O grupo ainda está estraçalhando o pobre Harding quando soam as duas horas.
Às duas horas, o médico começa a se remexer na cadeira. As sessões são desagradáveis para ele, a menos que esteja dissertando sobre sua teoria; ele teria preferido passar o seu tempo lá embaixo, no consultório, fazendo gráficos. Ele se remexe um pouco e finalmente pigarreia, e a enfermeira consulta o relógio e nos diz que é para trazermos de volta as mesas e que retomaremos aquela discussão novamente amanhã, a uma hora. Os Agudos saem do transe, olham na direção de Harding por um instante. Seus rostos queimam de vergonha, como se tivessem acabado de despertar para o fato de que foram feitos de idiotas mais uma vez. Alguns vão para a sala da banheira, do outro lado do corredor, para buscar as mesas, alguns vagueiam até as prateleiras de revistas e demonstram muito interesse pelas velhas revistas Mc Call's, mas o que todos eles realmente estão fazendo é evitar Harding. Foram novamente manobrados para torturar um de seus amigos como se fosse um criminoso e todos eles fossem promotores, juizes e júri. Durante 45 minutos estiveram retalhando um homem em pedaços, quase que como se tivessem prazer nisso, atirando-lhe perguntas: Que é que ele pensa que há de errado com ele, que não consegue satisfazer a dama, por que insiste em dizer que ela nunca teve nada a ver com outro homem; como é que espera ficar bom se não responde com honestidade? - perguntas e insinuações, até que agora se sentem mal a respeito delas e não querem sentir-se pior ainda estando perto dele.
Os olhos de McMurphy acompanham tudo. Ele não sai da cadeira. Tem uma expressão perplexa de novo. Deixa-se ficar sentado na cadeira durante algum tempo, observando os Agudos, roçando o baralho para cima e para baixo nas pontas da barba vermelha até o queixo. Afinal, levanta-se da poltrona, boceja, espreguiça-se e coça a barriga com o canto de uma carta. Depois, enfia o baralho no bolso e vai andando até onde está Harding, sozinho, grudado de suor na cadeira.
McMurphy olha para Harding durante um minuto, em seguida lança a manopla sobre o encosto de uma cadeira de pau que estava por perto, vira-a ao contrário, de forma que o encosto fique de frente para Harding, e monta nela como montaria num cavalinho bem pequeno. Harding não se apercebe de nada. McMurphy remexe os bolsos até encontrar os cigarros, tira um e o acende; ele o segura diante de si, franze o cenho para a ponta, lambe o polegar e o indicador e ajeita a brasa ao seu gosto.
Cada um dos homens parece não se dar conta de que o outro está ali. Não sei nem dizer se Harding nota a presença de McMurphy. Harding está com os ombros bem encolhidos em torno de si, como asas verdes, e está sentado muito ereto perto da beirada da cadeira, com as mãos presas entre os joelhos. Olha fixo para a frente, cantarolando baixinho, tentando aparentar calma – mas ele está mascando as bochechas e isto lhe dá um estranho sorriso de caveira que nada tem de calmo.
McMurphy torna a enfiar o cigarro entre os dentes, cruza as mãos sobre o encosto e descansa o queixo sobre elas, fechando um olho por causa da fumaça. Olha para Harding com o outro olho por algum tempo, depois começa a falar, com o cigarro para cima e para baixo entre os lábios.
– Bem, diga lá, companheiro, é desse jeito que essas sessõezinhas costumam ser?
– Costumam ser? – O cantarolar de Harding pára. Não está mais mascando as bochechas, mas ainda olha fixo para frente, para além do ombro de McMurphy.
– Esse é o pro-cedimento habitual para essas festanças de Terapia de Grupo? Um bando de galinhas numa festa de bicadas?
