O rosto dela ficou sem cor.
— Ah, bom! Então você se lembra do seu filhinho que mora com a família do seu tio na rua dos Mercadores de Flores de Beirute? — O homem olhou fixamente para ela e depois perguntou: — Bem, de acordo?
— Sim, sim, é claro — ela disse, mal conseguindo falar. É impossível eles saberem do meu querido Yassar, nem mesmo o meu marido sabe...
— O que aconteceu com o pai do garoto?
— Ele... ele foi morto... ele foi... morto.
— Onde?
— Nas colinas de Golan.
— É triste perder um jovem marido alguns meses depois do casamento — disse o homem. — Quantos anos você tinha?
— Dez... dezessete.
— A sua memória não falha. Ótimo. Agora, se você escolher trabalhar para nós, você, seu filho, seu tio e sua família estarão seguros. Se você não nos obedecer cegamente ou se tentar trair-nos, ou cometer suicídio, o menino Yassar deixará de ser um homem e deixará de ver. Está claro?
Ela balançou a cabeça desamparadamente, com o rosto cinzento.
— Se nós morrermos, outros se certificarão de que sejamos vingados. Não tenha dúvidas quanto a isso. Agora, qual é a sua escolha?
— Eu trabalharei para vocês. — E deixarei o meu filho seguro e me vingarei, mas como, como? pensou.
— Ótimo, pelos olhos, testículos e pênis do seu filho, você trabalhará para nós?
— Sim. Por favor... para quem eu vou trabalhar? — Os dois homens sorriram. Sem humor.
— Nunca torne a perguntar isso, nem tente descobrir. Nós lhe diremos quando for necessário, se for necessário. Está claro?
— Sim.
O homem com o revólver retirou o silenciador e guardou-o no bolso, junto com o revólver.
— Nós queremos saber imediatamente quando o francês ou Lochart vão voltar. Será tarefa sua descobrir. E também quantos helicópteros eles têm aqui em Teerã e onde. Está claro?
— Sim. E como eu entro em contato com você, por favor?
— Você receberá um número de telefone. — Os olhos se tornaram ainda mais duros. — Só para você. Está claro?
— Sim.
— Onde Armstrong mora? Robert Armstrong?
— Eu não sei. — Ela ficou atenta. Havia boatos de que Armstrong era um assassino treinado, usado pelo M16.
— Quem é George Talbot?
— Talbot? Ele é um funcionário da embaixada britânica.
— Que tipo de funcionário? Quai é o trabalho dele?
— Não sei, é apenas um funcionário.
— Algum deles é seu amante?
— Não. Eles... eles vão ao Clube Francês algumas vezes. São conhecidos.
— Você vai se tornar amante de Armstrong. Está claro?
— Eu... eu vou tentar.
— Você tem duas semanas. Onde está a esposa de Lochart?
— Eu... eu acho que na casa dos Bakravan, perto do bazar.
— Trate de se certificar disso. E consiga uma chave da porta da frente. — O homem viu os olhos dela pestanejarem e disfarçou o seu divertimento. Se isso for contra os seus princípios, não faz mal. Em breve você estará comendo merda satisfeita, se nós quisermos. — Apanhe o seu casaco, nós vamos sair imediatamente.
Ela estava com os joelhos bambos quando atravessou o quarto em direção à porta da rua.
— Espere! — O homem tornou a enfiar as coisas que estavam espalhadas dentro da bolsa dela e depois, pensando melhor, embrulhou displicentemente o que estava em cima do travesseiro num dos lenços de papel dela e colocou também dentro da bolsa. — Para você se lembrar que deve obedecer.
— Não, por favor. — As lágrimas escorreram. — Eu não posso... isso não.
O homem enfiou-lhe a bolsa nas mãos.
— Então jogue fora.
Ela cambaleou de volta para o banheiro e jogou aquilo na latrina, tornando a vomitar violentamente, mais do que antes.
— Depressa!
Quando recuperou o controle das pernas, ela o encarou.
— Quando os outros... quando eles voltarem e descobrirem... se eu não estiver aqui eles... eles vão saber que... que eu estou trabalhando para aqueles que... que fizeram isto e...
— É claro. Você acha que nós somos idiotas? Você acha que estamos sozinhos? Assim que eles voltarem, serão mortos e este lugar será incendiado.
