— Não muitos. Mas um já é o bastante.
PERTO DO DESVIO DE JULFA: 18:15H. A sinuosa estrada secundária através da floresta estava coberta de neve. Havia umas poucas marcas de caminhão e de carroça além das feitas pelo velho Chevrolet que estava estacionado debaixo de uns pinheiros perto do descampado, a alguns metros da estrada principal. Pelo binóculo, Armstrong e Hashemi podiam ver dois homens usando casacos grossos e luvas sentados no banco da frente, com as janelas abertas, ouvindo atentamente.
— Ele não tem muito tempo — resmungou Armstrong.
— Talvez ele não venha, afinal.
Eles estavam vigiando, há meia hora, de uma pequena elevação no meio das árvores, que dava para a área de pouso. O carro deles e o resto dos homens de Hashemi tinham estacionado discretamente na estrada principal, abaixo e atrás de onde eles se encontravam. Estava tudo muito silencioso, havia pouco vento. Alguns pássaros passaram por cima deles, crocitando lamentosamente.
— Aleluia! — murmurou Armstrong, com sua excitação aumentando. Um dos homens tinha aberto a porta lateral e saíra. Agora ele olhava em direção ao norte. O motorista ligou o motor. Então, lá de cima, eles escutaram o barulho do helicóptero se aproximando, viram-no passar pela elevação e descer no vale, beirando o topo das árvores, com o motor funcionando bem. Ele fez um pouso perfeito, levantando uma nuvem de neve. Podiam ver o piloto e um outro homem ao lado dele. O passageiro, um homem pequeno saltou e foi se encontrar com o outro homem. Armstrong praguejou.
— Você o reconhece, Robert?
— Não, aquele não é Suslev. Não é Petr Oleg Mzytryk. Tenho certeza.
— Armstrong estava imensamente desapontado.
— Cirurgia plástica?
— Não, nada disso. Ele é um cara grande, corpulento, da minha altura.
— Eles o observaram encontrar-se com o outro e entregar-lhe alguma coisa.
— Aquilo era uma carta? O que foi que ele entregou, Robert?
— Parecia um embrulho, podia ser uma carta. — Armstrong resmungou outro palavrão, concentrando-se nos lábios deles.
— O que eles estão dizendo? — Hashemi sabia que Armstrong podia ler lábios.
— Eu não sei. Não é nem farsi nem inglês.
Hashemi praguejou e tornou a focalizar o seu binóculo, que já estava perfeitamente focalizado.
— Parecia ser uma carta. — O homem disse mais algumas palavras e depois voltou para o helicóptero. Imediatamente o piloto acelerou e decolou. O outro homem então voltou para o Chevrolet.
— E agora? — Hashemi perguntou irritado.
Armstrong observou o homem caminhando em direção ao carro.
— Duas opções: interceptar o carro conforme o planejado e descobrir o que foi entregue, desde que conseguíssemos neutralizar aqueles dois filhos da mãe antes deles destruírem o material... mas isso mostraria que nós sabemos o ponto de chegada do Senhor Importante, ou simplesmente seguir o carro, presumindo que seja uma mensagem para o khan marcando uma nova data. — Ele já tinha vencido a decepção pelo fato de Mzytryk ter evitado a armadilha. É preciso ter sorte no nosso jogo, lembrou a si mesmo. Não importa, da próxima vez nós vamos pegá-lo e ele vai nos levar até o traidor, até o quarto, quinto e sexto homem e eu vou mijar nos seus túmulos e no de Suslev, ou seja lá como Petr Oleg Mzytryk chame a si mesmo, se tiver a sorte do meu lado. — Nós não precisamos nem segui-los, vão direto para o khan.
— Por quê?
— Porque ele é uma peça vital no Azerbeijão, seja a favor ou contra os soviéticos, então eles vão querer saber em primeira mão o estado do coração dele, e quem foi que ele escolheu como regente até o bebê alcançar a maioridade. O poder não vai junto com o título, com as terras e com a riqueza?
— E com as contas numeradas na Suíça. Mais uma razão para vir imediatamente.
— Sim, mas não se esqueça de que algo sério pode ter acontecido em Tbilisi para explicar a demora. Os soviéticos estão tão ansiosos e tão preocupados quanto nós a respeito do Irã.
Eles viram o homem entrar no Chevrolet e começar a falar abruptamente.