A cabeça de Harding vira com um movimento brusco e seus olhos acham McMurphy, como se fosse a primeira vez que ele percebesse que alguém está sentado a sua frente. Forma-se uma ruga no meio de seu rosto, quando ele volta a morder o lado de dentro das bochechas, e isso faz com que pareça que está sorrindo. Joga os ombros para trás e encosta-se na cadeira, tentando parecer descontraído.
– Uma "festa de bicadas"? Acho que esse seu modo de falar, estranho e caipira, está além da minha compreensão, amigo. Não faço qualquer idéia de sobre o que você está falando.
– Ora, então deixe que eu lhe explique. – McMurphy levanta a voz; embora não olhe para os outros Agudos que o estão ouvindo, atrás dele, é a eles que se dirige. – O bando avista uma mancha de sangue numa galinlia qualquer e todos eles começam a bicá-la, sabe, até que estraçalham a galinha em pedaços, sangue e ossos e penas. Mas normalmente um par das do bando ganha também sua ferida na confusão, então é a vez delas. E mais algumas ficam machucadas e são bicadas até a morte, e mais outras e outras. Ah, uma festa de bicadas pode acabar com o bando inteiro numa questão de horas, companheiro, eu já vi. É uma cena um bocado assustadora. A única maneira de impedi-lo, com as galinhas, é meter antolhos nelas. De forma que não possam ver.
Harding enlaça os dedos longos em torno de um joelho e o puxa para junto do corpo, recostando-se na cadeira.
– Uma festa de bicadas. Esta é realmente uma analogia divertida, meu amigo.
– E é exatamente o que aquela sessão a que eu acabei de assistir me fez lembrar, companheiro, se você quer saber a verdade suja. Lembrou-me um bando de galinhas sujas.
– Assim, isso faz de mim a galinha com a mancha de sangue, amigo?
– Exato, companheiro.
Ainda estão sorrindo um para o outro, mas o tom de suas vozes tornou-se tão baixo e tenso que tenho de ir varrer mais perto deles para poder ouvir. Os outros Agudos também se estão aproximando.
– E quer saber de mais uma coisa, companheiro? Você quer saber quem dá aquela primeira bicada?
Harding espera que ele continue.
– É aquela enfermeira velha, é ela.
Um gemido de medo quebra o silêncio. Ouço a maquinaria nas paredes engrenar. Harding está enfrentando momentos de dificuldade para manter as mãos paradas, mas continua tentando aparentar calma.
– Assim – diz ele – é apenas isso, é estupidamente apenas isso. Você está na nossa enfermaria há seis horas e já simplificou todo o trabalho de Freud, Jung e Maxwell Jones e resumiu tudo numa única analogia: é uma "festa de bicadas".
– Não estou falando em Fred Yoong e Maxwell Jones, companheiro, só estou falando daquela sessãozinha piolhenta e o que aquela enfermeira e esses outros miseráveis fizeram com você. E fizeram dobrado.
– Fizeram comigo?
– É isso mesmo, fizeram. Fizeram com você em todas as oportunidades que tiveram. Fizeram com você do princípio ao fim. Você deve ter feito alguma coisa para ter esse monte de inimigos aqui neste lugar, companheiro, porque parece mesmo que há um monte aí que estava doido pra apanhar você.
– Ora, isto é incrível. Você ignora por completo, não leva em consideração e ignora por completo o fato de que o que eles estavam fazendo hoje era para o meu próprio bem? Que qualquer questão ou discussão levantada pela Srta. Ratched, ou pelo resto do pessoal, é feita exclusivamente por motivos terapêuticos? Você não deve ter ouvido uma palavra da teoria do Dr. Spivey sobre a Comunidade Terapêutica, ou se ouviu, não deve ter tido a educação necessária para compreendê-la. Estou desapontado. Eu havia concluído, pela nossa conversa desta manhã, que você era mais inteligente. Um cabeça-dura, analfabeto, talvez, certamente um fanfarrão caipira com tanta sensibilidade quanto um ganso, mas basicamente inteligente, não obstante tudo isso. Mas, embora eu costume ser observador e introspectivo, ainda cometo erros.