Hakim caiu na cama, exausto.
— Margol, diga aos... aos guardas para prenderem aqueles idiotas que estão no portão. Como eles puderam deixar que isto acontecesse?
— Eles podem não ter estado vigilantes, Alteza. — Margol tinha certeza de que eles receberiam a culpa, alguém tinha que arcar com a culpa, muito embora ele estivesse presente quando khan dissera a eles para não se meterem com o piloto. Ele deu as ordens e voltou. — O senhor está bem, Alteza?
— Sim, obrigado. Não saia do quarto... acorde-me ao amanhecer. Mantenha o fogo aceso e acorde-me ao amanhecer.
Exausto, Hakim entregou-se ao sono que acenava para ele com tanta sedução, sem dor nas costas, sua mente concentrada em Azadeh e Erikki. Quando ela saiu da sala e o deixou sozinho com Erikki, ele tinha demonstrado a sua tristeza:
— Não há nenhuma maneira de escapar da armadilha, Erikki. Nós estamos presos nela, todos nós, você, Azadeh e eu. Eu ainda não posso acreditar que ela fosse capaz de renunciar ao islamismo, mas ao mesmo tempo estou convencido de que ela não vai obedecer nem a mim nem a você. Eu não quero feri-la, mas não tenho outra alternativa, a alma imortal de Azadeh é mais importante do que a sua vida passageira.
— Eu poderia salvar a sua alma, Hakim. Com a sua ajuda.
— Como? — Ele tinha percebido a tensão de Erikki, seu rosto tenso, seus olhos estranhos.
— Retire o motivo que tem para destruí-la.
— Como?
— Digamos, hipoteticamente, que este piloto louco não fosse um muçulmano, mas um bárbaro e que estivesse tão apaixonado pela sua esposa que em vez de fugir sozinho, de repente ele a deixasse inconsciente, a seqüestrasse e retirasse do seu país contra a sua vontade e se recusasse a permitir que ela voltasse. Em muitos países um marido pode... pode tomar medidas extremas para conservar a sua mulher, até mesmo forçá-la a obedecê-lo. Assim ela não teria quebrado o seu juramento, ela nunca teria que desistir do islamismo, você nunca seria obrigado a fazer-lhe mal e eu ficaria com a minha mulher
— Isto é um embuste — Hakim tinha dito espantado —, é um embuste.
— Não é não, é uma ficção, é uma coisa hipotética, tudo isto é só ficção, mas, hipoteticamente, está de acordo com as regras que você jurou cumprir e ninguém nunca acreditaria que a irmã do Gorgon Khan quebraria por livre espontânea vontade o seu juramento e renunciaria ao islamismo por causa de um bárbaro. Ninguém. Mesmo agora você não tem certeza de que ela faria, tem?
Hakim tentara encontrar as falhas. Não há nenhuma, tinha pensado, estarrecido, e isto resolveria a maior parte dos... isto não resolveria tudo se acontecesse? Se Erikki conseguisse fazer isso sem o seu conhecimento nem a sua ajuda... Raptá-la! É verdade, ninguém jamais acreditaria que ela tivesse quebrado o seu juramento por livre e espontânea vontade. Raptada! Eu poderia deplorar isto publicamente e me regozijar por ela em segredo, se eu quiser que ela viva e que ele viva. Mas eu tenho que querer, é a única maneira: para salvar a alma dela, eu tenho que salvá-lo.
Na paz do quarto, ele abriu os olhos por um instante. As sombras das chamas dançavam no teto. Erikki e Azadeh estavam lá. Deus me perdoará, pensou, mergulhando no sono. Será que eu tornarei a vê-la de novo?
TEERÃ — PERTO DA UNIVERSIDADE: 23:58H. Xarazade estava junto dos Faixas Verdes, em pé no frio e na escuridão, protegendo a frente dos islâmicos que entoavam em uníssono: Allah-uuu Akbarrr — uma barreira viva contra os dois ou três mil estudantes esquerdistas e agitadores que avançavam pela estrada. Lanternas e tochas, alguns carros pegando fogo, revólveres, paus, cacetetes. Seus dedos apertaram a automática que estava no bolso; e granada estava preparada no outro.
— Deus é Grande — ela gritou.
O inimigo aproximava-se depressa e Xarazade viu os punhos levantados, o tumulto aumentando de ambos os lados, os gritos mais enraivecidos, os nervos mais tensos, antecipando a luta.
— Não há outro Deus além de Deus...
