o nosso novo palhaço antipático da IranOil saberiam em poucos minutos do nosso golpe, não poderiam deixar de saber com todos os aparelhos no ar. Eles se comunicariam imediatamente com o DAC e eles mandariam um alerta para Dubai, Abu Dhabi, para cá, de fato desde Omã até a Arábia Saudita, Kuwait e Bagdá, ordenando que eles apreendessem os aparelhos assim que chegássemos. Mesmo que todos nós conseguíssemos chegar até aquibem, o velho xeque é um grande sujeito, um liberal e um amigo, mas que diabo, ele não poderia ir contra o DAC iraniano, se este estivesse com a razão... e mesmo que não estivesse. Ele não poderia comprar uma briga com o Irã, ele tem uma boa percentagem de xiitas entre os ortodoxos, não tão numerosos quanto outros Estados do golfo, mas em número maior do que muitos.
Gavallan levantou-se e caminhou até a beirada do terraço e olhou para a velha cidade lá embaixo — antigamente um porto de pérolas, um domínio de piratas e um mercado de escravos, um centro de comércio e como Sohar no Omã, chamada de Porto da China. Desde a antigüidade, o golfo era o traço de união marítimo entre o Mediterrâneo — na época o centro do mundo — e a Ásia. Mercadores fenícios dedicados à navegação, que vinham originalmente de Omã, dominavam esta rota de comércio incrivelmente rica, descarregando as mercadorias da Ásia e da índia em Shatt-al-Arab, e dali por uma curta rota de caravana até os seus mercados, eventualmente construindo os seus próprios impérios no Mediterrâneo, fundando cidade-estado como Cartago, que ameaçaram a própria Roma.
A velha cidade murada estava linda ao escurecer, com seus telhados chatos, protegida de construções modernas, com a fortaleza do xeque dominando-a. Ao longo dos anos, Gavallan passara a conhecer e admirar o velho xeque. O domínio estava cercado pelos Emirados mas era um território independente e soberano com pouco mais de trinta quilômetros de profundidade e dez quilômetros de costa. Mas no fundo do mar, numa extensão de 150 quilômetros até águas iranianas, havia uma lagoa de petróleo de muitos bilhões de barris, de extração fácil. Assim, Al Shargaz tinha a cidade velha e uma cidade nova com uma dúzia de hotéis modernos e arranha-céus e um aeroporto que podia receber um jumbo. Em riqueza, não era nada comparada aos Emirados ou à Arábia Saudita ou ao Kuwait, mas havia abundância de tudo, se se escolhesse com sabedoria. O xeque era tão experiente quanto os seus ancestrais fenícios, tão ferozmente independente quanto eles, e embora ele próprio não soubesse ler nem escrever, seus filhos eram formados pelas melhores universidades do mundo. Ele, sua família e sua tribo eram os donos de tudo, a sua palavra era lei, ele era sunita, não um fundamentalista, e tolerante com os seus súditos e hóspedes estrangeiros, desde que estes se comportassem.
— Ele também detesta Khomeini e todos os fundamentalistas, Scrag.
— Sim, mas não vai ter coragem de comprar uma briga com Khomeini. Isso não vai nos ajudar.
— Mas também não vai nos prejudicar. — Gavallan sentia-se revigorado pelo pôr-do-sol. — Eu estou planejando fretar dois jumbos de carga, mandá-los para cá, e quando os nossos helicópteros chegarem, nós desmontamos os rotores, enchemos os jumbos e damos o fora. A chave é a rapidez da operação, e o planejamento.
Scragger assoviou.
— Você está realmente disposto a fazer isso?
— Estou disposto a ver se podemos fazer isso, Scrag, e quais são as chances. Esta é a questão mais importante, se perdermos todos os nossos helicópteros iranianos, equipamentos e peças, teremos que fechar. Nenhum seguro vai cobrir tudo isso e nós ainda temos que pagar o que devemos. Você é um dos sócios, vai poder ver os números hoje à noite. Eu os trouxe para você e para Mac.