NO APARTAMENTO DE McIVER: 16:20H. — Eu não sei, sr. Gavallan — disse Ross. — Não me lembro de muita coisa depois que deixei Azadeh na colina e fui para a base, até mais ou menos a hora que chegamos aqui. — Ele estava usando uma das camisas do uniforme de Pettikin, um suéter preto, calças e sapatos pretos e estava limpo e barbeado, mas seu rosto mostrava completa exaustão. — Mas antes disso, tudo aconteceu como... como eu lhe contei.
— Terrível — disse Gavallan. — Mas graças a Deus por você, capitão. Se não fosse por você, os outros estariam mortos. Sem você, todos eles estariam perdidos. Vamos tomar um drinque, está muito frio. Vamos tomar um uísque. — Ele se dirigiu a Pettikin. — Charlie?
Pettikin foi até o aparador.
— Claro, Andy.
— Eu não quero, obrigado, sr. McIver — disse Ross.
— Eu vou querer, e o sol ainda está alto. — atalhou McIver.
— Eu também — disse Gavallan. Os dois tinham chegado há pouco tempo, ainda abalados por causa do incidente e preocupados porque, na casa dos Bakravan, eles bateram várias vezes sem resultado. Depois tinham vindo para cá. Ross, cochilando no sofá, dera um pulo quando a porta da rua se abriu, empunhando ameaçadoramente o seu kookri.
— Desculpe — dissera, tremendo, tornando a guardar a arma.
— Está tudo bem — fingira Gavallan, ainda apavorado. — Eu sou Andrew Gavallan. Oi Charlie! Onde está Azadeh?
— Ela ainda está dormindo, lá dentro — respondeu Pettikin.
— Sinto muito tê-lo assustado — dissera Gavallan. — O que foi que aconteceu em Tabriz, capitão?
Então Ross contara a eles, de uma forma um tanto incoerente, numa narrativa bastante desordenada. O fato de ter sido acordado de um sono pesado o desorientara. Sua cabeça doía, tudo doía, mas ele estava satisfeito por estar contando o que tinha acontecido, reconstituindo tudo, enchendo aos poucos os espaços vazios, pondo as peças no lugar. Com exceção de Azadeh. Não, eu ainda não consigo encaixá-la.
Naquela manhã, ao acordar no meio de um pesadelo, ele estava aterrorizado, com as coisas todas embaralhadas, motores a jato, armas, pedras, explosões e frio, e olhara para as próprias mãos para ter certeza do que era sonho e do que era realidade. Então vira um homem olhando para ele e gritara: Onde está Azadeh?
— Ela ainda está dormindo, capitão Ross, ela está no quarto de hóspedes lá dentro — Pettikin dissera a ele, acalmando-o. — Lembra-se de mim? Charlie Pettikin? Doshan Tappeh?
Vasculhando a sua memória. As coisas voltando aos poucos, coisas medonhas. Grandes lacunas, muito grandes. Doshan Tappeh? O que houve em Doshan Tappeh? Tinha ido até lá para pegar carona num helicóptero e...
— Ah, sim capitão, como vai? Prazer em vê-lo. Ela está dormindo?
— Como um bebê.
— A melhor coisa para ela é dormir — dissera, ainda sem conseguir raciocinar direito.
— Primeiro uma xícara de café. Depois um banho, fazer a barba. Eu vou lhe arranjar algumas roupas e material para se barbear. Você é mais ou menos do meu tamanho. Está com fome? Nós temos ovos e um pouco de pão, o pão está meio azedo.
— Oh, não obrigado, não estou com fome. Você é muito gentil.
— Eu lhe devo um favor. Não, pelo menos dez. Estou muito satisfeito em vê-lo. Ouça, por mais que eu queira saber o que aconteceu... bem, McIver foi ao aeroporto apanhar o nosso patrão, Andy Gavallan. Eles vão voltar logo, você vai ter que contar a eles e então eu vou saber. Portanto, nenhuma pergunta até lá, você deve estar exausto.
— Obrigado, sim... as coisas ainda estão um pouco... eu não consigo me lembrar de quase nada do que aconteceu depois de ter deixado Azadeh na colina, apenas alguns pedaços, como um sonho, até acordar há um momento atrás. Quanto tempo eu dormi?