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É verdade, pensou Gavallan, mas ainda assim é um gueto. E embora os governantes de Al Shargaz, Dubai e Sharjah sejam liberais e tolerantes, os estrangeiros possam beber nos hotéis, e possam até comprar bebidas, que Deus o ajude se você revendê-las para muçulmanos. As nossas mulheres podem dirigir, fazer compras e passear, mas não há nenhuma garantia de que isso vá durar. A poucas centenas de metros de distância, os habitantes de Shargaz estão vivendo como têm vivido há séculos, a poucos quilômetros de distância, do outro lado da fronteira, a bebida é proibida, uma mulher não pode dirigir nem andar sozinha na rua e tem que cobrir o cabelo e os braços e ombros e usar calças folgadas, e lá no deserto verdadeiro, as pessoas levam uma vida miserável.

Há alguns anos, ele tinha alugado um Range Rover e um guia e, junto com McIver e Genny e sua nova mulher, Maureen, fora para o deserto para passar a noite num dos oásis na beira do Rub'al-Khali, a Região Vazia. Tinha sido um dia de primavera perfeito. Poucos minutos depois deles terem passado pelo aeroporto, a estrada transformara-se numa trilha que terminou rapidamente e eles se viram viajando através da vasta extensão de pedras, sob o céu. Fizeram um piquenique e depois continuaram, algumas vezes em terreno arenoso, ou-

trás vezes em terreno rochoso, atravessando uma região selvagem onde não chovia nunca e não crescia nada. Nada. Quando pararam e desligaram o motor, o silêncio chegou até eles como se fosse uma presença física, o sol se pôs e o espaço os envolveu.

A noite era negra, as estrelas enormes, as tendas boas, os tapetes macios e o silêncio ainda maior, o espaço ainda maior, era inconcebível todo aquele espaço.

— Eu odeio isso, Andy — murmurara Maureen. — Isso me assusta barbaramente.

— A mim também. Não sei por que, mas assusta. — Em torno das palmeiras do oásis, o deserto se estendia em direção a todos os horizontes, ameaçador e sobrenatural. — A imensidão parece sugar a sua vida. Imagine como será no verão!

— Isto me faz sentir menos que um grão de areia — ela tremeu. — Está me esmagando, me fazendo perder o equilíbrio. Bem, rapaz, uma vez é o bastante para mim. O que serve para mim é a Escócia. Londres um pouquinho, e aqui nunca mais.

E ela nunca mais tinha voltado. Como a Nell de Scrag, pensou. Eu não as culpo. Já é bastante duro para os homens aqui no golfo, imagine para as mulheres... Ele olhou em volta. Genny estava saindo do salão pelas janelas francesas, abanando-se, parecendo muito mais jovem do que em Teerã.

— Olá, Andy. Você é que é esperto, está tão abafado lá dentro, e a fumaça, ugh!

— Eu nunca fui muito de dançar.

— Eu só danço quando Duncan não está comigo. Ele é tão antiquado. — Ela hesitou. — No vôo de amanhã, você acha que eu po...

— Não — ele disse bondosamente. — Ainda não. Daqui a uma semana, mais ou menos. Deixe a poeira assentar.

Ela concordou, sem esconder a decepção.

— O que foi que Scrag disse?

— Sim, se os outros concordarem e se for viável. Nós tivemos uma boa conversa e vamos tomar café juntos amanhã. — Gavallan pôs o braço em volta dela e deu-lhe um abraço. — Não se preocupe com Mac, eu vou me certificar de que ele esteja bem.

— Eu tenho outra garrafa de uísque para ele, você não se importa, não é?

— Vou colocar na minha valise. Nós recebemos ordens do DAC para não carregar bebidas no compartimento de bagagem dos aviões, mas não há problema, eu levo na bagagem de mão.

— Então talvez seja melhor não levar, não desta vez. — Ela ficou perturbada pela seriedade dele, tão pouco comum. Pobre Andy, todo mundo pode ver que ele está fora de si de tão preocupado. — Andy, posso fazer uma sugestão?

