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— Ainda torcendo palavras, ainda protegendo a prostituta em que ela se tornou?

O rosto de Hakim ficou cor de cera.

— Azadeh se apaixonou do mesmo modo que mamãe. Se ela é uma prostituta, então você prostituiu a minha mãe.

O sangue tornou a subir ao rosto do khan.

— Como você ousa dizer uma coisa dessas?

— É verdade. Você dormiu com ela antes de se casarem. Como ela o amava, deixou que você fosse secretamente ao quarto dela e se arriscou a morrer. Ela se arriscou a morrer porque o amava e você implorou. A nossa mãe não convenceu o pai a aceitá-lo como marido dela ao invés do seu irmão mais velho, que a desejava como segunda esposa para ele? — A voz de Hakim falhou, lembrando-se dela ao morrer, quando ele tinha sete anos e Azadeh seis, sem entender muito, só que ela estava sofrendo terrivelmente por causa de uma coisa chamada 'tumor' e que lá fora, no pátio, seu pai Abdullah estava desesperado. — Ela não tomou sempre a sua defesa contra o pai dela e seu irmão mais velho e depois, quando seu irmão foi morto e você se tornou o herdeiro, não foi ela que negociou a paz com o pai?

— Você não pode... não pode saber dessas coisas, você era... era muito pequeno!

— A velha babá Fatemeh nos contou, ela nos contou antes de morrer, ela nos contou tudo o que conseguiu lembrar...

O khan mal ouvia, recordando também, recordando o acidente que o irmão sofrerá numa caçada e que ele arquitetara com tanta habilidade — a velha babá devia saber disso também e se ela sabia, então Hakim e Azadeh sabiam, e era mais um motivo para silenciá-los. Recordando, também, todo o tempo de magia que ele tivera com Napthala, a Fada, antes e depois do casamento e durante todos os anos até o início da dor. Eles ainda não estavam casados havia um ano quando Hakim nasceu, dois quando veio Azadeh, Napthala tinha apenas 16 anos na época, pequenina, fisicamente do mesmo tipo que Aysha, mas mil vezes mais bonita, seu longo cabelo era como ouro. Mais cinco anos maravilhosos, nenhum outro filho, mas isso nunca importou, ele finalmente não tinha um filho, alto e forte — quando os três filhos que teve com a primeira esposa tinham todos nascido doentes, morrendo logo, suas quatro filhas feias e faladeiras? Sua mulher não estava ainda com 22 anos, em boa saúde, tão forte e maravilhosa quanto as duas crianças que tinha gerado? Havia muito tempo para mais filhos.

Então a dor começara. E a agonia. Nenhuma ajuda de nenhum dos médicos de Teerã.

— Insha'Allah — eles disseram.

Nenhum alívio, exceto as drogas, cada vez mais fortes, enquanto ela se acabava. Que Deus lhe conceda a paz do paraíso e que eu possa me encontrar lá com ela.

Ele observava Hakim, vendo nele o mesmo tipo de Azadeh que era parecida com a mãe, ouvindo-o falar:

— Azadeh apenas se apaixonou, Alteza. Se ela amava esse homem, o senhor não pode perdoá-la? Ela não tinha apenas 16 anos quando foi mandada para uma escola na Suíça, da mesma forma que mais tarde eu fui mandado para Khoi?

— Porque vocês dois eram traiçoeiros, ingratos e perigosos! — O khan gritou, sentindo outra vez a pressão nos ouvidos. — Saia! Você vai... vai ficar longe dos outros, sob guarda, até eu mandar chamá-lo. Ahmed, providencie isso, depois volte aqui.

Hakim se levantou, quase em lágrimas, sabendo o que ia acontecer e sem poder evitá-lo. Ele saiu, Ahmed deu as ordens necessárias aos guardas e voltou. Agora os olhos do khan estavam fechados, seu rosto cinzento, sua respiração mais difícil do que antes. Por favor, meu Deus, não o deixe morrer ainda, rezou Ahmed.

O khan abriu os olhos e olhou para ele.

— Eu tenho que decidir a respeito dele, Ahmed. Depressa.

