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— Meu Deus — murmurou Gavallan, enojado. O motorista-tradutor disse rispidamente:

— Este é o Islã. O Islã tem apenas uma lei para todo o povo, um castigo para cada crime e justiça imediata. A lei é a lei de Deus, intocável, eterna, não como no seu corrupto ocidente onde as leis podem ser distorcidas e a justiça distorcida e demorada, em proveito de advogados que vivem das distorções, corrupções, crimes ou infortúnios dos outros... — Os gritos de alguns dos garotos o interromperam. — Aqueles filhos de um cão não têm orgulho — disse o homem, revoltado, voltando para o seu carro.

Quando o castigo terminou, o mulá advertiu bondosamente os que ainda estavam conscientes, depois mandou-os embora e seguiu com os seus Faixas Verdes. A multidão debandou, deixando McIver e Gavallan ao lado do carro. Os seus atacantes agora eram trouxas patéticas de farrapos, inertes, sujos de sangue ou garotos que gemiam tentando levantar-se. Gavallan se aproximou para ajudar um deles, mas o garoto se afastou aterrorizado e ele parou e voltou. Os pára-lamas estavam amassados, havia arranhões na pintura por causa das pedras que os garotos tinham atirado. McIver parecia mais velho do que antes.

— Não posso dizer que eles não mereceram o castigo — disse Gavallan.

— Nós teríamos sido pisoteados e mortos se o mulá não tivesse aparecido

— McIver falou com a voz rouca, contente por Genny não estar lá. Ela teria sentido cada uma das chicotadas que eles levaram, pensou, com o peito e as costas doendo por causa dos golpes. Ele tirou os olhos do carro, e mexeu com os ombros, sentindo dor. Então notou o homem que traduzira as palavras do mulá para ele ainda preso no tráfego e caminhou com dificuldade através da neve até onde ele estava.

— Obrigado, obrigado por nos ajudar, aga — disse, gritando pela janela, por sobre o barulho. O carro era velho e estava arriado com o peso de mais quatro homens que se apertavam lá dentro.

O homem baixou o vidro.

— O mulá pediu um tradutor, eu estava ajudando a ele, não a vocês — ele disse. — Se vocês não tivessem vindo para o Irã, aqueles garotos idiotas não teriam sido tentados pela sua nojenta exibição de riqueza material.

— Desculpe, eu só queria agradecer...

— E se não fosse pelos seus filmes e programas de televisão igualmente nojentos, que glorificam as suas malditas gangues de rua e os seus estudantes revoltosos, que o xá importou sob a influência dos seus mestres para corromper a nossa juventude, inclusive o meu próprio filho e os meus próprios alunos, aqueles pobres imbecis seriam obedientes à lei. É melhor que vocês partam antes que sejam apanhados desobedecendo à lei. — Ele levantou o vidro e tocou a buzina com raiva.

NO APARTAMENTO DE LOCHART: 14:37H. Ela bateu na porta da cobertura numa rápida sucessão de batidas combinadas. Estava usando um véu e um chador sujo de terra.

Uma série de batidas soou em resposta. Ela deu de novo quatro batidas rápidas e uma lenta. No mesmo instante, a porta se abriu um pouquinho e Teymour apareceu com um revólver na cara dela e ela riu.

— Você não confia em ninguém, meu querido? — disse em árabe, num dialeto palestino.

— Não, Sayada, nem mesmo em você — respondeu, e quando teve certeza de que ela era mesmo Sayada Bertolin e estava sozinha, ele abriu mais a porta, e ela tirou o véu e o lenço e caiu nos braços dele. Ele fechou e trancou a porta. — Nem mesmo em você. — Depois ele a beijou avidamente. — Você está atrasada.

— Não. Você é que está adiantado. — Mais uma vez ela riu, se afastou e entregou-lhe a sacola. — Aqui está a metade, trago o resto amanhã.

— Onde você deixou o resto?

— Num armário do Clube Francês. — Sayada Bertolin tirou o chador e se transformou. Estava usando uma jaqueta de esqui acolchoada, um suéter de gola alta, saia de lã, meias grossas e botas altas forradas de pele, tudo de costureiros famosos. — Onde estão os outros? — perguntou.

