— Está tudo bem agora, Azadeh, eram apenas uns vândalos.
— Sim — respondeu, abalada. — Deviam ser chicoteados.
Erikki vinha observando as multidões próximas à mesquita, nas ruas e nos veículos, tentando encontrar uma pista para aquela hostilidade inesperada. Há algo de estranho, pensou. O que era? Então sentiu um vazio no estômago.
— Não vi nenhum soldado nem nenhum caminhão do Exército, desde que saímos de Tabriz. Nenhum. Você viu?
— Não, não vi.
— Alguma coisa aconteceu. Alguma coisa séria.
— Guerra? Os soviéticos invadiram a fronteira? — Seu rosto perdeu ainda mais a cor.
— Duvido. Haveria tropas indo para o norte, ou aviões. Não se preocupe — disse, mais para convencer a si mesmo. — Vamos nos divertir em Teerã, Xarazade está lá e também muitos amigos seus. Já estava na hora de você mudar um pouco. Talvez eu tire a licença a que tenho direito. Podíamos ir para a Finlândia por uma ou duas semanas...
Estavam saindo do centro da cidade e entrando nos subúrbios. Os subúrbios estavam em ruínas, com as mesmas casas e muros e ruas esburacadas. Aqui, a estrada para Teerã se alargava em quatro pistas, duas de cada lado, e embora o tráfego ainda estivesse lento e pesado, mal chegando a vinte quilômetros por hora, ele não se importou. Um pouco à frente, a estrada Abadan—Kermanshah bifurcava-se em direção a sudoeste, e ele sabia que ela escoaria bastante o tráfego. Automaticamente, seus olhos examinaram os mostradores da mesma forma que examinariam os instrumentos de sua cabine, e não foi a primeira vez que desejou estar voando, longe de toda aquela bagunça. O mostrador de gasolina registrava menos de um quarto. Em pouco tempo teria que reabastecer, mas isso não seria problema, com tanto combustível de reserva no carro.
Diminuíram a marcha para ultrapassar outro caminhão estacionado displicentemente perto de alguns vendedores de beira de estrada, o ar pesado com o cheiro do diesel. Então mais lixo surgiu não se sabe de onde e se espalhou pelo pára-brisa.
— Talvez fosse melhor voltarmos, Erikki e regressar a Tabriz. Talvez pudéssemos passar por fora de Qazvin.
— Não — disse, estranhando que ela estivesse amedrontada; normalmente, ela não tinha medo de nada. — Não — repetiu com mais delicadeza.
— Vamos para Teerã descobrir qual é o problema, depois decidiremos o que fazer.
Ela chegou mais para perto dele e pôs a mão no seu joelho.
— Aqueles vândalos me assustaram. Que Deus os amaldiçoe — murmurou, os dedos brincando nervosamente com o colar de turquesas que usava em volta do pescoço. A maioria das mulheres iranianas usava turquesas ou contas azuis, ou uma única pedra azul contra o mau-olhado. — Aqueles cães danados! Por que fizeram aquilo? Demônios. Que Deus os amaldiçoe eternamente! — Logo na saída da cidade havia um grande campo de treinamento do Exército e uma base aérea. — Por que não há soldados aqui?
— Eu também gostaria de saber.
O desvio para a estrada Abadan—Kermanshah surgiu à direita. Grande parte do tráfego se dirigia para lá. Cercas de arame farpado dividiam as duas estradas — como em quase todas as rodovias do Irã. As cercas eram necessárias para evitar que ovelhas, bodes, vacas, cachorros — e pessoas — atravessassem as estradas. Os acidentes eram muito freqüentes e a mortalidade alta.
Mas isso é normal para o Irã, pensou Erikki. Como aqueles pobres idiotas que caíram da encosta da montanha. Ninguém para tomar conhecimento, ninguém para comunicar o fato, ninguém para enterrá-los. Exceto os falcões, os animais selvagens e as matilhas de cães danados.