— Sim, Alteza — começou o seu conselheiro, escolhendo cuidadosamente as palavras —, o senhor só tem dois filhos, Hakim e o bebê. Se Hakim morrer ou — ele deu um sorriso estranho — se por acaso ficasse cego ou aleijado, então Mahmud, marido de Sua Alteza Najoud, seria regente até...

— Aquele idiota? As nossas terras e o nosso poder estarão perdidos em um ano! — Manchas vermelhas apareceram no rosto do khan e lhe parecia cada vez mais difícil pensar com clareza. — Dê-me outra pílula.

Ahmed obedeceu e deu-lhe água para beber, ajudando-o.

— O senhor está nas mãos de Deus, vai se recuperar, não se preocupe.

— Não me preocupar? — o khan resmungou, com dor no peito. — Deus quis que o mulá morresse a tempo... estranho. Petr Oleg manteve o acordo... embora ele... o mulá morreu depressa demais... depressa demais...

— Sim, Alteza.

O espasmo tornou a passar.

— Quai é o seu conselho... com relação a Hakim? Ahmed fingiu pensar um momento.

— O seu filho Hakim é um bom muçulmano, ele poderia ser treinado, ele tem cuidado bem dos seus negócios em Khoi e não fugiu embora talvez o pudesse ter feito. Ele não é um homem violento, exceto para proteger a irmã, não? Mas isso é muito importante, pois aí está a solução. — Ele chegou mais perto e disse baixinho: — Declare-o seu herdeiro, Alte...

— Nunca!

— Desde que ele jure por Deus que vai proteger o seu irmão mais moço como protegeria a sua irmã, desde que, além disso, a sua irmã volte imediatamente por sua própria vontade para Tabriz. Na verdade, Alteza, o senhor não tem nenhuma prova real contra eles, só boatos. Permita-me descobrir a verdade a respeito dos dois e comunicar secretamente ao senhor.

O khan estava concentrado, ouvindo atentamente, embora o estorço cansasse.

— Ah, o irmão é a isca para atrair a irmã, assim como ela foi a isca para atrair o marido?

— Assim cada um deles serve de isca para o outro! Sim, Alteza, é claro que o senhor pensou nisso antes de mim. Em troca do senhor ter favorecido o irmão, ela deve jurar diante de Deus ficar aqui para ajudá-lo.

— Ela o fará, oh, sim, ela o fará.

— Então os dois estarão ao alcance do senhor e o senhor poderá se divertir com eles como quiser, dando e tomando à sua vontade, quer eles sejam culpados ou não.

— Eles são culpados.

— Se eles forem culpados, e eu vou descobrir rapidamente caso o senhor me conceda total autoridade para investigar o caso, então a Vontade de Deus será que eles morram lentamente, que o senhor declare o marido de Fazulia como o próximo khan, e ele não é muito melhor do que Mahmud. Se eles não forem culpados, então deixe Hakim continuar como herdeiro, desde que ela fique. E se acontecer, mais uma vez pela Vontade de Deus, que ela fique viúva, ela poderia até desposar aquele que o senhor escolhesse, Alteza, para manter Hakim como seu herdeiro. Até um soviético, caso ele escape da armadilha, não?

Pela primeira vez naquele dia, o khan sorriu. Naquela manhã, quando Armstrong e o coronel Hashemi Fazir tinham chegado para prender Petr Oleg Mzytryk, eles tinham fingido estar devidamente preocupados com a saúde do khan da mesma forma que ele fingira estar mais doente do que se sentia. Tinha mantido a voz fraca e hesitante e muito baixa, de modo que os dois tiveram que se inclinar para ouvi-lo.

— Petr Oleg vem aqui hoje. Eu ia encontrá-lo, mas pedi que ele viesse até aqui por causa da minha... porque estou doente. Mandei um recado para que ele viesse aqui e ele deverá estar na fronteira ao entardecer. Em Julfa. Se vocês forem imediatamente, terão muito tempo... ele passa pela fronteira num pequeno helicóptero soviético e pousa numa estrada secundária próxima da estrada Julfa-Tabriz, onde seu carro o espera... não há como não encontrar o desvio, aquele é o único... alguns quilômetros ao norte da cidade... é a única estrada secundária, um lugar isolado, pouco mais do que uma trilha. O modo como vocês vão apanhá-lo é problema de vocês e... e como eu não posso estar presente, vocês me darão uma fita da... da investigação?