— Eu os mandei sair — disse, sorrindo com os olhos.

— Ah, amor na tarde. E quando eles voltam?

— No pôr-do-sol.

— Perfeito. Primeiro uma chuveirada. A água ainda está quente?

— Oh, sim, e o aquecimento central está ligado, assim como o cobertor elétrico. Quanto luxo! Lochart e sua mulher sabiam como viver, esta é uma verdadeira... qual é mesmo a palavra francesa? Ah, sim, garçonnière.

O riso dela o aqueceu.

— Você não tem idéia do pishkesh que é um chuveiro quente, meu querido, muito melhor do que uma banheira. Sem falar no resto. — Ela se sentou numa cadeira para tirar as botas. — Mas quem sabia viver era o velho safado do Bakravan, não Lochart. Originalmente, este apartamento era para uma amante.

— Você? — perguntou sem malícia.

— Não, meu querido, ele gostava delas bem jovens. Eu não sou amante de ninguém, nem mesmo do meu marido. Foi Xarazade quem me contou. O velho Jared sabia viver, é uma pena que não tenha tido mais sorte na morte.

— Ele já tinha cumprido o seu papel.

— Aquela não era a maneira de tratar um homem daqueles. Estupidez!

— Ele era um notório agiota e partidário do xá, apesar de ter dado dinheiro a rodo para Khomeini. Ele tinha ofendido às leis de Deus e...

— As leis dos fanáticos, meu querido, dos fanáticos. Assim como você e eu quebramos todos os tipos de leis, hein? — Ela se levantou e o beijou de leve, caminhou sobre os lindos tapetes do corredor e foi para o quarto de Lochart e Xarazade, atravessou-o e entrou no banheiro coberto de espelhos, ligou o chuveiro e ficou lá esperando a água esquentar. — Eu sempre adorei este apartamento.

Ele se encostou na porta.

— Os meus superiores mandaram agradecer-lhe por tê-lo sugerido. Como estava a marcha?

— Horrível. Os iranianos são uns animais, gritando palavrões e obscenidades para nós, sacudindo os seus pênis para nós, tudo porque queremos um pouco de igualdade, queremos nos vestir ao nosso gosto, para tentarmos ser bonitas por algum tempo, nós só somos jovens tão pouco tempo. — Mais uma vez ela colocou a mão debaixo do chuveiro, experimentando a água. — O seu Khomeini vai ter que ceder.

— Nunca. Esta é a sua força. E só alguns são animais, Sayada, o resto não conhece outra coisa. Onde está a sua civilizada tolerância palestina?

— Os homens daqui transformaram isso num buraco fedorento, Teymour. Se você fosse uma mulher, entenderia. — Ela tornou a experimentar a água e sentiu o calor começando. — Está na hora de voltar para Beirute. Eu nunca me sinto limpa aqui. Há meses que não me sinto limpa.

— Eu também vou ficar feliz em voltar. A guerra aqui está terminada, mas não na Palestina, no Líbano ou na Jordânia. Eles precisam de soldados treinados lá. Há judeus para matar, a maldição do sionismo para destruir e lugares sagrados para recuperar.

— Estou feliz por você voltar a Beirute — disse, com um olhar convidativo. — Eu recebi ordens de voltar para casa também dentro de duas semanas, o que me convém perfeitamente, porque assim eu ainda posso marchar. O protesto marcado para quinta-feira vai ser o maior de todos!

— Eu não entendo por que você se dá ao trabalho, o Irã não é problema seu e todas as suas marchas e protestos não vão levar a nada.

— Você está enganado. Khomeini não é nenhum idiota. Eu tomo parte nas marchas pela mesma razão pela qual trabalho para a OLP: Pela nossa terra, pela igualdade, igualdade para as mulheres da Palestina... e, sim, para as mulheres de toda parte. — Seus olhos castanhos tornaram-se selvagens e ele nunca a tinha visto mais linda. — As mulheres estão marchando, meu querido, e pelo Deus dos coptas, o único Deus, e pelo seu Marx-Lenin que você tanto admira secretamente, os dias da dominação dos homens estão chegando ao fim.

— Eu concordo — ele disse imediatamente e riu. Ela riu junto com ele.