— É claro, Genny.

— Use esse coronel e Robert, quer aízer, Armstrong, esse pessoal importante que você tem que transportar para Tabriz. Por que não pedir a elas para deixarem você voltar por Kowiss? Diga que você tem que apanhar alguns motores para consertar. Então você pode falar diretamente com Duke.

— Muito boa idéia. Você vai ser a primeira da classe.

Ela se inclinou e lhe deu um beijo fraterno.

— Você também não é assim tão mau. Bem, vou voltar para o baile. Desde a guerra que não sou tão popular. — Ela riu e ele também. — Boa noite, Andy.

Gavallan voltou para o seu hotel, que ficava um pouco adiante. Ele não notou os homens que o seguiam, nem que o seu quarto tinha sido revistado, seus papéis lidos, nem que tinham colocado aparelhos de escuta no quarto e no telefone.

SÁBADO

24 de fevereiro46

NO AEROPORTO INTERNACIONAL DE TEERÃ: 11:58H. A porta da cabine do 125 fechou-se atrás de Robert Armstrong e do coronel Hashemi Fazir. Lá da cabine do piloto, John Hogg levantou os polegares para Gavallan e McIver, que estavam em pé na pista, ao lado do carro, e saiu taxiando, em direção a Tabriz. Gavallan tinha acabado de chegar de Al Shargaz e este era o primeiro momento que ele tinha a sós com McIver.

— Como estão as coisas, Mac? — perguntou, com o vento gelado levantando as suas roupas de inverno e fazendo a neve rodopiar em volta deles.

— Problemas, Andy.

— Eu sei disso. Conte-me rapidamente. McIver aproximou-se.

— Eu acabei de saber que temos menos de uma semana antes que segurem os nossos aparelhos no chão aguardando a nacionalização.

— O quê? — Gavallan ficou subitamente estatelado. — Foi Talbot quem lhe contou?

— Não, Armstrong, há poucos minutos atrás, quando o coronel foi ao banheiro e nós ficamos sozinhos. — O rosto de McIver contorceu-se. — O filho da mãe me contou isso com aquela sua gentileza fingida: "Eu não contaria com mais de dez dias se fosse você. Uma semana seria mais seguro. E não se esqueça, sr. McIver, em boca fechada não entra mosca."

— Meu Deus, ele sabe que estamos planejando algum? coisa? — Uma rajada de vento cobriu-os de neve.

— Eu não sei, simplesmente não sei, Andy.

— E quanto ao HBC? Ele disse alguma coisa?

— Não. Quando eu perguntei sobre os papéis, ele só disse: "Eles estão em segurança”.

— Ele disse onde deveríamos nos encontrar hoje? McIver sacudiu a cabeça.

— "Se eu voltar em tempo, entrarei em contato". Filho da mãe. — E puxou com violência a porta do carro.

Nervoso, Gavallan limpou a neve da roupa e entrou. As janelas estavam fechadas. McIver ligou o descongelador e o ventilador no máximo, o aquecimento também no máximo, depois colocou um cassete para tocar, aumentou o volume e depois tornou a baixar, praguejando.

— O que houve mais, Mac?

— Tudo — McIver explodiu. — Erikki foi seqüestrado pelos soviéticos ou pela KGB e está em algum lugar perto da fronteira da Turquia com o 212, fazendo sabe Deus o quê. Nogger acha que ele foi forçado a ajudá-los a esvaziar os postos secretos de radar dos americanos. Nogger, Azadeh, dois dos nossos mecânicos e um capitão britânico escaparam vivos de Tabriz por um triz, eles chegaram ontem e estão na minha casa... pelo menos estavam quando saí hoje de manhã. Meu Deus, Andy, você precisava ter visto o estado em que eles estavam quando chegaram. O capitão é o mesmo que salvou a vida de Charlie em Doshan Tappeh e que Charlie deixou em Bandar-e Pahlavi...