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Este é um ótimo local para uma refinaria, disse a si mesmo, fica bastante perto de Abadan, dos oleodutos principais que ligam os campos de petróleo do norte aos do sul. É uma grande idéia tentar economizar todo esse gás que está sendo queimado, bilhões de toneladas no mundo todo. É um desperdício criminoso, pensando bem.

A refinaria ficava num promontório, com seu próprio ancoradouro que se estendia por quatrocentos metros golfo adentro, e que Kasigi dissera ser capaz de suportar dois superpetroleiros ao mesmo tempo, qualquer que fosse seu tamanho. Em volta dos campos de pouso para helicópteros havia muitos hectares de instalações para destilação do petróleo e edifícios, tudo aparentemente interligado por quilômetros de canos de plástico e de aço de todos os tamanhos, um verdadeiro labirinto, com enormes torneiras e válvulas, estações de bombeamento e, em toda a parte, guindastes, tratores e enormes pilhas de todo o tipo de materiais de construção, montanhas de concreto e areia, malhas de aço reforçadas, além de áreas para entulho do tamanho de campos de futebol, de caixotes e recipientes protegidos por lonas plastificadas, e estradas, fundações, ancoradouros e escavações semiterminados. Mas quase tudo parado, homens e máquinas.

Quando pousaram, havia um comitê de recepção de uns vinte ou trinta japoneses esperando no campo de pouso, reunidos apressadamente, e uns cem grevistas iranianos e guardas islâmicos armados, alguns usando braçadeiras da OILP, as primeiras que Scragger vira. Depois de muitos gritos e ameaças e de examinar os papéis deles e a licença pelo radar de Kish, o intérprete dissera que podiam ficar, mas que nenhum dos dois poderia partir, nem o helicóptero poderia decolar, sem permissão do komiteh.

A caminho dos escritórios, o engenheiro-chefe Watanabe, que sabia falar inglês, explicara que o komiteh de greve já dava as ordens lá há mais de dois meses. Durante esse tempo quase nada progredira e todo o trabalho tinha cessado.

— Eles não permitem nem mesmo que façamos a manutenção do nosso equipamento. — Era um homem rude, de rosto severo e cabelos grisalhos, de uns sessenta anos, com mãos fortes de operário. Acendeu outro cigarro na ponta do que tinha acabado de fumar.

— E o rádio de vocês?

— Há seis dias eles trancaram a sala de rádio, proibindo o seu uso, e confiscaram a chave. Os telefones estão mudos há semanas, é claro, e o telex não funciona há mais de uma semana. Ainda temos cerca de mil japoneses aqui, dependentes nunca foram permitidos, é claro, as provisões de comida estão no fim e não recebemos nenhuma correspondência há mais de seis semanas. Não podemos sair, não podemos trabalhar. Somos quase prisioneiros e não podemos fazer nada sem muito aborrecimento. Mas, pelo menos, estamos vivos para proteger o que construímos e para esperar pacientemente até que eles nos deixem prosseguir. Estamos realmente muito honrados em vê-lo, Kasigi-san, e ao senhor, capitão.

Scragger deixara-os a tratar dos negócios, sentindo a tensão entre os dois homens, por mais que eles tentassem ocultá-la. À noite, ele tinha feito uma refeição leve, como sempre, permitindo-se apenas uma cerveja japonesa bem gelada. Ora bolas, ela não é tão boa quanto a Foster's. Depois tinha feito seus 11 minutos de exercícios da Força Aérea canadense e fora para cama.

Poucos antes da meia-noite, enquanto ele ainda estava lendo, alguém batera de leve na porta. Kasigi entrara nervoso, pedindo desculpas por incomodá-lo, mas achava que Scragger devia tomar conhecimento, imediatamente, de que ele acabara de ouvir uma transmissão feita por um porta-voz de Khomeini em Teerã, dizendo que todas as Forças Armadas tinham-se declarado a favor dele, que o primeiro-ministro Bakhtiar renunciara e que agora o Irã estava totalmente livre da corja do xá, que por ordens pessoais de Khomeini toda luta deveria cessar, todas as greves deveriam ser interrompidas, que a produção de petróleo deveria recomeçar, que todos os bazares e lojas deveriam reabrir, que todos os homens deveriam entregar suas armas e voltar ao trabalho e, acima de tudo, que todos deveriam agradecer a Deus por ter-lhes concedido a vitória.