Com a cidade atrás deles, sentiram-se melhor. O campo tornou a surgir, mais uma vez os pomares para além do fosso e do arame farpado. As montanhas Elburz ao norte e os campos se ondulando para o sul. Mas em vez de andar mais depressa, as duas pistas ficaram ainda mais vagarosas e congestionadas, depois fundiram-se outra vez numa só, com mais batidas, gritaria e raiva. Cansado, ele xingou as inevitáveis obras que deviam estar causando a retenção, diminuiu a marcha, suas mãos e pés trabalhando automaticamente, mal notando o anda-pára, anda-pára, com os motores rangendo e esquentando, o barulho e a frustração crescendo em cada veículo. De repente, Azadeh apontou para a frente.
— Olhe!
Uns cem metros à frente havia uma barreira. Grupos de homens a cercavam. Alguns estavam armados, todos eram civis e estavam pobremente vestidos. A barreira ficava próxima a uma pequena aldeia, com barracas na margem da estrada e na campina do lado oposto. Aldeões, mulheres e crianças, se misturavam com os homens. Todas as mulheres usavam o chador negro ou cinzento. A cada carro que parava, papéis eram verificados para que o veículo tivesse permissão de passar. Vários carros tinham sido retirados da estrada e levados para a campina, onde grupos de homens interrogavam os ocupantes. Erikki viu mais armas no meio deles.
— Não são Faixas Verdes — disse.
— Não há nenhum mulá. Você está vendo algum?
— Não.
— Não são nem do Tudeh, nem mujhadins, nem fedayins.
— É melhor você ficar com a carteira de identidade preparada — e sorriu para ela. — Vista o casaco para não se resfriar quando eu abrir a janela, e ponha o chapéu. — Não era o frio que o preocupava. Era a curva dos seus seios, por baixo do suéter, a delicadeza da sua cintura e o seu cabelo solto.
No porta-luvas havia uma faca pukoh pequena, dentro de um estojo. Ele a escondeu na bota direita. A outra, a sua faca grande, estava por baixo do casaco, nas costas.
Quando finalmente chegou a vez deles, homens rudes e barbados cercaram o Range Rover. Alguns tinham rifles americanos, um tinha um AK47. Havia algumas mulheres, apenas rostos dentro do chador, que olharam para Azadeh com reprovação.
— Papéis — um dos homens disse em farsi, estendendo a mão, com um hálito fedorento, e o cheiro desagradável de roupas e corpos sujos invadiu o carro. Azadeh ficou olhando para a frente, tentando não prestar atenção aos olhares e comentários e na proximidade, a que não estava acostumada.
Educadamente, Erikki entregou sua carteira de identidade e a de Azadeh. O homem segurou-as, olhou-as e passou-as para um rapaz que sabia ler. Todos os outros esperaram em silêncio, observando, batendo com os pés por causa do frio. Finalmente, o rapaz disse em farsi:
— Ele é um estrangeiro de algum lugar chamado Finlândia. Vem de Tabriz. Não é americano.
— Ele parece americano — disse alguém.
— A mulher se chama Gorgon, ela é mulher dele... pelo menos é isso que está nos papéis.
— Eu sou mulher dele — disse Azadeh, rispidamente. — Se...
— Quem lhe perguntou alguma coisa? — O primeiro homem interrompeu-a rudemente. — O seu nome de família é Gorgon, que é um sobrenome de latifundiários, e o seu sotaque é sofisticado como os seus modos e é mais do que provável que você seja uma inimiga do povo.
— Eu não sou inimiga de ninguém. Por...
— Cale-se. As mulheres devem ter modos, devem ser castas e cobrir-se e ser obedientes mesmo num Estado socialista. — O homem se virou para Erikki. — Para onde vocês vão?
— O que foi que ele disse, Azadeh? — perguntou Erikki. Ela traduziu.
— Para Teerã — disse calmamente para o sujeito. — Azadeh, diga a ele que estamos indo para Teerã. — Tinha contado seis rifles e uma automática. Estava preso pelo tráfego, não havia nenhuma maneira de escapar. Ainda.