O motorista engrenou e virou em direção à estrada principal.
— Vamos voltar para o nosso carro.
A descida foi fácil, o tráfego estava pesado na estrada Julfa—Tabriz, lá embaixo, com alguns faróis já acesos e sem nenhuma maneira da sua presa escapar da emboscada caso eles decidissem levá-la avante.
— Hashemi, outra possibilidade é que Mzytryk tenha descoberto na última hora que foi traído pelo filho e que tenha mandado um aviso para o khan, cujo disfarce também teria sido descoberto. Não se esqueça que nós ainda não descobrimos o que aconteceu com Rakoczy desde que o seu finado amigo general Janan o deixou escapar.
— Aquele cão nunca faria isso por sua própria conta — Hashemi disse isso com um esgar, recordando a sua imensa alegria ao tocar no botão e ver a explosão do carro-bomba esmagar aquele inimigo junto com a sua casa, o seu futuro e o seu passado. — Isso deve ter sido ordenado por Abrim Pahmudi.
— Por quê?
Hashemi olhou para Armstrong mas não percebeu nenhuma astúcia oculta nele. Você conhece segredos demais, Robert, sabe a respeito das fitas de Rakoczy, e, pior ainda, sabe da existência do meu Grupo Quatro e da minha ajuda para Janan entrar no inferno, onde o velho khan em breve irá encontrá-lo, para onde Talbot deve ir dentro de poucos dias e você, meu velho amigo, quando eu quiser. Será que eu deveria contar-lhe que Pahmudi ordenou que Talbot fosse punido pelos seus crimes contra o Irã? Será que eu deveria contar-lhe que estou feliz em obedecer? Durante anos eu quis que Talbot desaparecesse, mas nunca ousei virar-me contra ele sozinho. Agora é Pahmudi o culpado, que Deus o faça arder, e mais uma pedra será tirada do meu caminho. Ah, sim, e o próprio Pahmudi na próxima semana. Mas você, Robert, você será o assassino escolhido para fazer isso, provavelmente para morrer. Pahmudi não merece nenhum dos meus verdadeiros assassinos.
Ele riu consigo mesmo, descendo a colina, sem sentir o frio, sem se preocupar pelo fato de Mzytryk não ter aparecido. Eu tenho coisas mais importantes com que me preocupar, estava pensando. Eu tenho que proteger o meu Grupo Quatro de assassinos a qualquer custo. Eles são a minha garantia de um paraíso na terra com poder maior do que o do próprio Khomeini.
— Pahmudi é o único que poderia ter ordenado a libertação de Rakoczy — disse. — Em breve eu vou descobrir o porquê e onde ele está. Ou ele está na embaixada soviética, num esconderijo soviético ou num calabouço da Savama.
— Ou fora do país, numa hora dessas.
— Então ele está morto. A KGB não tolera traidores. — Hashemi sorriu sardonicamente. — Qual é a sua aposta?
Por um momento, Armstrong não respondeu, espantado com a pergunta pouco comum de Hashemi, que não aprovava apostas, assim como ele. Agora. A última vez que ele tinha apostado fora em Hong Kong em 1963, com dinheiro de suborno que fora colocado em sua gaveta quando ele era um superintendente da CID. Quarenta mil dólares de Hong Kong — cerca de sete mil dólares americanos então. Contra todos os seus princípios, ele tirara o heung yau, a graxa perfumada, como era chamado lá, da gaveta e, nas corridas daquela tarde, apostara tudo num cavalo chamado Pilot Fish, numa tentativa doida de recuperar as suas perdas no jogo — cavalos e mercado de ações.
Este fora o primeiro dinheiro de suborno que ele tirara em 18 anos embora sempre houvesse dinheiro disponível em abundância. Naquela tarde, ele ganhara uma bolada e devolvera o dinheiro antes que o sargento da polícia notasse que ele fora tocado — e ainda sobrara mais do que o suficiente para as suas dívidas. Mesmo assim, ele tinha ficado tão desgostoso consigo mesmo e tão apavorado com a sua estupidez, que nunca mais jogara, nem tocara em heung yau de novo, embora sempre houvesse oportunidade.
— Você é um idiota, Robert — alguns dos seus colegas costumavam dizer —, não há nenhum mal num dinheirinho extra para a aposentadoria.