— Agora podemos começar de novo. Graças a todos os deuses, hein? Agora as coisas vão voltar ao normal. — E Kasigi sorrira radiante.

Depois que Kasigi saiu, Scragger ficara deitado, com a luz acesa, e a mente trabalhando, imaginando o que poderia acontecer agora. Como tudo aconteceu rápido, pensou. Teria apostado que o xá nunca seria expulso, apostaria mais ainda que Khomeini nunca teria permissão para voltar, e apostaria tudo num golpe militar.

— Isso só serve para mostrar, Scrag, meu velho, que você não sabe nada. — E tinha apagado a luz.

De manhã, tinha acordado cedo, aceitara o chá verde no lugar do chá que costumava tomar de manhã — indiano, muito forte, e sempre com leite condensado — e fora checar, limpar e reabastecer o helicóptero e agora, depois de tudo pronto, estava com muita fome. Cumprimentou levemente o guarda, que não lhe deu nenhuma atenção, e caminhou em direção ao prédio de escritórios.

Kasigi estava em pé diante de uma das janelas do último andar onde ficavam os escritórios dos executivos. Estava na sala de reuniões, um escritório espaçoso, de esquina, com uma mesa enorme e lugar para vinte pessoas sentadas, e tinha estado observando o 206 e Scragger distraidamente, com a cabeça num turbilhão, determinado a conter a raiva. Desde cedo, nessa manhã, ele verificara projeções de custos, relatórios, quantias a serem recebidas, projeções de trabalho, e assim por diante, e tudo isso se resumia num único fato: mais um bilhão de dólares e mais um ano para iniciar a produção. Esta era apenas a segunda vez que ele visitava a refinaria, que não estava na sua esfera de responsabilidades, embora fosse um dos diretores e membro do comitê executivo da presidência, que era o escalão mais alto de poder decisório do conglomerado.

Atrás dele, o engenheiro-chefe Watanabe estava sentado sozinho na ampla mesa, parecendo paciente, mas fumando sem parar como sempre. Ele fora o responsável nos últimos dois anos, chefe adjunto desde que o projeto começara em 1971 — um homem de grande experiência. O antigo engenheiro-chefe morrera na refinaria, de um ataque cardíaco.

Não é de admirar, pensou Kasigi, furioso. Há dois anos — talvez quatro — ele deve ter visto que o nosso orçamento limite, de três e meio bilhões de dólares, não seria suficiente, que já fora ultrapassado e que os prazos de entrega estavam totalmente fora da realidade.

— Por que o engenheiro-chefe Kasusaka não nos informou? Por que ele não fez um relatório especial?

— Ele fez, Kasigi-san — disse educadamente Watanabe —, mas por ordem da direção do convênio aqui. todos os relatórios têm que passar pelos nossos sócios indicados pela corte. E uma praxe iraniana, embora o empreendimento seja sempre considerado uma joint venture, meio a meio, com divisão de responsabilidades, aos poucos os iranianos conseguem manobrar as reuniões, os contratos e as cláusulas, geralmente usando a corte ou o xá como desculpa, até terem o controle de fato e então... — Ele deu de ombros.

"O senhor não tem idéia de como eles são espertos... piores do que um comerciante chinês, muito piores. Concordam em comprar o animal inteiro, mas dão para trás e levam só o filé, deixando o resto da carcaça nas suas mãos.

— Apagou o cigarro fumado pela metade e acendeu outro. — Houve uma reunião de diretoria com todos os sócios, com Gyokotomo-sama, o próprio Yoshi Gyokotomo, presidente do Sindicato, aqui neste escritório, pouco antes do engenheiro-chefe Kasusaka-san morrer. Eu estava presente. Kasusaka-san avisou a todo mundo que os atrasos e complicações burocráticas dos iranianos, pressão é a palavra certa, iriam atrasar o início da produção e causar um grande aumento nos custos. Eu estava presente, eu o ouvi dizer isso com meus próprios ouvidos, mas ele foi vencido pelos sócios iranianos que garantiram ao presidente que tudo seria reformulado, que Kasusaka-san não entendia o Irã nem o modo deles fazerem negócios no Irã. — Watanabe examinou a ponta do seu cigarro. — Kasusaka-san até disse a mesma coisa em particular para Gyokotomo-sama, implorando-lhe para tomar cuidado, e lhe deu um relatório detalhado por escrito.