– Mas você não disse… que ela não manda a gente para aquela outra enfermaria a menos que apanhe a gente de jeito? A menos que ela consiga quebrar a gente de alguma maneira e a gente acabe xingando ou arrebentando uma janela ou coisa parecida?
– A menos que se faça alguma coisa assim.
– Mas você tem mesmo certeza disso? Porque começando a ter os primeiros sinais de uma idéia de como tomar um dinheirinho de vocês aqui. Mas não quero bancar o bobo nessa história. Demorei um bocado e passei por poucas e boas para sair daquele outro buraco; não quero dar uma de pular da frigideira e cair no fogo.
– Tenho certeza absoluta. Ela nada pode fazer, a menos que você faça alguma coisa que mereça honestamente a Enfermaria dos Perturbados, ou o TE. Se você for suficientemente duro para não deixar-se apanhar, ela nada poderá fazer.
– Assim, se eu me comportar e não der porrada nela…
– Nem der porrada num dos ajudantes.
– Nem der porrada num dos ajudantes, nem estourar a banca de alguma maneira por aqui, ela não pode fazer nada comigo?
– Estas são as regras de acordo com as quais nós jogamos aqui. É claro que ela sempre ganha, meu amigo, sempre. Ela própria é invulnerável e, com um fator tempo trabalhando a seu favor, acaba conseguindo quebrar as defesas de cada um. É por isso que o hospital a considera sua melhor enfermeira e lhe dá tanta autoridade; ela é mestra em forçar a libido trêmula a se expor…
– Para o inferno com tudo isso. O que quero saber é se é seguro para mim tentar derrotá-la no seu próprio jogo? Se eu ficar bonzinho como um cordeiro quando estiver com ela, não importa o que eu in – sinue, ela não vai ter um ataque e mandar me eletrocutar?
– Você está em segurança enquanto mantiver o controle. Desde que você não perca a cabeça e não dê a ela razão verdadeira para requerer o internamento na Enfermaria dos Perturbados, ou os benefícios terapêuticos do Choque Elétrico, você está em segurança. Mas isto requer antes, e mais do que tudo, manter a cabeça fria. E você? Com o seu cabelo de fogo e a sua folha de serviços negra? Por que enganar a si mesmo?
– O.K. Está bem. – McMurphy esfrega as palmas das mãos. – É o seguinte que eu estou pensando: vocês parecem supor que têm aqui a campeã da verdade, não é? Quase a… do que foi que você a chamou… claro, mulher invulnerável. O que eu quero saber é quantos de vocês têm certeza absoluta mesmo, a ponto de apostarem nela?
– Certeza absoluta mesmo, a ponto…
– Exatamente o que eu disse: algum de vocês espertinhos aí está disposto a apostar cinco pratas comigo como sou capaz de levar a melhor com aquela mulher… antes que a semana termine… sem que ela consiga me pegar? Uma semana, e se eu não conseguir levá-la a um ponto onde ela não saiba se dá ou se desce, terá ganho a aposta.
– Você está apostando nisso. – Cheswick começa a pular de um pé para outro, esfregando as mãos como McMurphy esfrega as dele.
– Você está absolutamente certo.
Harding e alguns dos outros dizem que não entenderam.
– É bastante simples. Nada há de nobre ou de complicado. Eu gosto de jogar. E gosto de ganhar. E acho que posso ganhar esta aposta, O.K.? Eu cheguei a um ponto em Pendleton que os caras não arriscavam mais nem um centavo comigo, porque eu só sabia ganhar. Puxa, uma das razões principais por que arranjei de ser mandado para cá foi porque eu precisava de uns otários novos. Vou dizer-lhes uma coisa: descobri alguns detalhes a respeito deste lugar, antes de vir para cá. Mais ou menos a metade de vocês recebe de indenização uns 300 ou 400 por mês e não têm nada no mundo para fazer com o dinheiro, além de deixá-lo juntar poeira. Achei que podia tirar vantagem disso e talvez tornar a vida de todos nós um pouco mais rica. Estou começando com vocês do mesmo ponto. Sou um jogador e não estou habituado a perder. E nunca vi uma mulher que eu achasse que fosse mais homem do que eu, não importa se fico teso por ela ou não. Ela pode ter o fator tempo, mas eu já tenho a meu favor uma lista de vitórias bem grande. – Ele tira o gorro, o faz girar no dedo, atira para trás e o apanha nas costas com a outra mão, certinho, certinho. – Outra coisa: estou aqui neste lugar porque foi assim que planejei, pura e simplesmente porque é um lugar melhor do que uma colônia penal. Tanto quanto posso dizer, não sou nenhum maluco, nem nunca soube que fosse. A sua enfermeira não sabe disso; ela não vai estar preparada para ver alguém aproximar-se dela com uma cuca super-rápida como a que eu obviamente tenho. Essas coisas me dão uma agudeza de que eu gosto. Assim, estou dizendo cinco paus pra cada um de vocês que queira se eu não conseguir fazer um bom revertério na cuca daquela enfermeira numa semana.