Scragger pensou a respeito da sua participação na companhia, todo o interesse que ele tinha, e em Nell e nos seus filhos e nos filhos destes lá em Sydney, e na fazenda de Baldoon que fora durante um século a fazenda de criação dê gado e ovelhas da família mas que tinha sido perdida na grande seca, e na qual ele estava de olho há anos e anos, querendo recuperar para eles.
— Eu não preciso olhar os números, Andy. Se você diz que está assim tão ruim é porque está. — Ele observava as cores do céu. — Vou lhe dizer uma coisa, eu cuido de Lengeh se você conseguir armar um plano e se os outros concordarem. Depois do jantar, talvez a gente pudesse discutir a logística por uma hora e terminar a discussão no café da manhã. Kasigi não estará de volta do Kuwait antes das nove. Nós vamos pensar em alguma coisa.
— Obrigado, Scrag. — Gavallan deu-lhe um tapa no ombro, inclinando-se para ele. — Estou muito contente por você estar aqui, por você ter estado conosco por todos esses anos. Pela primeira vez eu acho que temos uma chance e não estou sonhando.
— Com uma condição, meu velho — acrescentou Scragger. Gavallan ficou imediatamente em guarda, e disse:
— Eu não posso consertar o seu exame médico se ele não estiver bom Não há nenhuma maneira de...
— Você me dá licença? — Scragger ficou triste. — Não tem nada a ver com o Dirty Duncan e o meu exame médico ele estará bom até eu ter 73 anos. Não, a condição é que no jantar você me ponha sentado ao lado da estonteante Paula, com Genny ao lado dela e Manuela do meu lado, e aquele húngaro chifrudo, Sandor, no outro extremo junto com Johnny Hogg.
— Feito!
— Grande! Agora, não se preocupe, meu velho. Eu já fui suficientemente sacaneado por generais de cinco estrelas para ter aprendido alguma coisa. Está na hora de trocar de roupa para o jantar. Lengeh já está ficando chata. — Ele se afastou, magro, ereto e animado.
Gavallan entregou o seu cartão de crédito para o sorridente garçom paquistanês.
— Não há necessidade, sahib, basta assinar a nota — disse o homem. Depois acrescentou suavemente: — Se me permite uma sugestão, effendi, quando o senhor pagar, não use o American Express, é o mais caro para a direção.
Espantado, Gavallan deixou uma gorjeta e se afastou.
Do outro lado do terraço, dois homens ficaram observando ele se afastar. Ambos estavam bem vestidos e tinham cerca de quarenta anos, um era americano, o outro do Oriente Médio. Ambos estavam usando pequenos aparelhos de surdez. O homem do Oriente Médio brincava com uma caneta-tinteiro antiquada, e quando Gavallan passou por um árabe bem vestido e uma jovem européia muito atraente, o homem com a caneta-tinteiro ficou curioso, apontou a caneta para eles e a manteve apontada. Imediatamente, os dois homens ouviram nos seus fones de ouvido:
— Minha querida, quinhentos dólares americanos está muito acima do preço de mercado — o homem estava dizendo.
— Isso depende do mercado a que você esteja se referindo, meu querido ela respondeu, com um agradável sotaque da Europa Central, e eles a viram sorrir docemente. — O preço inclui a roupa de baixo da melhor seda que você tem vontade de rasgar e o instrumento que você deseja inserido no momento apropriado. Eficiência é eficiência e serviços especiais exigem um tratamento especial e se a sua agenda só permite que seja executado entre seis e oito da noite de amanhã...
As vozes sumiram quando o homem virou a tampa e colocou a caneta na mesa com um sorriso irônico. Ele era bonito e tinha a pele cor de azeitona, trabalhava em importação e exportação de tapetes como gerações de antepassados seus, fora educado na América e seu nome era Aaron Ben Aaron — mas sua principal ocupação era no Serviço Secreto israelense.