Agora os inimigos estavam tão perto que ela podia ver alguns rostos. De repente, ela percebeu que eles não eram uma massa de revolucionários satânicos, nem todos eles, mas que a grande maioria era de estudantes, homens e mulheres da sua própria idade, as mulheres corajosamente sem o chador e gritando pelos direitos das mulheres, pelo voto, e por todas as coisas sensatas, dadas por Deus, conquistadas a duras penas, coisas que não podiam voltar atrás.
Ela foi transportada de volta para a excitação embriagadora da marcha das mulheres, todas elas usando as suas melhores roupas, os cabelos soltos, e elas tão livres quanto os cabelos, a favor da liberdade e da justiça para todos na nova república islâmica onde ela e o seu filho e Tommy poderiam viver felizes para sempre. Mas surgiu outra vez diante dela o fanático com a faca na mão despedaçando o futuro, mas isto não tinha importância porque Ibrahim o havia detido, Ibrahim, o líder estudantil, ele estava lá para salvá-la. Oh, Ibrahim, você está aqui esta noite, liderando-os agora como fez conosco? Você está aqui mais uma vez lutando pela liberdade e pela justiça e pelos direitos das mulheres ou foi martirizado em Kowiss como você queria, matando o mulá malvado que assassinou seu pai da mesma maneira como o meu também foi assassinado?
Mas... mas papai foi morto pelos islâmicos, não pelos esquerdistas, pensou, confusa. E o imã ainda defende implacavelmente a idéia de que tudo seja como era nos tempos do Profeta... e Meshang... e Tommy obrigado a partir. E ela obrigada a se divorciar e a se casar com aquele homem horroroso e sem nenhum direito.
— O que eu estou fazendo aqui? — pensou no meio do pandemônio. Eu deveria estar lá com eles, eu deveria estar lá com eles e não aqui... não, não, nem lá também! E quanto ao meu filho, é perigoso para ele e...
Um revólver disparou em algum lugar, depois outros e a confusão se generalizou, os que estavam na frente tentando recuar e os que estavam atrás tentando avançar. Atrás de Xarazade houve um enorme tumulto. Ela foi arrastada para a frente, com os pés mal tocando o chão. Um velho tropeçou e caiu, murmurando o Shahada e quase a arrastou junto. Alguém lhe deu uma cotovelada no estômago e ela gritou de dor, seu medo transformando-se em pânico.
— Tommyyyy! — Ajude-me — ela gritou.
Uns cem metros à frente, Tom Lochart estava imprensado de encontro a uma vitrine, com o casaco rasgado, sem o quepe, cheio de desespero. Há horas ele estava procurando por ela no meio dos estudantes, certo de que ela estaria no meio deles. Onde mais poderia estar? Não no apartamento daquele estudante, aquele que Jari tinha conhecido, aquele Ibrahim ou seja lá que nome for, que não era nada importante. É melhor que ela esteja lá do que aqui, pensou desesperado. Oh, Deus, permita que eu a encontre.
Mulheres passavam entoando cânticos, a maioria com roupas ocidentais, jeans, jaquetas e então ele a viu. Começou a abrir caminho, mas viu que tinha se enganado mais uma vez, pediu desculpas e tornou a se afastar, ouvindo alguns xingamentos. Então achou que a tinha visto do outro lado da rua, mas mais uma vez estava enganado. A moça usava roupas de esquiar parecidas com as dela, tinha o mesmo estilo de cabelo e era quase da mesma idade. Mas carregava um cartaz marxista-islâmico e ele, desapontado, xingou-a, odiando-a por sua estupidez. Os gritos o estavam perturbando também e ele teve vontade de pegar um pau e destruir o demônio que havia neles.
Oh, Deus, ajude-me a encontrá-la.
— Deus é Grande — ele murmurou e embora estivesse louco de preocupação por causa dela, ao mesmo tempo o seu coração estava exultante.
Tornar-me muçulmano vai fazer toda a diferença do mundo. Agora eles vão aceitar-me, eu sou um deles, posso ir à Meca no Hajj, posso rezar em qualquer mesquita, cor e raça não significam nada para Deus. Só a fé. Eu acredito em Deus e acredito que Maomé foi o profeta de Deus, não vou ser fundamentalista nem xiita. Vou ser um ortodoxo sunita. Vou procurar um professor e aprender árabe. Vou pilotar para a IranOil e para o novo regime e seremos felizes, Xarazade e eu..