– Ainda não tenho certeza de que eu…
– É isso aí, uma abelha atrás da orelha dela, uma pulga nas calcinhas dela. Apanhá-la de jeito. Fundir a cuca dela a tal ponto que ela se desmanche toda naquelas costurinhas bem feitas e mostre, apenas uma vez, que não é tão invencível como vocês pensam. Uma semana. Vou deixar que vocês sejam os juízes para decidir se ganhei ou não.
Harding pega um lápis e escreve alguma coisa no bloco de pinocle.
– Tome. Um vale de 10 dólares daquele dinheiro que eu tenho juntando poeira em meu nome, nos Fundos. Vale duas vezes isso para mim, meu amigo, ver esse milagre improvável realizar-se.
McMurphy olha para o papel e o dobra.
– Está valendo para mais algum outro de vocês aí, caras? - Os outros Agudos agora se enfileiram, esperando sua vez para usar o bloco. Ele pega os pedaços de papel quando acabam, segurando-os todos juntos na palma da mão sob o grande polegar rijo. Vejo os pedaços de papel se irem amontoando na mão dele. Ele os examina.
– Vocês confiam em mim o suficiente para ficar com o dinheiro das apostas, companheiros?
– Eu acho que podemos ficar tranqüilos quanto a isso – diz Harding. – Você não irá a lugar nenhum durante algum tempo.
Num natal, à meia-noite em ponto, no hospital antigo, a porta da enfermaria se abre com estardalhaço, entra um homem gordo de barba, os olhos avermelhados pelo frio, e o nariz da cor de uma cereja. Os crioulos o encurralam num canto do corredor com lanternas. Vejo que está todo emaranhado nos enfeites que o Relações-Públicas prendeu com cordões por todos os lados, e está cambaleando na escuridão. Está cobrindo os olhos vermelhos por causa das lanternas e chupando o bigode.
– Oh, oh, oh – diz ele. – Gostaria de ficar, mas tenho de ir indo. Um programa muito apertado, sabe? Tenho de ir indo.
Os crioulos entram, com as lanternas. Eles o mantiveram conosco durante seis anos, antes de lhe darem alta, bem barbeado e magro como um poste.
A Chefona é capaz de regular o relógio da parede para andar na velocidade que ela quiser, é só virar um daqueles mostradores na porta de aço; quando ela mete na cabeça a idéia de apressar as coisas, aumenta a velocidade, e aquelas mãos batem em torno daquele disco como as traves numa roda. A cena nas janelas de tela de cinema sofrem mudanças rápidas de luz para mostrar a manhã, o meio-dia e a noite – aparecem e desaparecem em lampejos, furiosamente, com dia e escuridão, e todo mundo se apressa loucamente para acompanhar aquela falsa passagem do tempo; uma confusão horrível de fazer barbas, tomar café e consultas e almoços e remédios e 10 minutos de noite, de forma que você mal consegue fechar os olhos antes que a luz do dormitório esteja berrando na sua cara para se levantar e começar a confusão de novo, ir assim como um filho da puta, executando o esquema inteiro de um dia talvez 20 vezes por hora, até que a Chefona vê todo mundo ali a ponto de estourar, e ela reduz a aceleração, diminui o ritmo no botão do relógio como se fosse uma criança brincando com uma máquina de projeção de cinema, e finalmente tivesse ficado cansada de ver o filme correr a uma velocidade dez vezes maior que a normal, tivesse ficado entediada com toda aquela agitação idiota e aquela fala guinchada de inseto e fizesse tudo voltar ao normal.